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Curiosidades

Todo mundo odeia a regra do impedimento, mas ela já salvou o futebol 3 vezes

A Copa do Mundo de 2026 trouxe de volta a discussão em torno do elemento mais polêmico do futebol: a regra do impedimento. Alguns gols do mundial anulados por causa desse mecanismo (como aquele da seleção da Colômbia contra Portugal) fazem o impedimento parecer absurdo e injusto, destruindo um ataque promissor (e, muitas vezes, emocionante). Mas o fato é que o impedimento surgiu pelo motivo contrário: salvar o futebol do tédio. E conseguiu.

Copa do Mundo: Por que os jogadores usam chuteiras rosas?


A primeira versão do impedimento surgiu em 1863. A regra era simples: qualquer jogador à frente da bola estava impedido, como acontece no rugby. A intenção era evitar o famoso “jogador na banheira”. Mas o efeito foi o contrário: como não podiam passar da linha da bola, os jogadores tentavam sair driblando todo mundo. Se viam que não iam conseguir, tentavam chutar para o gol ou então passavam a bola para um espaço vazio, esperando que um companheiro corresse e alcançasse. 

Não dava muito certo: para evitar tomar gols dessa forma, as equipes armavam esquemas táticos horripilantes, como o 1-1-8 e o 2-2-6, congestionando a região da bola. E o futebol sofria com uma ausência de gols. Algo precisava mudar.

Primeiro salvamento: 1866

Em 1866, a regra mudou pela primeira vez. A partir daquele ano, o impedimento ocorria se o jogador que recebia o passe tivesse menos de três oponentes entre ele e o gol. Foi uma revolução: os técnicos finalmente podiam posicionar seus atacantes à frente da linha da bola.

Isso encorajava o passe em vez do drible, o que valorizou o meio de campo, onde começavam a maioria das jogadas. A princípio, deu certo: o jogo ficou mais dinâmico. Mas criou-se um novo problema: os zagueiros e atacantes passaram a ficar mais fixos em suas posições, esperando o meio de campo criar a jogada e passar. Aos poucos, o futebol foi ficando chato de novo.

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Isso só mudou quando o treinador britânico Jimmy Hogan ajudou a popularizar uma ideia revolucionária: criar mais funções para os atacantes. Em vez de apenas chutarem, agora eles também precisavam retroceder para atrair seus marcadores e criar espaços, ampliando as opções para o ataque. Parece algo óbvio hoje, mas foi uma ideia muito inovadora na época. E muitos técnicos adotaram.

Segundo salvamento: 1925

Buscando se adaptar ao novo jogo, os times criaram uma nova tática: a armadilha do impedimento, consagrada pelo Arsenal do técnico Herbert Chapman. Era simples: quando viam que um adversário (jogador A) iria passar para alguém no ataque (jogador B), os defensores subiam em bloco para além da linha de B, deixando-o impedido no momento do passe.

As equipes passaram a abusar dessa armadilha, criando interrupções excessivas no jogo e seca de gols. Em 1925, a média de gols por partida na Inglaterra era de apenas 2,58. Um tédio!

Por isso, na temporada 1925/1926, o impedimento mudou de novo: agora, em vez de três jogadores entre o atacante e o gol, bastavam dois para que ele não estivesse impedido — na cultura popular, convencionou-se dizer que o jogador que recebia não podia ser “o último homem”. A mudança dificultava a armadilha do impedimento: se falhasse, a equipe defensiva iria deixar o atacante sozinho com o goleiro.

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Deu certo: o número de gols na Football League inglesa passou de 4.700 na temporada anterior para 6.373 naquela, com o mesmo número de partidas. Mais de 1.600 gols a mais!

Terceiro salvamento: 1990

A partir da década de 1950, começou a se popularizar o famoso esquema tático 4-2-4, ainda hoje utilizado. Os quatro defensores garantiam que as jogadas do ataque inimigo fossem abafadas e os dois meio-campistas faziam a ligação com o ataque. Sobravam dois espaços ao lado dos meio-campistas, que podiam ser explorados: um jogador podia se mover para lá e atrair seu marcador, deixando desprotegida uma zona na frente.

