Acordar no meio da madrugada pode ser um hábito herdado de nossos ancestrais
Se você é o tipo de pessoa que acorda às 3 da manhã sem motivo aparente, pode ser que você tenha herdado hábitos ancestrais.
Antes de celulares e luzes elétricas existirem, quase ninguém dormia a noite toda sem interrupções. O comum era deitar-se poucas horas depois do pôr do sol e despertar de novo por volta da meia-noite. Nesse meio tempo, as pessoas ficavam acordadas papeando, cuidando de suas fogueiras e, em dias mais sociáveis, visitando vizinhos. Somente depois voltavam a dormir, agora sim até o amanhecer.Historiadores chamam o hábito de “sono segmentado”.
E ele é bem documentado em relatos históricos: há mais de 2.000 referências à prática que remontam desde à Odisseia, de Homero, até registros médicos e literários, como cartas e poemas. Os escritores mal se davam o trabalho de explicar o que era o “primeiro sono” e o “segundo sono”, por tratar-se de um costume amplamente conhecido.
As coisas começaram a mudar por volta da Revolução Industrial, com a invenção da lâmpada incandescente por Thomas Edison em 1879. O advento da luz artificial fez com que as pessoas fossem dormir mais tarde, e consequentemente os dois períodos de sono se fundiram em um só. Dormir a noite toda virou, então, o padrão.
Mas e se a prática ancestral for o mais correto?
Pesquisadores do sono, ou apenas somnologistas, sugerem que pode ser este o caso. Segundo eles, o corpo humano nunca foi programado para, de fato, dormir sem interrupção. A explicação está na ciência por trás do sono. A cada noite, o corpo passa por fases distintas, que é o que chamamos de ciclo do sono. Cada ciclo dura aproximadamente 90 a 110 minutos, passando pelo sono leve, pelo sono profundo (N3) e pelo sono com movimento rápido dos olhos (REM).
A maioria de nós passa por cerca de quatro a seis desses ciclos durante uma noite de sono. As fases mais importantes, porém, estão concentradas na primeira metade da noite: o sono profundo é o responsável pela recuperação do corpo e da imunidade, enquanto o sono REM processa as emoções e a memória do dia.
Depois deles, alternamos principalmente entre os estágios mais leves. Ou seja, acordar de madrugada é perfeitamente normal. Inclusive, a maioria das pessoas faz isso várias vezes por noite e simplesmente não se lembra.
O problema surge apenas quando o despertar se prolonga ou quando começa a ocorrer no mesmo horário, noite após noite.Em 1992, aliás, um ensaio clínico demonstrou que seus participantes acabaram voltando a dormir em duas fases quando não estavam expostos a relógios ou à luz do amanhecer.
Toda noite, mesmo horário
Acordar sempre no mesmo horário ainda é pouco compreendido por especialistas. Há tempos, o cortisol – hormônio que ajuda a colocar o corpo a responder ao estresse físico e mental – é associado ao despertar total que ocorre às 3 da manhã, já que naturalmente seus níveis no sangue elevam conforme o amanhecer.
Um estudo de 2025, porém, mediu os níveis de cortisol em mais de 200 pessoas e reparou que o aumento do hormônio não sofria alteração no momento em que a pessoa acordava; na prática, o nível continuava subindo praticamente no mesmo ritmo, independentemente de a pessoa estar dormindo ou acordada.
Pesquisadores atribuíram o resultado a técnica utilizada, que, ao invés de depender apenas de amostras de saliva coletadas após o despertar, usou um cateter no tecido subcutâneo para medir os níveis de cortisol. Ainda assim, eles observam que a variabilidade de amostras de pessoas deve ser levada em consideração, e muitas dessas questões não são consideradas esclarecidas.
Outra hipótese é que os horários específicos podem ser apenas o ritmo circadiano trabalhando – regulando seu sono, hormônios e temperatura. Isso, claro, sem contar os casos singulares.
Cerca de 40% a 60% das mulheres que passam pela menopausa, por exemplo, são afetadas pelo sono interrompido, graças à queda na progesterona, que pode prejudicar o sono profundo.
O nível de açúcar no sangue também pode provocar um efeito semelhante. Se o jantar tiver sido cedo ou leve, a glicose pode cair durante a noite. O organismo reage liberando hormônios do estresse para elevar novamente essa taxa – um mecanismo que, às vezes, é forte o suficiente para despertar a pessoa completamente. Esses episódios ocorrem com mais frequência em diabéticos, apesar de não se restringirem a eles.
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