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Curiosidades

Como a arquitetura de Gaudí inspirou a estética do Castelo Rá-Tim-Bum

Imagine um castelo onde vive um feiticeiro de três mil anos. É bem provável que você tenha visualizado uma colina distante, coberta por neblina, com um castelo pontudo e sombrio no topo. Essa é a referência mais clichê para esse tipo de narrativa, influenciada por anos de contos de fadas europeus, filmes da Disney e Harry Potter. 

Nos anos 1990, uma jovem equipe de cenógrafos da TV Cultura recebeu a tarefa de criar um cenário assim – um castelo onde vive um feiticeiro de três mil anos – para um programa que estava sendo desenvolvido. Ninguém sabia ainda exatamente como seria: as poucas delimitações eram mais no sentido do que o cenário não seria. Não seria um castelo medieval, nem da Disney, nem em uma montanha.

Teria de ser um castelo dinâmico para atrair a atenção de crianças de várias idades – nem bobo demais para as grandes, nem sisudo demais para as pequenas. O cenário deveria combinar com o dono que, além de feiticeiro, era também um inventor. Nada no interior deveria ser muito luxuoso, para não causar um desconforto em crianças de classes mais baixas. 

Por fim, nada de colina ou montanhas: o castelo deveria ser urbano – afinal, o antagonista do feiticeiro seria um vilão interessado em comprar o castelo para transformá-lo em um prédio de cem andares.

Talvez você já tenha sacado do que estamos falando: o clássico Castelo Rá-Tim-Bum. Conversamos com a cenógrafa Lu Grecco, que participou de todo o processo de cenografia do Castelo para conhecer detalhes dessa história e entender a influência do arquiteto catalão Antoni Gaudí na estética do programa. 

O interior da Casa Battlò, obra de Gaudí em Barcelona que faz parte das referências que inspiraram a estética do Castelo Rá-Tim-Bum.Raphael GAILLARDE/Getty Images

Gaudí foi o assunto da reportagem “Enfim, a mais alta: a história e os simbolismos da basílica da Sagrada Família” da edição da Super de julho de 2026.

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Super: Como foi buscar inspiração naquela época? E o que no Gaudí chamou a atenção para inspirar a estética do castelo?

No início, foi um grande desafio porque era uma incógnita como fazer um castelo que não é castelo, que é na cidade, que não é rico, que não é típico. 

Nós éramos três cenógrafos. O que nós fizemos foi analisar o perfil dos personagens. Todos os detalhes das características dos personagens tinham que estar presentes no cenário. E não eram simplesmente um tio e uma tia que moravam num casarão antigo e que tinha um sobrinho que queria ser feiticeiro. Eles eram de verdade. Então tinha que ter na cenografia essa magia expressa, revelada. O fato de ele [Doutor Victor] ser um inventor foi um detalhe muito importante na concepção do cenário e dos objetos de cena.

E então, nós fomos pesquisar referências na história da arquitetura e da arte, buscando estilos que pudessem abrigar essas necessidades. Naquela época não existia internet, então as nossas pesquisas eram feitas em livros, em bibliotecas.

Nós reconhecemos no Gaudí uma um suporte para todas essas demandas, pela riqueza de formas, pelas formas sinuosas. O Gaudí se inspira nas formas da natureza, o que gera movimento. E, para as crianças, o movimento é fundamental. Ele compunha combinações que teoricamente seriam absurdas de texturas, de cores e de formas. Mas ele compunha de uma forma harmônica, que ficava esteticamente interessante e rica, muito rica.

Antes de escolhermos o estilo do Gaudí, nós cogitamos usar o estilo da arquitetura antroposófica alemã, que é um estilo também inspirado na natureza. É muito interessante, mas a gente acabou descartando porque ela é um pouco dura, um pouco pesada visualmente e nós queríamos uma coisa mais alegre, mais divertida.

