Ginástica sueca e exercícios militares: a origem da yoga é bem diferente do que você pensa
Uma prática milenar hindu que une corpo, mente e espírito — essa é a definição clássica da yoga, uma atividade que nasceu na Índia e significa “unir” em sânscrito. No mundo todo, estima-se que 300 milhões de pessoas sejam adeptas da yoga, segundo a International Yoga Federation, enquanto no Brasil, apesar de não haver números oficiais, temos algo entre 500 mil e 1 milhão de participantes.
Os benefícios são inúmeros: a yoga contribui contra ansiedade e depressão, melhora o sono, atua na capacidade pulmonar, combate dores crônicas e até aumenta a felicidade, entre outras benesses que algum amigo seu com certeza já se dispôs a te contar. E as variações hoje permitem que cada um encontre sua turma: hot yoga, beer yoga, dog yoga, wine yoga, hip hop yoga… o cardápio é vasto.
Mas a yoga como a conhecemos hoje não vem exatamente da Índia antiga. Na verdade, muitas das posturas (asanas) e sequências mais conhecidas da prática, incluindo “cão olhando para baixo” e surya namaskar (ou “saudação ao Sol”) não são encontradas em textos antigos.
Segundo a jornalista Michelle Goldberg, autora do livro The Goddess Pose, a maioria das asanas mencionadas nos textos antigos da Índia são realizadas sentadas ou deitadas e não contêm sequências em pé, como o surya namaskar.
Estilos populares de yoga como Ashtanga, Iyengar e Vinyasa Flow também são versões modernas. “Encontramos elementos deles em textos antigos e fontes históricas, mas muitas partes são inovações modernas em termos de yoga”, afirma à BBC o Dr. James Mallinson, pesquisador de história da yoga e professor sênior da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.
Ginástica sueca
O sueco Pehr Henrik Ling (1776–1839) é considerado o precursor da Educação Física moderna e o pai da ginástica em seu país. Ling criou diversos exercícios sistematizados de postura, respiração e alongamento e convenceu a todos que era responsabilidade do governo instituir e incentivar a ginástica nas escolas e para os cidadãos em geral.
As ações de Ling tinham um forte contexto idealista — ele acreditava que era possível desenvolver o espírito humano fortalecendo o corpo.
De acordo com Mark Singleton, autor do livro Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice (2010), muitos movimentos fluidos e séries posturais da yoga moderna (especialmente vinyasa) têm paralelos diretos com a ginástica escolar europeia do século 19. A yoga trouxe de Ling a ideia de que é possível corrigir problemas físicos e espirituais do corpo por meio de exercícios.
“Physical culture” britânica
As ideias de Ling também chegaram ao Reino Unido, assim como as de outros educadores. No século 19, a chamada “physical culture” já era um fenômeno no país, onde homens se reuniam em ginásios (“gyms”) para praticarem juntos e melhorarem seus corpos. Ela consistia principalmente em exercícios calistênicos (que usa apenas o peso do próprio corpo de peso) ginástica com halteres e pesos leves e exibições de força, embora ainda não fosse um fisiculturismo propriamente dito. Além de estética, esse sistema pregava saúde e disciplina.
Durante o Império Britânico, esse modelo foi exportado para escolas e instituições nas colônias, como a Índia. Por lá, já existiam tradições de disciplina corporal intensa, especialmente em contextos como os akharas de luta e práticas ascéticas de resistência física. Esses sistemas de treinamento físico passaram a coexistir com os modelos europeus de “physical culture”.
Nesse ambiente de troca, elementos ocidentais e indianos passaram a se influenciar mutuamente, contribuindo para a reformulação das práticas corporais associadas ao yoga moderno. Depois, ocorreu um movimento de exportação: os britânicos criaram interesse por essa yoga já modificada, mais física e sistemática, e a levaram para seu país.
Ou seja: a yoga não copiou a cultura física ao pé da letra, mas incorporou conceitos que considerava interessantes, como as séries, as repetições, as posturas corretas e a conexão entre corpo e disciplina.
Exercícios militares
A colonização britânica na Índia também levou à criação de unidades da YMCA (Young Men’s Christian Association) no país. Em essência, o YMCA era uma associação cristã com fins educativos que trazia a educação física como um de seus pilares. Sem querer, esse grupo se tornou uma das maiores influências ocidentais na yoga no século 19.
Os instrutores da YMCA na Índia incluíram exercícios militares e posturas da “physical culture” em seu programa físico. Sua visão era que os indianos eram fisicamente fracos e precisavam disciplinar seus corpos. Além disso, acreditavam que a yoga tradicional não fazia muito pelo físico das pessoas. O Hatha Yoga, ramo da yoga que consiste em práticas físicas para canalizar a energia vital, passou por reformulações na época.
Mark Singleton conta o seguinte em seu livro: “Em 1896, repugnado pelas contorções físicas e corpos retorcidos das posturas de yoga, Swami Vivekananda afirmou que rejeitava o Hatha Yoga por ser muito difícil, não poder ser aprendido rapidamente e não levar a um grande crescimento espiritual, e porque o objetivo de fazer os homens viverem muito e com saúde perfeita não era tão importante quanto o objetivo espiritual representado pelo Raja Yoga, que Vivekananda alegava estar revitalizando”.
Veio da Índia, mas se transformou
Boa parte do que hoje entendemos como yoga e vemos sendo praticado nos estúdios por aí veio de autores modernos, como Sri Tirumalai Krishnamacharya, que, entre 1930 e 1950, inventou uma nova sequência de movimentos, parcialmente derivada de uma tradição de ginástica. Ou então do livro Luz sobre o Yoga, de B. K. S. Iyengar, publicado em 1966.
Esses autores já incorporaram essa influência ocidental em que a yoga era altamente performática, o que a tornava interessante para o público fitness. A parte espiritual continuou presente, mas em segundo plano.
“Certos elementos da tradição mais ampla [da yoga] poderiam ser reformulados como cultura física científica”, afirma o pesquisador Conor Heffernan. “Os aspectos devocionais foram suavizados ou removidos para o público ocidental que buscava alongamento, respiração e calma. A yoga se globalizou porque pôde ser reinterpretada, mantendo seu apelo essencial”, diz.
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