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Curiosidades

Ilhas da fantasia: conheça as micronações criadas por bilionários e libertários

Texto Felipe van Deursen Ilustração Ana Kozuki Design Caroline Aranha Edição Rafael Battaglia

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a véspera de Natal de 1966, o britânico Paddy Roy Bates, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, navegou 11 km pelo Mar do Norte até Roughs, uma antiga plataforma antiaérea na costa inglesa. 

Militar reformado, Bates estava determinado a escalar a estrutura para transformá-la em uma estação de rádio pirata. Naquela época, a BBC, que monopolizava a programação, só tocava música no meio da noite. Imagine: em pleno Reino Unido de 1966, os horários para escutar Tom Jones, Kinks, Supremes, Beach Boys, Elvis Presley ou The Who (os artistas mais populares naquele Natal) eram bem limitados, para o desespero dos fãs.

Bates passou a integrar um movimento que começou no outro lado do Mar do Norte, na costa holandesa, em 1964, quando surgiu a Ilha REM. A lei dos Países Baixos não permitia a radiodifusão comercial, então algumas pessoas insatisfeitas com isso criaram uma estação em águas internacionais. A transmissão de música o dia inteiro a partir de navios ou plataformas virou uma bandeira em prol da mídia independente. 

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O militar britânico chegou a ficar meses sem voltar para casa, sobrevivendo à base de carne enlatada, farinha, arroz-doce e uísque. Ao retornar, disse que a rádio era um presente para sua esposa e que agora ela tinha sua própria ilha. Ela agradeceu, mas disse que faltavam palmeiras, sol e uma bandeira. 

A vibe tropical seria difícil de reproduzir. Mas a bandeira era fácil. Assim, Bates fundou o Principado de Sealand em 1967.

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Duas torres de concreto sustentando uma estrutura com o tamanho de duas quadras de tênis. A plataforma militar, abandonada desde o fim da guerra, podia ser minúscula para ser considerada um país, mas Bates não se importou. E a sua micronação conseguiu chamar atenção e irritar o governo britânico. 

Segundo Ian Urbina, criador do Outlaw Ocean Project, ONG jornalística focada em crises humanitárias e ambientais nos mares e oceanos, houve algumas tentativas de retomar a plataforma, às vezes com apoio de mercenários. Todas foram recebidas com balas e bombas. Documentos oficiais mostram que, no fim dos anos 1960, Sealand chegou a ser vista como uma possível ameaça em plena Guerra Fria. Autoridades discutiram a hipótese de bombardeá-la.

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Ao longo das décadas, Sealand acumulou golpes, contragolpes e crises de reféns. Vivenciou projetos extravagantes para virar cassino, paraíso digital ou uma base do Wikileaks (nenhum foi adiante). Além de uma bandeira, o principado tem passaporte, moeda e brasão de armas, mas carece do reconhecimento internacional que caracteriza um Estado soberano. Ainda assim, virou um experimento sobre os limites das instituições diplomáticas e um exemplo de como ilhas podem inspirar e servir de cenário para projetos de poder utópicos, megalomaníacos ou simplesmente malucos.

Michael Oliver talvez seja aquele que mais acumulou tentativas do tipo. Nascido na Lituânia, esse jovem judeu sobreviveu aos campos de concentração nazistas, emigrou para os EUA e fez fortuna em negócios imobiliários e com a venda de metais preciosos. Em 1968, ele publicou um manifesto para a criação de uma nação livre da burocracia e das regulações que, na sua visão, sufocavam o empreendedorismo.

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O livreto, divulgado de forma independente, encontrou um público receptivo. Além disso, a época parecia favorável a sonhos do tipo. A descolonização do pós-guerra fez surgir dezenas de países no mundo, então Oliver acreditava que poderia negociar com algum governo recém-independente para adquirir um território.

