Por que as potências mundiais disputam há mais de um século essas minúsculas ilhas do Pacífico?
o final do século 19, o Império Espanhol, que já havia sido o mais poderoso do mundo, dava seus últimos suspiros. Já sem suas maiores colônias na América Latina, todas independentes, a Espanha entrou em guerra contra uma potência emergente, os EUA, em 1898. Saiu derrotada e ainda perdeu o controle de Cuba, Porto Rico, Filipinas e Guam.
Cuba virou um protetorado norte-americano. Depois conquistou a independência, mas Washington manteve o direito de intervir na política interna até 1934 – e ainda pegou para si a Base Naval de Guantánamo. As Filipinas só se livraram do domínio ianque em 1946. Porto Rico é, até hoje, um território que pertence aos EUA, assim como Guam, a maior das Ilhas Marianas, na Micronésia (uma região do Oceano Pacífico).
A perda das Filipinas significou também que as possessões espanholas que eram administradas a partir de Manila ficaram ingovernáveis. O Pacífico se tornou distante demais de Madri. Então, em 1899, a Espanha decidiu vender o que restava de seus domínios na região a outra das potências que estavam em ascensão na época, a Alemanha.
Pelo tratado, o Império Alemão assumia o controle das Ilhas Carolinas, a nordeste da Nova Guiné, e das Ilhas Marianas do Norte, entre Filipinas e Japão. Elas se juntaram às Ilhas Marshall e a Naoero (antigamente chamada de Nauru), outros territórios germânicos no Pacífico, o que dava a Berlim o poder sobre uma imensa área no oceano.
Porém, essa realidade não durou muito. Em 1914, a Primeira Guerra estourou na Europa, mas ela não era “mundial” só no nome. A Entente, grande coalizão militar da época, fez com que os alemães, ao enfrentarem franceses e britânicos, ganhassem também um inimigo no Pacífico: outra potência em ascensão, o Japão.
Mergulhada na guerra de trincheiras na Europa, a Alemanha não teve como segurar seus novos territórios insulares. O Império do Japão, com facilidade, abocanhou as Marianas do Norte, as Carolinas e as Marshall. Com o fim da guerra – alemães derrotados, e japoneses do lado vencedor –, a situação foi oficializada. Em 1919, a Liga das Nações, antecessora da ONU, colocou todas elas sob o Mandato do Pacífico Sul, território administrado pelo Japão.
Os EUA ficaram apreensivos com a situação. O Japão estivera do mesmo lado na guerra, mas isso não queria dizer muito. O presidente norte-americano, Woodrow Wilson, estava preocupado com as intenções de Tóquio. “Queria cercar as bases militares norte-americanas nas Marianas do Sul e em Guam, transformando o oeste do Pacífico em um lago japonês?”, escreveu Timothy Maga, especialista nas relações nipo-americanas, em um artigo na revista científica Diplomatic History. “Teria ambições ainda maiores, como usar essas cadeias de ilhas como trampolim para desafiar a presença dos EUA no Havaí?”
O Japão havia garantido aos EUA que sua presença nessas ilhas seria temporária, apenas para ajudar no esforço de guerra. Mas logo o país mudou de ideia e decidiu que a posse era definitiva.
As preocupações ganharam corpo quando o Japão transformou Jaluit, um atol nas Ilhas Marshall, em uma base militar. Jaluit fica a cerca de 4 mil km do Havaí e de Guam. Pode parecer uma enormidade, mas, nas dimensões do maior oceano do mundo, isso não é muito. O suficiente para ameaçar a supremacia norte-americana no Pacífico, ainda mais porque os EUA ainda controlavam as Filipinas, que ficavam, assim, mais isoladas.
Outro arquipélago, Yap, nas Carolinas, virou motivo de crise. Desde os tempos alemães, Yap era um centro estratégico de comunicação, base de conexão para cabos telegráficos. Os EUA temiam que o Japão pudesse, com isso, dificultar seu acesso às Filipinas. A questão de Yap, no início dos anos 1920, acabou resolvida, e a imprensa e os políticos da época viam o belicismo em torno dela como algo tolo e insensato. “Mas o estado contínuo das relações precárias entre americanos e japoneses sugeria que uma crise futura era possível”, lembra Maga.
Em dezembro de 1941, esses temores se concretizaram. O Império do Japão invadiu a Tailândia, atacou possessões britânicas (Malásia, Hong Kong e Singapura) e bombardeou a base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, levando a Segunda Guerra Mundial ao Pacífico. O conflito durou até agosto de 1945, quando o país, derrotado, se rendeu.
O legado
Essas ilhas do Pacífico tiveram que lidar com o domínio de três potências estrangeiras no espaço de menos de 20 anos, mas a relevância delas era apenas marginal tanto para a Espanha quanto para a Alemanha e o Japão. Na Segunda Guerra, isso mudou um pouco de figura, porque algumas delas foram palco de batalhas importantes no conflito, como Saipan e Tinian, nas Marianas do Norte, e Palau, nas Carolinas.
A vitória dos EUA na guerra mudou mais uma vez o controle na região. As Ilhas Marianas atualmente se dividem em Marianas do Norte e Guam (ambos territórios não incorporados dos EUA – o mesmo status de Porto Rico). Já as Ilhas Carolinas viraram Micronésia e Palau – assim como as Ilhas Marshall, são países soberanos, mas dependentes do auxílio econômico dos EUA. De todos, o único que desenvolveu uma economia que não está presa aos ianques é Naoero.
Hoje, a posição estratégica de algumas dessas ilhas continua mobilizando as potências. É o caso de Palau. Desde que conquistou a independência, em 1994, o país manteve laços estreitos com os norte-americanos, como acesso militar exclusivo. A proximidade de Taiwan fez com que os governos criassem parcerias estratégicas – Palau é dos poucos países que reconhecem a independência da ilha (para a maior parte da comunidade internacional, Brasil incluso, Taiwan faz parte da China).
Por isso, nos últimos anos o governo chinês tem feito pressão para afastar Palau de Taiwan, o que inclui até o boicote ao turismo no arquipélago. Os chineses, que há dez anos eram metade dos visitantes de Palau, pararam de ir, porque as agências da China teriam sido obrigadas a suspender a venda de pacotes para lá.
Graeme Smith, professor da Universidade Nacional Australiana e especialista em relações internacionais no Pacífico, escreveu em um artigo que o micropaís de 18 mil habitantes tem importância crucial no tabuleiro geopolítico. Para ele, a possibilidade de Palau mudar de lado criou um clima de paranoia em Washington.
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