A seleção brasileira dessa época adotou o esquema. As três Copas que o Brasil ganhou nessa época (1958, 1962 e 1970) tiveram seleções que abusavam dessa flexibilidade, aproveitando esses espaços de forma diferente, embora apenas a de 58 utilizasse rigorosamente o 4-2-4.

O gol de Carlos Alberto Torres na final de 1970 é exemplo disso: Pelé domina a bola e, em vez de chutar, espera Torres avançar pelo lado num espaço que está vazio. Os marcadores fecharam em Pelé e Carlos Alberto, livre, não precisou nem dominar: bastou chutar e sair para o abraço.

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Isso gerou um contraponto: equipes que não conseguiam jogar com tanta intensidade precisavam de uma maneira de igualar o jogo. O técnico austríaco Karl Rappan propôs algo novo: o 1-3-3-3. Nesse esquema, esse primeiro jogador (“líbero”) tinha como principal função preencher os buracos deixados pelos outros zagueiros quando eles eram atraídos para fora de sua posição.

Essa técnica extremamente retranqueira, apelidada de “ferrolho suíço”, deu certo e Rappan se tornou técnico da seleção da Suíça. O método foi adotado e refinado pelos italianos com o nome de “catenaccio” (ou “correntão”): nessa versão, o primeiro jogador, além de ocupar espaços, também iniciava contra-ataques com lançamentos longos.

De repente, a retranca era a moda. E a presença do líbero facilitava o uso da armadilha do impedimento: bastava que ele avançasse na hora certa para matar uma jogada adversária. Voltou o problema: muitas interrupções e poucos gols. A Copa de 1990, considerada uma das mais feias já vistas, teve média de apenas 2,21 gols por jogo, a pior da história até hoje.

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Por isso, em junho daquele ano, no meio da Copa, a International Football Association Board (IFAB) mudou as regras novamente, válidas para a temporada seguinte. O impedimento se tornou quase o que é hoje: o jogador estaria em posição regular desde que estivesse na mesma linha do penúltimo jogador adversário (antes, precisava estar totalmente atrás dele).

Refinamentos posteriores

Com essas mudanças e a evolução dos esquemas táticos, o catenaccio perdeu força e o líbero foi desaparecendo do futebol de elite. Afinal, agora o duelo 1×1 estava a favor do atacante e não mais do zagueiro. Nesse novo cenário, o esquema 4-4-2 se consagrou.

O impedimento foi refinado em 2005: naquele ano, foi determinado que o jogador só estava impedido se uma parte do corpo que pudesse jogar a bola legalmente estivesse à frente do zagueiro. Ou seja: um braço à frente já não contava mais para estar impedido. E também foi decidido que um jogador pode estar em posição irregular desde que não interfira na jogada (essa regra já existia antes, mas não era tão clara). Tudo isso ajudou a destravar as partidas e deixar o jogo mais bonito.

A chegada do VAR em 2017 serviu para tentar eliminar outro problema da regra do impedimento: o erro humano. Até hoje, muitos impedimentos são marcados (ou não marcados) incorretamente, prejudicando a qualidade das partidas. Só que a tecnologia gerou um novo problema: a demora das checagens. No Campeonato Brasileiro, são comuns as checagens de vários minutos, mas isso não é um defeito só nosso. Em 2025, por exemplo, uma partida da Copa da Inglaterra teve uma checagem de VAR que durou 8 minutos.

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Isso gerou a mais nova mudança: o sistema de impedimento semiautomático, que já está em implementação no Brasil e será obrigatório a partir da segunda metade de 2026 na Série A. São câmeras exclusivas colocadas em pontos estratégicos do campo que geram uma réplica virtual da partida, permitindo que os lances sejam checados não só pelos humanos, mas também por IA. Quem sabe assim não fique mais rápido?

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.