Entre 1968 e 1971, ele e seus seguidores percorreram Bahamas, Curaçao, Honduras, Suriname, Guiana Francesa, Vanuatu e Nova Caledônia em busca de um local adequado. Estudaram clima, sistemas políticos e legislação fundiária. Nenhum projeto prosperou, então ele decidiu procurar um território que não pertencesse a ninguém.

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Em 1971, Oliver financiou uma operação para criar uma ilha artificial nos recifes de Minerva, no Pacífico Sul. Uma draga partiu da Austrália e começou a despejar areia sobre um atol submerso. O plano era explorar um vácuo no Direito Internacional: se a ilha fosse artificial, desabitada e situada em alto-mar, talvez ele pudesse reivindicar soberania.

Minerva e Sealand, além da Ilha das Rosas, que surgiu no litoral italiano com características semelhantes, inspiraram mais sonhos do tipo, em outras épocas, como as caribenhas New Utopia (década de 1990) e o Principado de Islândia (anos 2010). Idealizadas como comunidades autossuficientes fora do alcance dos governos tradicionais, elas combinavam utopia política e fantasia empresarial.

A pesquisadora Manar Moursi, especializada em teoria da arquitetura e autora de artigos sobre as características políticas, filosóficas e urbanísticas das ilhas, lembra que governos centrais, muitas vezes, criavam funções específicas para ilhas, quase sempre algo negativo, que ninguém queria por perto. É o caso de prisões e centros de quarentena insulares. Já no caso de utopias como as descritas anteriormente, a principal motivação é a liberdade política.

O pensador anarquista estadunidense Peter Lamborn Wilson criou nos anos 1990 o conceito das zonas autônomas temporárias (TAZ, na sigla em inglês), regiões que fogem das estruturas formais de controle. Para ele, as ilhas comandadas por piratas no século 17 eram exemplos de micronações utópicas. É o caso de Libertalia, uma suposta colônia na costa de Madagascar cuja existência jamais foi comprovada, e da República de Salé, que resistiu por 40 anos no Marrocos.

<span class=”hidden”>–</span>Ana Kozuki/Superinteressante

Inspiração platônica

Segundo Moursi, talvez o relato mais antigo de uma ilha fictícia seja Atlântida. Platão a descreveu em seus Diálogos como uma potência naval cujos habitantes, em seu ambiente isolado, se tornaram mais corruptos e gananciosos do que os povos do continente, até que foram engolidos por um desastre natural que submergiu a ilha.

Ao longo dos séculos, o mito ganhou novas formas, subvertendo a distopia e pintando Atlântida como uma sociedade esplendorosa. Essa visão influencia, até hoje, a criação de micronações insulares. “Visionários utópicos buscam capitalizar o isolamento como uma ferramenta de transformação política”, explica Moursi. “Para eles, dilemas políticos, como divisões étnicas ou ideológicas, podem ser resolvidos por meio da separação física em ilhas.”

Aqueles que queriam livrar-se das restrições de seus governos no continente buscavam refúgio em ilhas, tirando proveito da capacidade natural delas de isolar as pessoas. Os ideais variavam um bocado, mas desde meados do século 20 eles adquiriram um viés libertário (o libertarianismo, com o nome adianta, prega a liberdade individual ao máximo e a atuação mínima do Estado).

Nos anos 1970, o comerciante alemão Alexander Achenbach aproximou-se de Bates com planos de expandir a micronação. Virou ministro das Relações Exteriores e ajudou a redigir a Constituição, enviando-a a dezenas de países e à ONU. Foi ignorado, mas não totalmente, como os acontecimentos seguintes mostraram de maneira bizarra.

Ilustração de um navio draga rosa despejando areia no mar para formar uma ilha artificial, com um selo postal de Minerva Dollars no canto inferior esquerdo.
<span class=”hidden”>–</span>Ana Kozuki/Superinteressante

Achenbach acabou rompendo com Bates e, com apoio do advogado Gernot Pütz, participou de uma invasão à plataforma que culminou no sequestro do filho do fundador, Michael. Bates reuniu homens armados, retomou Sealand e prendeu Pütz por traição. Quando um diplomata alemão foi à plataforma para negociar a libertação do advogado, Bates interpretou a visita como um reconhecimento implícito da soberania de Sealand. Pütz foi libertado após pagar multa e, anos depois, voltou a se aliar a Bates: ele representou o fundador do micropaís em um processo contra Achenbach e os invasores, o que alimentou suspeitas de que todo o episódio fora forjado para promover Sealand.

