Quem é Elizabeth Holmes: entenda a condenação da fundadora da Theranos
Elizabeth Holmes já foi a bilionária mais jovem do mundo. Em 2014, aos 30 anos, a empresária estadunidense estava no auge de seu império: chamada de ‘a próxima Steve Jobs’, era a fundadora e CEO da Theranos, empresa de biotecnologia avaliada em mais de nove bilhões de dólares, que prometia revolucionar o diagnóstico de doenças.
Com apenas algumas gotas de sangue, a Theranos dizia que seu exame, chamado Edison, seria capaz de detectar condições como câncer e diabetes de forma rápida, sem o incômodo das agulhas. A ideia era ambiciosa, e, se funcionasse como anunciado, poderia tornar os exames mais acessíveis, rápidos e baratos.
Holmes havia deixado o curso de bioquímica na Universidade Stanford em 2003, aos 19 anos, para criar a Theranos. Do lado de Ramesh Sunny Balwani, que seria seu parceiro nas próximas décadas, ficou conhecida pela sua imagem minuciosa, de voz grave e com blusas pretas de gola alta, que transmitia a seriedade de quem estava prestes a mudar o mundo.
Essa promessa, porém, logo deu lugar a um dos maiores escândalos corporativos dos EUA. Por volta de 2015, as pessoas começaram a questionar a eficácia da tecnologia da Theranos – que simplesmente não funcionava. Holmes foi acusada de mentir sobre as operações de sua empresa para ganhar dinheiro, mas insistiu por anos que não se tratava da verdade.
A partir de 2025, reportagens do The Wall Street Journal revelaram problemas nos equipamentos e na confiabilidade dos exames e alegavam que a empresa usava máquinas convencionais de laboratório para realizar testes que, segundo ela mesma, eram feitos com sua tecnologia própria.
Em 2018, veio o último capítulo da Theranos. Holmes e Ramesh Balwani foram acusados de “fraude massiva” pela Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC, em inglês), o que levou à dissolução da empresa. Na ocasião, como o SEC é uma agência reguladora civil, Holmes escapou de acusações criminais pagando 500.000 dólares.
Mas isso não durou muito tempo. Outras acusações viriam à tona posteriormente, culminando no julgamento criminal, iniciado em julho de 2021. Quase seis meses depois, em janeiro de 2022, um júri considerou Holmes culpada de quatro acusações das 11 relacionadas a fraude contra investidores.
Ela foi condenada a 11 anos de prisão, que começou a cumprir em maio de 2023 em uma penitenciária federal de segurança mínima no Texas. Já Balwani foi considerado culpado em todas as 12 acusações da promotoria e foi condenado a 12 anos e 11 meses de prisão, além de 3 anos de liberdade condicional supervisionada.
A dupla enganou figuras importantes do mercado. A Theranos havia atraído investidores de peso para o conselho da empresa, com figuras influentes da política, dos negócios e das Forças Armadas americanas. Entre os apoiadores estavam nomes como o secretário do Tesouro dos EUA, George Shultz, Rupert Murdoch e a família Walton.
Homes teria dito aos investidores que a empresa mantinha uma relação comercial lucrativa com o Departamento de Defesa dos EUA, e que a tecnologia da empresa havia sido levada ao campo de batalha para tratar soldados feridos. Na realidade, Holmes sabia que a tecnologia jamais foi utilizada em campo de batalha e que a Theranos obteve pouca receita a partir de contratos militares destinados a testes do equipamento de análise.
O caso repercutiu em todo o mundo, principalmente no Vale do Silício, onde ficou de exemplo do “fake until you make it” (algo como, “finja até conseguir”). Ou seja, a ideia de que receita do sucesso seria, em primeiro lugar, assumir que o negócio já deu certo antes de que haja algo concreto.
A história fez tanto sucesso que virou tema de um livro, de um documentário da HBO, de uma série de TV e de um documentário da A24, lançado neste mês nos EUA e no Canadá, chamado You Can See Eveything. De acordo com a Deadline, a Sony Pictures será a responsável pela distribuição da obra no Brasil.
Ainda não sabemos exatamente o por quê Holmes mentiu – mesmo sabendo que a tecnologia não funcionava. É improvável que motivações comuns, como o dinheiro, sejam a causa. Ela cresceu em uma família de classe média alta em Washington, EUA, e, segundo pessoas que a conheceram, era uma criança educada, ainda que reservada.
Na penitenciária de Bryan, no Texas, a empresária trabalha como assistente de reintegração social e assistente jurídica, onde recebe 31 centavos de dólar por hora para orientar outras detentas. Sua libertação agora está prevista para fevereiro de 2030, graças à redução de dois anos na pena por bom comportamento.
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