Por que, no século 19, as famílias tiravam fotos com cadáveres?
Hoje, as câmeras fotográficas estão em nossos celulares, nossos laptops, nossos eletrodomésticos. Para eternizar um momento, basta apontar e clicar. No século 19, porém, as coisas não eram assim: a fotografia era uma tecnologia recente e a ideia de ter nossa figura gravada para sempre num objeto parecia quase alienígena. Era natural que, nesses primórdios, fosse tratada como algo diferente do que é hoje.
A primeira fotografia propriamente dita da história é de 1826. Mas foi só em 1839 que o francês Louis Daguerre apresentou o daguerreótipo, o primeiro processo fotográfico comercialmente bem-sucedido, que gravava imagens em pequenas placas de metal. Nas décadas seguintes, o processo fotográfico passou a ser rapidamente aprimorado e a fotografia ganhou popularidade.
Assim cresceu também, entre muitas famílias do Reino Unido, o hábito de tirar fotos dos parentes mortos para ter uma lembrança para a eternidade. A ideia de fazer registros de falecidos não era nova — mas, antes do século 19, esse era um privilégio das famílias ricas, que podiam contratar artistas para pintar retratos de seus falecidos. A fotografia, muito mais barata, permitia que as famílias pobres também tivessem acesso a esse alento, principalmente a partir da década de 1850.
A demanda era grande: naquela época, a expectativa de vida na Europa girava em torno dos 40 anos, principalmente devido à elevada mortalidade infantil — as crianças, nessa era pré-antibióticos, eram muito vulneráveis a doenças como sarampo, difteria e cólera. Por isso, era normal que, no processo de luto, as famílias procurassem um fotógrafo para pedir o registro, algo que chamavam de “memento mori”, que vem do latim “lembre-se de que você morrerá”.
Embora, em inglês, essas imagens sejam chamadas de “Victorian death photos”, a prática se espalhou para além do Reino Unido, sendo vista por toda a Europa e também em outros países, como os EUA e a Austrália. O historiador Stanley Burns estima que 30 milhões de daguerreótipos de pessoas falecidas tenham sido produzidos nos EUA entre 1841 e 1860.
Preparando os falecidos
Essas fotografias eram cuidadosamente posadas: mães embalando os filhos, casais se abraçando, bebês dormindo. Muitos dos modelos eram posicionados em camas ou caixões. Diferentemente dos retratos dos vivos, que costumavam ser batidos em estúdio, as fotos dos mortos geralmente eram tiradas em casa. As famílias preparavam o ente querido: roupa bonita, penteado especial. Alguns fotógrafos abriam os olhos dos cadáveres e outros até mesmo pintavam sobre os olhos das fotografias para que parecessem abertos.
Muitos fotógrafos vitorianos, inclusive, tinham experiência em ajeitar bebês mortos para que parecessem estar dormindo. Alguns até aplicavam um leve tom rosado às bochechas do bebê para dar a impressão de vitalidade. O cenário também era importante: costumava-se decorá-lo com flores e objetos que aludiam ao tempo, como ampulhetas e relógios. Dessa forma, ficava subentendido que se tratava de uma foto pós-morte.
Havia também as fotos em que os vivos posavam junto com o morto. Nessas, era comum um efeito curioso: os mortos ficavam mais nítidos na imagem final porque permaneciam imóveis durante o processo de captura (que levava alguns minutos), enquanto os vivos apareciam levemente borrados. Algumas crianças posavam com seus cachorros falecidos.
Alguns exemplos mais tardios mostram o falecido em um caixão e acompanhado por um grande grupo de pessoas participando do funeral. Esse tipo de fotografia era especialmente popular na Europa e menos comum nos EUA.
Havia as dificuldades naturais de lidar com um corpo. Em uma edição de 1873 da revista Philadelphia Photographer, o fotógrafo Albert Southworth escreve: “Se uma pessoa tiver falecido e os amigos temerem que haja expulsão de líquido pela boca, é possível virá-la cuidadosamente, como se estivesse sob o efeito de um emético. Pode-se fazer isso em menos de um minuto; todo o conteúdo será expelido, e então é possível limpar a boca, lavar o rosto e manusear o corpo tão bem quanto se a pessoa estivesse viva”.
Uma lembrança
Em geral, porém, a regra era tratar o morto com o máximo de dignidade. As fotos pós-morte não eram uma brincadeira, e sim uma tentativa honesta de manter o parente presente em memória. As poses eram pensadas para trazer solenidade e os corpos não eram submetidos a manipulações desrespeitosas. Os boatos de que cadáveres eram pendurados ou segurados de pé para parecerem vivos não têm fundamento histórico.
As fotos dos falecidos eram guardadas como recordações, exibidas nas casas, enviadas a amigos e parentes, usadas dentro de medalhões ou até mesmo carregadas no bolso.
As fotos pós-morte caíram em desuso no começo do século 20 com os avanços da medicina, as quedas na mortalidade infantil e a adoção de regras sanitárias mais rígidas no cuidado com os corpos. Além disso, o avanço na tecnologia fotográfica e o surgimento das câmeras domésticas fizeram com que as pessoas tivessem vastos registros de seus entes queridos em vida, não mais necessitando fotografá-los após a morte.
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