Enquanto isso, na Oceania, Oliver organizou uma estrutura administrativa, reuniu cerca de 15 mil interessados e, em 1972, proclamou a independência da República de Minerva, com direito a bandeira, moeda e governo próprios. Enviou cartas a mais de cem países, mas, assim como Sealand, não teve reconhecimento de ninguém. Ainda assim, ele acreditava que isso era questão de tempo. 

Os recifes ficam entre Fiji e Tonga, duas nações insulares do Pacífico que integraram o Império Britânico e conquistaram a independência em 1970. Até então, nenhuma delas havia reivindicado a área de Minerva, mas a chegada dos libertários de Oliver mudou o cenário.

O rei de Tonga, Taufa’ahau Tupou IV, afirmou que não permitiria que um grupo privado se estabelecesse nos recifes para fins lucrativos. Com apoio de Fiji e de outros países da região, Tonga enviou uma pequena força para o local e, sem dificuldades, o conquistou. 

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O fim do sonho

O fracasso não encerrou a luta de Oliver. Em 1973, ele tentou apoiar um movimento separatista nas Ilhas Ábaco, nas Bahamas. O projeto reuniu empresários, mercenários, traficantes de armas, aristocratas britânicos dissidentes e ex-agentes da CIA. A estratégia era explorar o sentimento autonomista existente no arquipélago, mas não deu certo.

Na década seguinte, ele voltou à carga nas Novas Hébridas, arquipélago na Oceania administrado em conjunto por França e Reino Unido e que se preparava para se tornar independente sob o nome de Vanuatu. Oliver se aliou ao líder local Jimmy Stevens e apoiou a proclamação de outro país: a República de Vemerana, na ilha de Espírito Santo. 

O governo recém-formado de Vanuatu pediu ajuda à vizinha Papua Nova Guiné, que enviou tropas para esmagar a rebelião de Vemerana. Pela segunda vez, os libertários foram derrotados por um dos menores exércitos do mundo. 

Em 1982, antigos integrantes do projeto retornaram à Oceania para os recifes de Minerva a fim de retomar a área. Foram expulsos pelas forças tonganesas em poucas semanas. 

Quanto a Sealand, ao longo de todas essas décadas, a população foi de apenas seis moradores permanentes. A antiga estrutura militar ganhou uma usina eólica. No site oficial do “país”, dá para comprar um título de nobreza por R$ 300. 

Manter energia, comunicação e infraestrutura em meio à maresia e às tempestades do Mar do Norte é caro e complicado. Mas o simples fato de a micronação ainda existir é o mais surpreendente. Segundo Urbina, do Outlaw Ocean Project, o segredo da sobrevivência está em suas ambições modestas. Ignorada pela comunidade internacional, ela ocupa um vazio jurídico sem representar ameaça. Se antes houve alguma preocupação, hoje ninguém liga. Bates morreu em 2012, deixando o trono para o filho Michael, que vive nos Países Baixos. 

Ilustração de um vilarejo costeiro com casas brancas e telhados vermelhos, palmeiras e uma praia de areia clara. Ao fundo, montanhas verdes e um lago. No canto inferior esquerdo, um selo postal com tubos de ensaio, um erlenmeyer com líquido rosa, uma placa de Petri e uma pipeta.
<span class=”hidden”>–</span>Ana Kozuki/Superinteressante

Novos  empreendimentos

Sealand, Minerva e outros projetos libertários serviram de inspiração para o seasteading, termo em inglês para a criação de habitações permanentes no mar em territórios não governados por qualquer Estado. Em 2008, surgiu o Instituto Seasteading, cofundado por Patri Friedman, um ativista anarcocapitalista com sobrenome famoso – seu avô era Milton Friedman, um dos economistas mais importantes do século 20 e considerado “pai do neoliberalismo”. 

