Homens são duas vezes mais propensos a “quebrar” em maratonas. Entenda por quê
Todo maratonista teme o momento de “quebrar”. É quando as pernas parecem pesar toneladas, a fadiga toma conta do corpo e manter o ritmo se torna praticamente impossível. Esse colapso costuma acontecer depois de dezenas de quilômetros correndo e, muitas vezes, transforma uma prova promissora em um sofrimento sem fim até a linha de chegada.
Agora, o maior estudo já feito sobre esse fenômeno sugere que homens têm o dobro de chance de “quebrar” durante a prova em relação às mulheres. Entre os corredores mais rápidos, a diferença é ainda maior: eles são seis vezes mais propensos a sofrer essa queda brusca de desempenho do que as mulheres.
O trabalho, publicado na revista Scientific Reports, analisou os resultados de todos os corredores que completaram a Maratona de Berlim entre 1999 e 2025. A prova foi escolhida porque seu percurso é plano e pouco sujeito a variações de relevo, o que facilita comparar o desempenho entre diferentes edições.
Ao todo, foram estudadas 873.334 participações, registradas por meio dos chips eletrônicos usados para medir os tempos durante a maratona. Como um mesmo atleta pode ter participado em vários anos, algumas pessoas aparecem mais de uma vez na base de dados.
Os pesquisadores definiram que um corredor havia “quebrado” quando seu ritmo na segunda metade da maratona caía pelo menos 20% em relação à primeira metade.
Essa desaceleração é bem maior do que a fadiga normal esperada ao longo de 42,195 quilômetros (extensão total do percurso) e já havia sido usada em estudos anteriores como um indicador de colapso de desempenho.
Em média, os homens completaram a prova mais rápido que as mulheres: em 4 horas e 2 minutos, contra 4 horas e 29 minutos. Ainda assim, 17,6% deles sofreram uma desaceleração intensa, ante apenas 9,7% das mulheres. Ou seja, para cada mulher que “quebrou”, aproximadamente dois homens passaram pelo mesmo problema.
A diferença ficou ainda mais evidente entre os atletas de melhor desempenho. Entre aqueles que terminaram a maratona em menos de três horas, apenas 0,23% das mulheres quebraram. Entre os homens, a taxa foi de 1,42%, cerca de seis vezes maior.
“Eu esperava que a experiência e o treinamento diminuíssem a diferença no topo, mas, em vez disso, ela aumentou”, afirmou Aldo Seffrin, fisiologista e coautor do estudo, à Scientific American. “Isso me indica que a falha no ritmo não é simplesmente um erro de iniciante.”
Além de quebrarem com mais frequência, os homens também correram de forma menos constante. A análise dos tempos registrados a cada cinco quilômetros mostrou que o ritmo masculino variava mais ao longo da prova.
Enquanto muitos corredores desaceleravam apenas depois dos 25 km, as mulheres tendiam a reduzir o ritmo um pouco antes, por volta dos 20 km, mas de maneira muito mais gradual.
Mais da metade delas manteve um ritmo estável durante praticamente toda a maratona, contra pouco mais de um terço dos homens. Nos cinco quilômetros finais, eles estavam, em média, 18% mais lentos do que no começo da prova; entre elas, essa queda foi de cerca de 13%.
O que explica a diferença entre homens e mulheres?
A explicação mais aceita envolve o glicogênio, a principal reserva de carboidratos do organismo. Durante uma maratona, os músculos consomem rapidamente esse combustível.
Quando ele acaba, o corpo passa a depender principalmente da gordura para produzir energia. O problema é que esse processo é mais lento, o que dificulta manter o mesmo ritmo e provoca a sensação clássica de exaustão.
Os autores levantam a hipótese de que as mulheres consigam preservar as reservas de glicogênio por mais tempo. Estudos anteriores mostram que, durante exercícios prolongados, elas tendem a recorrer mais à gordura como fonte de energia, poupando carboidratos para os quilômetros finais da prova.
Essa vantagem pode estar ligada, entre outros fatores, à ação do estradiol, hormônio que favorece esse processo, e à maior proporção relativa de fibras musculares de contração lenta, que utilizam o oxigênio com mais eficiência e resistem melhor à fadiga.
Os pesquisadores, porém, acreditam que a biologia não explica tudo. Uma outra possibilidade é que os homens adotem estratégias mais arriscadas, largando em um ritmo acima do que conseguem sustentar até o fim.
O próprio estudo aponta que eles apresentam um padrão de corrida menos regular, compatível com essa hipótese. Segundo Seffrin, ainda faltam pesquisas que combinem dados fisiológicos e fatores psicológicos para determinar quanto dessa diferença se deve ao metabolismo e quanto resulta das decisões tomadas durante a prova.
Isso também significa que há espaço para reduzir o risco. Os autores sugerem que muitos homens poderiam se beneficiar de uma estratégia conhecida como negative split: completar a primeira metade da maratona de forma mais cautelosa e acelerar gradualmente na segunda, em vez de começar muito rápido e perder rendimento nos quilômetros finais.
Vale ressaltar que o estudo tem algumas limitações. Ele avaliou apenas uma maratona, embora ao longo de 27 edições, e incluiu somente corredores que cruzaram a linha de chegada. Quem abandonou a prova ficou de fora, o que provavelmente faz a frequência real de “quebras” ser ainda maior.
Além disso, os pesquisadores não mediram diretamente fatores como níveis de glicogênio, hormônios ou características psicológicas dos participantes. Assim, as explicações propostas ainda são hipóteses que precisarão ser testadas em estudos futuros.
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