“Sempre soube o destino desse projeto”: a trajetória e visão do diretor mais jovem da A24
Se você é uma pessoa cronicamente online, talvez já tenha ouvido falar dos backrooms: ambientes neutros, geralmente sem móveis, que transmitem uma sensação de estranheza. O conceito é bem representado pela seguinte imagem:
A foto acima foi postada em 2019 no fórum 4chan. Um usuário anônimo comentou: “Se você não tomar cuidado e sair da realidade nas áreas erradas, você acabará entrando nos backrooms”. A palavra passou a ser usada para descrever qualquer ambiente tão genérico que poderia estar em qualquer lugar do mundo. Uma espécie de “não-lugar”.
O adolescente Kane Parsons, de 16 anos, produziu um vídeo que se tornaria a cara dos backrooms. Em janeiro de 2022, Parsons publicou no YouTube o curta The Backrooms (Found Footage) – nove minutos de terror e agonia que mereceram sua visualização.
A partir daí, Parsons deu início a uma websérie sobre os backrooms que já reúne 22 episódios. Em 2026, seu projeto culmina com o lançamento do filme “Backrooms: Um Não-Lugar”, que chega aos cinemas brasileiros no dia 28 de maio.
Hoje com 20 anos, Kane Parsons é o diretor mais novo a trabalhar em um filme da A24, estúdio responsável por filmes de terror aclamados como A Bruxa (2015), Hereditário (2018) e Midsommar (2019).
Conversamos com Parsons sobre sua trajetória de produtor independente a diretor de um grande estúdio. Confira a entrevista abaixo.
Super: Como foi o início do projeto de websérie?
Kane Parsons: Eu passei boa parte da minha infância postando curtas-metragens no YouTube. Ao longo dos anos eles evoluíram em termos de qualidade. Era basicamente eu tentando fazer muito com quase nada. Os curtas não tinham orçamento algum e eram feitos com softwares grátis, como o Blender.
Eu fiz o primeiro curta sobre os backrooms, houve muita tração em torno dele na época e eu imediatamente quis fazer a série. O primeiro vídeo serviu como um piloto, para dar o tom. Daí eu continuei e fiz uma série que já soma 3 horas.
Eu postei o vídeo em janeiro de 2022. Em fevereiro ele já havia passado 20 milhões de visualizações [hoje já atingiu 77 milhões] e continuou crescendo. Eu esperava que aquele vídeo fosse performar mal, então fiquei surpreso.
S: Como foi seu primeiro contato com a A24?
KP: Não foi uma interação direta com eles. Eu fiz reuniões com um monte de empresas quando tinha 16 anos, mas aquele não era meu mundo. Eu era muito cauteloso e até paranoico com o que poderia acontecer. Então eu tentei ir com calma.
Eu fiz uma parceria com a Atomic Monster e 21 LAPS [co-produtoras do filme, junto com a A24] e achei bem agradável. Nos primeiros anos eu ainda estava fazendo a websérie porque o filme não estava tomando muito do meu tempo naquele momento. Eu estava conversando com os roteiristas para garantir que estávamos capturando tudo que queríamos.
Eu sempre soube o destino desse projeto. Talvez eu seja ambicioso demais, mas talvez seja algo inerente do que a história precisa para funcionar por um longo período. E eu fico feliz que chegou onde chegou porque ele foi feito para isso.
A A24 foi um dos estúdios que nós procuramos. Conversamos com eles às 9h da manhã e às 17h eles já responderam com um grande sim. Eles têm sido bons parceiros criativos, nos deixando livres mas dando sugestões delicadas do jeito certo. Eles têm sido amigáveis e construtivos em todo o projeto.
S: Como você mencionou, a série foi um sucesso quando saiu em 2022. Por que você acha que seria uma boa ideia transformá-la em um filme?
KP: O plano era fazer um filme que chegasse às pessoas que não estão familiarizadas com o YouTube. Pude fazer progresso com a história e chegar em um lugar que eu sempre quis. Acho que houve um contexto para fazer o que queríamos. Queríamos experimentar, encontrar o roteiro certo.
A websérie é limitada pelo que eu conseguia fazer como um único criador, dirigindo e editando. Tinham algumas ajudas e colaborações, mas a maior parte era só eu trabalhando sozinho no meu laptop. Por isso, eu construí a série de uma forma que eu conseguiria dar conta sozinho.
Por exemplo: os personagens que aparecem na websérie estão usando trajes que cobrem o rosto, porque ver pessoas de computação gráfica destruiria a imersão. A história se passa nos anos 1990 por um motivo específico, você vê através de uma lente de VHS, o que contribui para o realismo do material.
Tudo isso ajuda no YouTube. Mas o projeto destinado ao YouTube é muito mais ligado ao conceito. Não entra em detalhes de personagens da maneira que eu queria, e não adiciona um caráter humano à história. Ter pessoas [no filme] ajuda a montar o quebra-cabeça e entender aquele mundo em uma linha do tempo.
Para chegar onde eu quero, é preciso mostrar um enquadramento mais humano. O que temos nesse filme é uma perspectiva mais íntima dos personagens sobre os backrooms.
S: Você visitou algum lugar que parecesse um backroom, para ter inspiração para o filme?
KP: Eu acho que eu estive muitas vezes em backrooms. Uma coisa que funciona muito bem sobre os backrooms é que (na minha interpretação) ele pode ser qualquer lugar que você já passou algum tempo na sua vida. Em algum lugar lá fora existe uma versão dos backrooms.
Os backrooms mais predominantes e emblemáticos são os ambientes mais genéricos já construídos. A maioria das pessoas já viu eles de alguma forma. É tão neutro e fácil de esquecer que é quase impossível falar um só. Qualquer escritório vazio, loja de roupa, loja de móveis, área dos fundos… São lugares neutros, e esse é o ponto.
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