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Curiosidades

Quanto tempo demora pra um cemitério virar sítio arqueológico?

Não há um período específico. Nenhum cemitério tem data de validade, ou um prazo-limite que, quando ultrapassado, coloca o terreno numa lista de espera para a escavação. Quando os arqueólogos decidem escavar um espaço, a pergunta central é: o que esse local e seus objetos têm a nos dizer sobre as pessoas que viveram ali?

Um sítio arqueológico, na prática, é qualquer lugar que contenha vestígios materiais de como as pessoas e suas sociedades viviam no passado. Isso pode vir em várias formas: fragmentos de potes de cerâmica, pinturas nas paredes de cavernas, manchas no chão feitas por fogueiras e, é claro, remanescentes humanos.

A área que trata dos cemitérios é a arqueologia funerária. Esse campo abrange qualquer lugar onde um defunto esteja guardado ou enterrado. Nesses sítios, os arqueólogos se atêm tanto a aspectos físicos quanto simbólicos.

Algumas perguntas importantes para a arqueologia funerária são: Quão bem preservados estão os ossos? Eles contém marcas de alguma doença? Em que posição o corpo foi colocado? Qual era o tamanho da cova? O corpo está completo ou em fragmentos, embaralhado entre tantos outros? O corpo foi sepultado, isto é, foi intencionalmente colocado debaixo da terra? Essas e outras evidências isoladas, quando colocadas em conjunto, contam não apenas a história das práticas fúnebres do passado, mas também como essas sociedades entendiam o mundo.

A questão é: todo mundo morre, mas cada sociedade lida com a morte, e o luto, de uma maneira um pouco diferente – e é esse contexto que mais interessa aos pesquisadores.

“A arqueologia é muito contextual. Sem contexto, a gente corre o perigo de ter só um fato curioso”, explica  Eduardo Rosa de Mendonça Costa, mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, onde também realiza seu doutorado. Hoje, ele se dedica a estudar as práticas funerárias dos sambaquis amazônicos.

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Olhando para os vestígios de sepultamentos, os arqueólogos tentam entender os rituais funerários do passado a partir do que sobrou deles. “A gente não está estudando necessariamente o ritual, porque a gente não tem acesso direto a esse ritual que aconteceu. A gente tem só o remanescente, o que sobrou de materialidade dele”, Eduardo afirma.

“Também é muito importante prestar atenção, não só no sepultamento, mas em onde ele está – o sítio arqueológico em que ele está, as camadas arqueológicas, os diferentes momentos de ocupação humana que ocorreram ali. Isso deixa marcas na terra. Então, o que está ao redor daquele sepultamento? O sítio inteiro arqueológico é um cemitério, ou não? É um sepultamento que, por exemplo, foi feito na casa da pessoa, no quintal da pessoa? Porque isso também é bem frequente”.

Mas aí que está o pulo do gato: um sítio arqueológico não precisa ser algo muito antigo, em estado de abandono. Alguns, na verdade, continuam sendo usados pelas pessoas até hoje  – e não é incomum que analisem cemitérios que ainda estão ativos para entender as sociedades de hoje.

“Um lugar pode também se tornar um sítio arqueológico simplesmente porque um arqueólogo está lá estudando ele”, explica o pesquisador. São vários os arqueólogos que se dedicam a estudar sociedades do presente ou de um passado muito recente.

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É o caso das pesquisas feitas nas instalações do extinto Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), que trazem pistas de como eram as prisões na época da ditadura militar (1964-1985).

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“Não está necessariamente ligado a uma quantidade de tempo que se passou, mas realmente a como esse lugar fornece informações sobre uma sociedade, que pode até ser uma sociedade atual. E não por isso esse lugar deixa de ser uma outra coisa, não é porque passa a ser um sítio arqueológico que deixa de ser um cemitério ativo”, diz Eduardo.

Os arqueólogos também não saem escavando tudo por aí como bem entendem. É preciso uma boa justificativa para que um sítio arqueológico seja submetido a uma análise mais aprofundada, e o critério tem a ver com as informações que esse lugar pode trazer. Não apenas isso: é preciso fazer tudo de maneira ética e respeitosa, sempre com o aval das pessoas que, hoje, convivem com aqueles espaços de interesse arqueológico. Nas palavras do pesquisador, “os mortos têm relações com os vivos”, e o remanescente humano “continua sendo um sujeito de direitos mesmo após a morte”.

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“Então, principalmente quando a gente fala de cemitérios indígenas, a gente precisa pensar que são, muitas vezes, os parentes daquelas pessoas. Ou mesmo os cemitérios coloniais antigos, ou algo assim, é sempre preciso levar em consideração e pensar, ‘e se fosse alguém da nossa família, como é da deles?’. São antepassados dessas pessoas”, afirma o arqueólogo.

“A partir do momento que, mesmo com a pergunta bem fundamentada, as populações disseram ‘não’, é isso. É ‘não’, né? Porque a gente não sabe os efeitos que isso pode ter para essas populações que estão interagindo com esses espaços atualmente”, completa.

Por fim, nem todo sítio arqueológico é um cemitério, ou contém remanescentes humanos – mas, também, nem todo sítio arqueológico que contém remanescentes humanos é, necessariamente, um cemitério. Segundo Sérgio Francisco Serafim Monteiro da Silva, professor da Universidade Federal de Pernambuco, um termo mais abrangente seria “espaço funerário”..

“Os [cemitérios] dos ‘indígenas’ (povos originários), ou de ‘escravizados’ (pessoas em diáspora forçada para trabalho escravo em sistema de plantation), podem diferir muito daquilo que esperamos como ‘cemitério’ na concepção do patriarcado católico no Brasil, por exemplo. Os corpos não eram depositados em caixões, mas eventualmente dentro de vasilhas cerâmicas ou eram feridos dentro das covas”, explica o professor.

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“Se você buscar na história da humanidade as formas de sepultar e os diversos tipos de espaços para os mortos verá que divergem imensamente. Povos que viveram no Piauí, Brasil, há pelo menos 9 mil anos atrás, sepultavam ou depositavam seus entes falecidos em cavernas, abrigos, sozinhos e fletidos com seus adornos e armas ou em grupos de mais de 10 pessoas, com seus colares e muito ocre vermelho. Esses espaços para os mortos variam muito: denominar todos como ‘cemitério’ seria reduzir e retirar suas identidades ou especificidades simbólicas próprias”, completa.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.