A proposta do instituto é criar comunidades oceânicas que funcionem como “cidades-Estado guiadas pela mentalidade do empreendedorismo”. O projeto teve como financiador o multibilionário da tecnologia Peter Thiel, cofundador do PayPal e um conhecido ativista libertário. “Daqui a décadas, quem olhar para o início do século entenderá que o conceito de ‘seasteading’ foi um passo óbvio para incentivar o desenvolvimento de modelos mais eficientes e práticos no setor público em todo o mundo”, declarou Thiel à época, defendendo a ideia de governos competitivos que funcionam como um sistema de economia de livre mercado.

O instituto chegou a ter conversas com autoridades da Polinésia Francesa, porém nada foi para a frente. Mas Friedman e Thiel, ao lado de Sam Altman, CEO da OpenAI (dona do ChatGPT), encontraram em Honduras terreno para seus experimentos. Eles apoiaram o projeto de Erick Bremen, investidor nascido na Venezuela que desembarcou em 2018 no país da América Central com a promessa de criar uma cidade capaz de reinventar a forma como os governos funcionam: Próspera, a “cidade startup”. 

Trata-se de uma “zona de emprego e desenvolvimento econômico” (Zede), uma área concedida pelo governo hondurenho com ampla autonomia administrativa, fiscal e jurídica. Bremen aproveitou essa oportunidade para apresentar o que seria a experiência mais avançada do mundo em autogovernança privada.

Com impostos mínimos, regulamentação flexível e um sistema jurídico próprio, o projeto atraiu investidores do Vale do Silício, entusiastas de criptomoedas e adeptos do libertarianismo. Criadas em 2013, as Zedes geraram polêmica. Seus defensores prometiam investimentos e eficiência regulatória, enquanto os críticos denunciavam a criação de territórios quase independentes dentro do país.

Além da grana do Vale do Silício, Próspera, que fica localizada na ilha de Roatán, atraiu um outro público. Investidores interessados em ampliar a expectativa de vida, modificar o corpo humano ou explorar tecnologias médicas controversas passaram a frequentar o local. Segundo reportagem do The New York Times, Patri Friedman viajou à ilha para ter um chip da Tesla implantado na mão. Em palestras, ele afirmou já ter usado pasta de dente com bactérias transgênicas que evitariam cáries e que tomou uma injeção de proteínas especiais que o tornariam mais forte e mais rápido. 

Bryan Johnson, bilionário que ficou famoso por querer ser imortal e por levar a obsessão pelo rejuvenescimento a níveis colossais, também foi a Próspera fazer terapia genética. A busca pela longevidade tem público cativo na ilha. Em 2024, um centro de pesquisas chamado Vitalia recebeu um público de investidores em biotecnologia e cientistas com o slogan “Torne a morte opcional”.

Próspera virou um polo de atração de biohackers, entusiastas da longevidade e investidores interessados em ampliar a expectativa de vida, modificar o corpo e explorar tecnologias médicas controversas – ou proibidas – em outros países. Observadores internacionais a veem mais como um parque temático ultraliberal do que como uma cidade do futuro. Seu sistema judicial, por exemplo, depende de juízes aposentados nos EUA que realizam audiências remotamente. A “Hong Kong caribenha”, como já foi chamada, está mais para uma “república das bananas privatizada”, dizem os críticos.

Não é uma comparação aleatória. A história de Honduras é marcada por influência estrangeira. O termo “república das bananas” foi criado no início do século 20 por um humorista norte-americano como referência ao país, que era dominado por empresas dos EUA produtoras de frutas. 

Além disso, Roatán, séculos atrás, serviu de refúgio para piratas ingleses, franceses e holandeses. O que talvez reforce a “vocação” da ilha para atrair gente disposta a desafiar fronteiras, autoridades e convenções.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.