Por que a febre é pior durante a noite?
O corpo fica naturalmente mais quente no início da noite – e a infecção pega carona nesse ritmo.
A temperatura corporal oscila conforme o ritmo circadiano térmico. Ela atinge seus valores mais baixos no fim da madrugada (entre 4h e 6h) e alcança o pico no fim da tarde e início da noite (entre 16h e 20h) com uma variação de até 1 °C.
O mesmo ocorre se a pessoa estiver com febre, mas em um patamar mais alto. “Uma febre que mal aparece à tarde, com 37,8 ºC, pode marcar 38,8 ºC ou 39 ºC na hora de dormir, mesmo sem nenhuma piora real do quadro”, diz Marco Aurélio Sáfadi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Além disso, ao longo da noite ocorre uma queda dos níveis de cortisol, hormônio que tem ação anti-infamatória. Com isso, sintomas como a febre tendem a se intensifcar. Em compensação, há um aumento da atividade de citocinas pró-inflamatórias – como IL-6, IL-1 e TNF-α–, substâncias que ajudam a elevar a temperatura corporal.
Além disso, a febre faz parte da estratégia de defesa do organismo, que intensifica a resposta imunológica durante o sono. O aumento da temperatura dificulta a multiplicação de vírus e bactérias. “A presença de febre indica um processo de ativação anormal da imunidade”, afirma o Dr. Luiz Fernando Degrecci Relvas, Supervisor Médico de Infectologia e Clínica Médica do Hospital Santa Marcelina.
Outro fator é que, sem distrações ou atividades durante a noite, a percepção do desconforto pode ser maior. Por estarmos parados, também transpiramos menos, fazendo com que o calor da pele não se dissipe e contribua para a sensação de que a febre está mais intensa.
Isso não significa necessariamente um agravamento da doença. Em quadros comuns, como gripes e viroses, a febre só é preocupante quando ultrapassa 39,5 °C ou quando vem acompanhada de outros sinais, como suor excessivo e perda de peso involuntária.
Por outro lado, algumas doenças apresentam padrões característicos de febre. “A tuberculose costuma provocar febre majoritariamente no final da tarde e início da noite. Algumas infecções crônicas também fazem isso, assim como certos tipos de neoplasia, especialmente os linfomas”, explica o Dr. Relvas.
Toda febre merece atenção, mas não é preciso passar a noite inteira com o termômetro na axila. O mais importante é observar outros sintomas associados, como dificuldade para respirar, confusão mental, dores abdominais e vômitos. “Importa menos o horário e mais o contexto clínico. Idade, doenças prévias, uso de medicamentos, viagens recentes, sintomas associados e duração dos sintomas pesam mais do que o ponteiro do relógio”, conclui o Dr.Sáfadi.
Pergunta de Lucimara Ramos, Blumenau (SC)
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