Quais são os fatores genéticos relacionados ao borderline, segundo maior estudo sobre o tema
Pesquisadores encontraram evidências de possíveis fatores genéticos de risco relacionados ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), em grande estudo publicado nesta segunda-feira (20) no periódico Nature Genetics.
Reunindo dados de mais de 1 milhão de pessoas em 14 países, a nova análise representa o maior estudo de associação do genoma completo (Genome-wide association study, GWAS) já feito sobre o tema. Nesse tipo de pesquisa, especialistas analisam sequências completas de DNA em busca de variações genéticas que possam estar relacionadas a algum traço específico.
A equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim (Alemanha) foi capaz de identificar 11 regiões de risco dentro do genoma humano, abrangendo nove genes funcionais possivelmente relacionados ao desenvolvimento do borderline.
Até então, poucas pesquisas haviam explorado as bases biológicas que poderiam contribuir para o desenvolvimento da condição. Nenhuma em grande escala.
“Nosso estudo mostra pela primeira vez em nível genético que o TPB está associado a uma variedade de outras doenças psiquiátricas e físicas. Isso abre novos caminhos para compreender melhor suas causas e, a longo prazo, aprimorar o cuidado prestado às pessoas afetadas”, afirma, em comunicado, o pesquisador Fabian Streit, membro do instituto alemão e principal autor do estudo.
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição complexa que prejudica de maneira severa o controle das emoções, podendo levar a comportamentos impulsivos, dificuldades com relacionamentos e distorções na percepção do portador sobre sua auto-imagem. Os sintomas costumam surgir durante a adolescência, e o diagnóstico é feito a partir da observação de padrões emocionais, cognitivos e comportamentais recorrentes ao longo da vida.
O Borderline pode impactar consideravelmente a qualidade de vida de uma pessoa. Portadores são mais propensos à autolesão e a ideações suicidas ou tentativas de suicídio, podendo apresentar também sintomas relacionados a outros quadros clínicos, como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar e transtorno do estresse pós-traumático, assim como uma propensão maior ao abuso de substâncias.
Nos países ocidentais, a condição afeta entre 0,9% a 1,9% da população, ao passo que mulheres tendem a receber o diagnóstico aproximadamente três vezes mais que homens (em parte, por conta de um viés diagnóstico).
Os fatores que levam ao desenvolvimento da condição ainda são pouco compreendidos. Estudos passados identificaram certos fatores ambientais (isto é, aspectos da experiência de vida de cada pessoa) que podem contribuir para o surgimento do TPB. Com destaque, portadores do transtorno tendem a relatar experiências adversas ocorridas durante a infância, incluindo casos de abuso e negligência, com maior frequência. Mesmo quando comparados a pacientes com outros transtornos psiquiátricos.
Ainda assim, muitos indivíduos com o mesmo diagnóstico não relatam qualquer experiência desse tipo, indicando que o borderline pode surgir por vias não relacionadas ao trauma. Estudos feitos com famílias e irmãos gêmeos mostraram que a hereditariedade do transtorno fica entre 46% e 69%
Ainda assim, poucas pesquisas focaram nos possíveis fatores para o desenvolvimento do TPB contidos na biologia e na genética. “O Transtorno de Personalidade Borderline é um dos transtornos mentais mais graves – e, mesmo assim, sabemos surpreendentemente pouco sobre sua base biológica”, diz Streit.
O novo artigo reúne dados de 27 estudos diferentes, que recrutaram pessoas com TPB ou analisaram registros médicos e genéticos armazenados em biobancos. Os pesquisadores procuraram por mais de seis milhões de marcadores genéticos no genoma de mais de um milhão de indivíduos. No total, eram 12.339 pessoas com TPB, e 1.041.717 pessoas sem o transtorno.
Inicialmente, os autores identificaram seis regiões do genoma (chamadas “locis”) com variações comuns entre pessoas com Borderline. Para confirmar os resultados, a mesma análise foi refeita em outro grupo, com 685 pessoas com TPB, e 107.750 pessoas sem. As variações continuaram significativas. De bônus, a combinação das duas análises também permitiu com que os cientistas identificassem mais cinco regiões com esse tipo de variação, totalizando 11 locis associados ao TPB.
A partir desses resultados, o estudo sugere que as variações genéticas identificadas correspondem a cerca de 17% do risco hereditário de TPB. Um dado que, segundo os pesquisadores, está de acordo com os resultados dos estudos feitos com famílias.
Além disso, algumas das variações genéticas encontradas pelos pesquisadores também correspondem a marcadores de outros transtornos, como depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e comportamentos antissociais, assim como condições físicas, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e diabetes. A coincidência genética mais forte ocorria com o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT).
“O novo estudo fornece um importante ímpeto para uma melhor compreensão das causas biológicas e das opções de tratamento delas decorrentes. Os resultados se alinham muito bem à nossa abordagem cada vez mais transdiagnóstica e reforçam a importância de adaptar os planos terapêuticos às comorbidades”, afirma Christian Schmahl, co-autor do estudo, no comunicado.
Com a descoberta dos múltiplos genes ligados ao Borderline, Fabian Streit traça um paralelo entre os novos achados e os estudos de associação do genoma completo (GWAS) que encontraram os primeiros marcadores relacionados à esquizofrenia, e assim impulsionaram as pesquisas genéticas sobre a condição.
“Esses achados evidenciam a natureza altamente poligênica do transtorno de personalidade borderline. Eles se assemelham aos primeiros resultados dos GWAS sobre esquizofrenia, realizados há cerca de 15 anos, que inicialmente identificaram apenas alguns loci de risco – antes que colaborações internacionais e coortes cada vez maiores levassem a um crescimento exponencial das descobertas. Podemos esperar uma trajetória semelhante para o borderline”, afirma Streit.
O próximo passo é ampliar a pesquisa para estudos ainda maiores e mais diversificados. O estudo atual, por exemplo, só contou com indivíduos de ancestralidade europeia. “Será fundamental ampliar os estudos para incluir populações com ancestralidades mais diversas e integrar os achados genéticos a fenótipos clínicos e exposições ambientais, como traumas”, continua o pesquisador.
Ainda não se tem registro de nenhum medicamento capaz de tratar o borderline. Atualmente, o tratamento mais indicado são as intervenções terapêuticas. A Terapia Comportamental Dialética (TCD) foi desenvolvida especificamente para o tratamento de borderline, e foi uma das primeiras a demonstrar eficácia por meio de estudos clínicos. A Terapia do Esquema, Terapia Focada em Mentalização (MBT) e Terapia Focada na Transferência (TFP) também apresentam evidências de eficácia.
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