Por que burros são associados a pessoas que não são inteligentes?
A tradição de associar burros, jumentos e mulas a características indesejáveis, como a falta de inteligência e a teimosia é muito antiga, e não existe só em português. Em inglês e espanhol, também se fala “teimoso como uma mula” – “stubborn as a mule” e “más terco que una mula”.
Mas é um apelido muito injusto: os equídeos – cavalos, jumentos, burros, mulas e outros parentes – são sim inteligentes. Estudos já provaram que eles armazenam memória de longo prazo, têm relações sociais complexas e podem ser adestrados para executar tarefas detalhadas.
Aliás, é um bom momento para diferenciarmos os animais: cavalos (Equus caballus) e jumentos (Equus asinus) são espécies diferentes. Os jumentos também são conhecidos como asnos, jegues ou jericos – e, curiosamente, todos esses nomes também servem de xingamentos (já ouviu alguém falar em “ideia de jerico” para se referir à uma ideia sem cabimento?)
Já os burros e mulas são o mesmo bicho: híbridos obtidos do cruzamento de uma égua com um jumento macho. Quando o cruzamento é entre um cavalo macho e uma jumenta, o híbrido se chama bardoto. O bardoto é mais incomum, porque a gestação é mais difícil e ele não é tão bom para o trabalho quanto os seus primos. Talvez por isso, é o único cujo nome escapou de virar ofensa.
É possível que todo esse estigma tenha a ver com dificuldades no trato desses animais.
“Domar jumentos e burros é mais desafiador do que domar cavalos, pois seus comportamentos naturais são diferentes”, explica Chiara Albano, professora da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Um exemplo: de frente a um predador ou situação de perigo, os cavalos correm, fogem e observam de longe. O jumento para e analisa a situação antes de agir. Se percebe perigo ou fica desconfiado, ele trava, priorizando sua segurança.”
E esse estigma é muito, muito antigo. Nas Fábulas de Esopo, histórias que existem desde os séculos 5 e 6 a.C, os burros já apareciam para representar personagens vaidosos, teimosos e ingênuos.
Outra das mais antigas referências conhecidas é de um livro do século 2, ou seja, de 1.800 anos atrás. Em “O asno de ouro”, o autor romano Lucius Apuleius conta a história de um homem que vira um asno. Em um dado momento, a expressão asinina cogitatio – em uma tradução literal, pensamento de burro – é usada para se referir a uma insensatez.
Pergunta de Arthur de Souza Pereira, de Barreiras (BA).
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