Por que não precisamos usar cinto de segurança nos ônibus municipais?
Os ônibus andam em velocidades relativamente baixas, por trajetos com muitas paradas, separadas por distâncias curtas. Esses veículos são projetados para que os passageiros possam viajar de pé, embarcando ou desembarcando com mais agilidade. Por isso, o artigo 105 do Código de Trânsito Brasileiro abre uma exceção à obrigatoriedade do cinto de segurança nesses veículos.
Mesmo sem a proteção, os coletivos são mais seguros do que os carros: a taxa de mortes em acidentes de trânsito dentro dos ônibus é de 0,05 a cada 100 mil habitantes. Já os carros causam 2,87 mortes por 100 mil habitantes – 57 vezes mais. Os dados são da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Curiosamente, algumas estimativas também sugerem que o simples ato de caminhar até a parada de ônibus pode ser 100 vezes mais arriscado do que estar dentro do ônibus.
A explicação está na inércia: em casos de colisão, a física também dá uma vantagem aos coletivos. Quando dois veículos de pesos diferentes batem um no outro, o veículo mais pesado tende a conservar mais da sua inércia. Isto é, numa colisão entre um ônibus e um carro, quem vai sofrer a maior mudança de velocidade, e, por consequência, os maiores danos, será o carro – enquanto o ônibus e seus passageiros podem passar relativamente incólumes.
Nos carros, a principal causa de morte é a ejeção, quando a parada brusca do veículo faz com que a pessoa seja lançada para fora. Muito por isso, os cintos de segurança são os equipamentos mais importantes para a prevenção de lesões e mortes em acidentes de trânsito. Para esses veículos, as fivelas cortam por mais da metade a fatalidade dos acidentes, assim como o risco de lesão grave.
A principal causa de morte dentro dos coletivos também é a ejeção, mas elas não são tão comuns. Quando ferimentos acontecem, em dois terços dos casos, são passageiros em pé que sofreram uma queda, e isso ocorre principalmente durante frenagens ou acelerações bruscas. Outra parte das lesões também acontece durante o momento do embarque e desembarque.
Tendo isso em vista, talvez a aposta mais segura seja garantir que cada passageiro tenha seu próprio assento. Mas vale a pergunta: haveria, então, alguma vantagem em colocar cintos de segurança nos ônibus? Esse assunto é controverso, e alguns pesquisadores até sugerem que, em alguns casos, isso seria ainda mais arriscado.
Em geral, os assentos dos ônibus são feitos de tal forma que, na ocasião de uma colisão frontal, os passageiros sejam jogados em direção ao encosto da frente, batendo primeiro os joelhos, depois a parte de cima do tronco. Isso permite com que a força do impacto seja melhor distribuída pelo corpo. Por outro lado, um passageiro amarrado apenas pela cintura com uma fivela apenas se inclinaria para frente, sofrendo um impacto bem maior na cabeça e no tronco.
Além disso, outras questões práticas também dificultariam a aplicação do equipamento. Primeiro, toda a frota de ônibus teria de ser readequada, e a instalação de cintos de segurança em modelos já existentes poderia causar um estresse repentino no chassi do veículo, comprometendo toda a estrutura.
Depois, a obrigatoriedade do cinto necessariamente traria a proibição dos passageiros em pé, o que demandaria um aumento imediato na frota. Além disso, há também a questão da fiscalização: para o motorista ou o cobrador, seria impossível monitorar se todos os passageiros estão com o cinto afivelado.
Pergunta de Guilherme Rodrigues, via email
Fontes: artigos Seat belt usage in buses – An observation study of usage and travellers’ perspectives; Safety Implications of Seat Belts on Transit Buses; Safety as a key performance indicator: Creating a safety culture for enhanced passenger safety, comfort, and accessibility; RESEARCH STUDY #C-02-13 ANALYSIS OF BUS CRASH DATA; Relatório geral de 2024 do Sistema de Informações de Mobilidade Urbana da ANTP
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