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Edifício de concreto com arquitetura brutalista, formas orgânicas e telhado irregular, janelas retangulares e arqueadas, cercado por gramado verde com flores amarelas sob céu azul claro
O edifício Goetheanum, sede mundial do movimento antroposófico, em Dornach, Suíça. O Castelo Rá-Tim-Bum quase foi assim.Wladyslaw (User: Taxiarchos228)/Wikimedia Commons
Interior de um auditório moderno com centenas de cadeiras vermelhas vazias, palco à esquerda e um grande órgão de tubos acima de uma varanda à direita. O teto tem uma pintura abstrata colorida, e as paredes claras possuem janelas com vitrais iluminados em tons de azul, verde e laranja
O Grande Salão do Goetheanum – aqui, até dá para vislumbrar como a arquitetura poderia ter inspirado o Castelo Rá-Tim-Bum.Wladyslaw (User: Taxiarchos228)/Wikimedia Commons

Outro motivo foi o fato do estilo do Gaudí ser também muito engenhoso e inusitado. Isso veio a calhar, a riqueza do estilo comporta muitos elementos. O cenário tinha que considerar os atores que andam no piso e os bonecos [os fantoches], e a gente tem que esconder o bonequeiro no cenário. 

O estilo do Gaudí tinha esse certo caos que permitia inserir qualquer coisa que aparecesse lá, por exemplo, no episódio 40. Poderia ter uma necessidade de uma traquitana nova, de uma alteração no cenário. 

Outra coisa é que esse estilo de Gaudí foi amplamente usado urbanisticamente na cidade de Barcelona e arredores. Então, a gente tinha essa visualização também, de edifícios com a linguagem dele no espaço urbano, se relacionando com outros edifícios.

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Três edifícios de arquitetura distinta sob céu azul. À esquerda, um prédio com fachada em tons de bege e marrom, com telhado em degraus e detalhes em mosaico azul. No centro, a Casa Batlló de Gaudí, com fachada colorida em mosaicos, telhado ondulado e chaminés decoradas. À direita, um edifício clássico de cor pêssego com sacadas de ferro forjado
A Casa Battlò (ao centro), construção de Gaudí em Barcelona.Editorial RF/Getty Images

Super: Teve alguma parte específica em que essa inspiração foi mais nítida e intencional? 

A gente não reproduziu nada, não tem nada exatamente igual. Nenhum elemento de algum edifício ou parque. Tem um elemento que foi bastante intencional, mas não é uma réplica, mas é uma uma releitura.

É um elemento que apareceu muito pouco durante o programa, que é a bica onde tem água para as crianças lavarem quando entravam no castelo. Ficava do lado direito. Eu fiz ali uma escultura de um cavalo marinho com acabamento imitando o ladrilho, que é uma referência a alguns elementos do Parque Güell.

Bancos ondulados de concreto branco adornados com mosaicos coloridos em tons de azul, verde, amarelo e marrom, em um parque com arquitetura modernista ao fundo
Parque Güell, uma das obras de Gaudí em Barcelona.Alexander Spatari/Getty Images

Mas foi o único assim um pouco mais referenciado. Fora isso, foi mais estilo mesmo, de linhas de desenho das janelas, das portas, as formas curvas, os mosaicos de ladrilho.

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Claro que é tudo fake, não é nada ladrilho. Além disso, não tem linha reta no castelo, é tudo é sinuoso, o que gera movimento e amplitude para o vídeo.

Super: Fiquei pensando em como deve ter sido difícil para o Gaudí explicar para os pedreiros as maluquices que ele estava inventando. Como foi isso no castelo, a parte prática de fazer essas coisas diferentonas?

Olha, eu acredito que o Gaudí teve muito mais trabalho com os pedreiros do que nós com a equipe de cenotécnica. Mas nós só conseguimos fazer um projeto tão complexo porque a gente tinha uma equipe de funcionários extremamente capacitada. 

Eram marceneiros cenotécnicos, do departamento de cenografia mesmo, não da emissora. Aderecistas também incríveis, mega habilitados em todas as áreas: modelagem, pintura, efeitos especiais e traquitanas. 

Vista de baixo para cima do pátio interno da Casa Batlló, com paredes curvas revestidas de azulejos azuis e brancos, janelas de madeira de formatos orgânicos e um telhado de vidro que ilumina o ambiente
O pátio interno da Casa Batlló, em Barcelona.REDA/Getty Images

Então não foi difícil, porque na verdade todo mundo ficou muito encantado com o projeto. Foi um projeto que contagiou, contaminou positivamente absolutamente todo mundo que trabalhou nele. Eu não lembro de nenhum momento ninguém trabalhando de má vontade, com preguiça. Todo mundo ficou encantado e deu seu melhor. A gente trabalhava de segunda a segunda, das 9h às 9h, no maior gás, no maior pique, parecia a fábrica de presentes do Papai Noel e os duendes. 

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Era uma equipe gigante, tinha 80 e poucas pessoas, entre cenógrafos e assistentes, aderecistas, marceneiros, pintores, tapeceiros, contrarregras e maquinistas.

Só o que não tinha no departamento de cenografia eram os profissionais de serralheria artística. Então a parte de metal foi feita por dois serralheiros do departamento de manutenção que foram emprestados para pra cenografia durante esse período. Eles não eram acostumados com a cenografia. O chefe do setor destacou os menos quadrados, os mais flexíveis.

Com eles foi um pouquinho mais difícil, mas logo eles entraram também na viagem e acabaram também viajando junto. Imaginem, por exemplo, aquele corrimão: aquilo foi feito por serralheiros que estavam acostumados a fazer base de ar condicionado, caixinha, tudo reto. E aquilo foi feito na mão, esquentando o ferro e martelando. Eles conseguiram um resultado maravilhoso e acabaram achando lindo, se divertiram. 

Super: Eu acho que essa paixão de vocês transparece muito no sucesso do Castelo. Há pouco tempo teve a exposição do mobiliário e dos cenários e, mesmo 30 anos depois, foi um sucesso com várias gerações. É muito impressionante.

É impressionante. E a gente não tinha a menor ideia nem de que ia dar certo, muito menos que seria sucesso e virar um clássico.

 A gente ia fazendo as coisas, apostando, curtindo, adorando, mas assim, com um completo medo de tá tudo errado, porque a gente não tinha noção, era uma novidade aquele formato com 40 e tantos quadros. Então era um formato novo, um diretor que também não tinha experiência nesse tipo de formato, mas estava tudo tão incrível que era difícil achar que que ia dar errado, né?

Porque cenografia estava bacana, os roteiros eram legais, os figurinos estavam incríveis, a trilha maravilhosa, estava tudo muito bom para dar errado.

Mas assim, o máximo que a gente esperava era que desse certo. E ponto. Porque a TV Cultura era uma televisão que ninguém assistia, que tinha baixo Ibope. Então o sucesso que teve o Castelo foi realmente inesperado.

Eu nunca imaginei, por exemplo, que 10, 15 anos depois eu ia virar professora, as pessoas iam querer fazer curso comigo por causa do castelo. E ouvir de aluno que resolveu fazer arquitetura por causa do castelo, que resolveu fazer jornalismo por causa da Penélope.

Então, eu só fui ter o feedback do público que, na época era criança, quando viraram adultos vindo fazer meu curso, me procurando para conversar, como vocês procuraram agora, 30 e tantos anos depois. Essa reverberação eu acho que muito provavelmente não vai acabar nunca, porque virou um clássico.

Maquete de um castelo gótico com telhados verdes e paredes avermelhadas, cercado por árvores e arbustos verdes, em contraste com arranha-céus cinzentos ao fundo sob um céu azul nublado

Super: como você cria elementos de cenário?

Eu me coloco no lugar do público. Então, fui criar a cozinha do castelo: se eu tivesse cinco ou sete anos de idade e entrasse nesse castelo, como é que eu imaginaria que essa cozinha é? O que que o que que eu gostaria de encontrar nessa cozinha? O que eu acho que a Morgana ou o Dr. Victor fariam com essa cozinha? Então, eu penso como público, no caso, como criança.

Super: E como você faz para alimentar esse lado lúdico, mesmo sendo adulta?

Ai, acho que é a alma de criança, viu? Não sei, eu não fico assistindo programas e filmes infantis, mas é uma forma para quem não tem a facilidade de ir pro lúdico. Eu já tenho, é muito espontâneo, mas para quem não tem essa facilidade, uma forma é se inspirar mesmo, se alimentar de referências.

Mesmo assim, apesar de eu não precisar, muitas vezes eu assisto algumas coisas, eu pesquiso. Referência é sempre bom, porque a gente além de alimentar enquanto repertório, a gente estimula o cérebro. Então, muitas vezes eu vejo um monte de referência, fecho e não uso nada daquilo, mas o cérebro está estimulado a criar.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.