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Curiosidades

Órgão humano que “deixa de existir” durante a vida pode ser a chave para a longevidade

No meio do peito, atrás do osso esterno e logo na frente do coração, fica uma estrutura que, na opinião dos gregos antigos, era o lugar onde a alma se sentava: o timo. A ciência moderna demorou alguns séculos para descobrir a real utilidade nesse órgão. Mas isso tem mudado.

O timo, hoje sabemos, é uma glândula crucial do sistema imune. Ele é dotado de uma particularidade bem curiosa: ao longo da vida, ele atrofia, encolhe, e, após certa idade, praticamente desaparece. Não à toa, estudos mais recentes sugeriram que a saúde desse órgão poderia servir como um indicador da saúde geral de uma pessoa. Com base nisso, o timo agora se encontra no centro de uma nova leva de pesquisas e empreendimentos farmacêuticos que procuram, na restauração dessa estrutura efêmera, a chave para uma vida mais saudável e longeva.

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Foram necessárias duas grandes reviravoltas científicas até que o timo conquistasse os olhares de pesquisadores. Nas décadas anteriores a 1960, imperava a ideia de que esse órgão não tinha função alguma, sendo apenas uma estrutura vestigial. Em outras palavras, um órgão “ultrapassado” que, em algum ponto da evolução, foi útil para a sobrevivência da espécie, mas hoje teria perdido toda ou quase toda sua função.

Pesava nessa hipótese o fato de que, em animais adultos que tiveram o timo cirurgicamente removido, a resposta imune do corpo parecia continuar muito-bem-obrigado, com a vida seguindo sem grandes transtornos. Remover o timo, segundo essa lógica, seria tão inconsequente quanto arrancar os dentes do siso.

Esse entendimento foi virado do avesso no começo dos anos 1960, quando o imunólogo franco-australiano Jacques Miller olhou para o efeito que a remoção do timo teria não só em animais adultos, mas na saúde de camundongos recém-nascidos. A princípio eles pareciam perfeitamente saudáveis. Acontece que, algumas semanas após o desmame, eles começavam a perder peso e morriam. Os pequenos que passaram pela cirurgia, Miller descobriu, acabavam altamente suscetíveis a infecções, e tinham muito menos linfócitos – um dos tipos de célula responsável pela defesa do corpo.

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Assim, ele concluiu que o timo deveria estar envolvido no desenvolvimento das células do sistema imunológico durante o começo da vida. Após outros estudos, já no final da década, Miller comprovou que o timo era responsável pela produção das chamadas células-T (de timo), componentes essenciais da resposta imune do corpo. Além de prevenir infecções, essas são as células responsáveis por atacar células cancerígenas.

Era fácil assumir, então, que o corpo não precisaria mais produzir novas células-T durante a vida adulta (afinal, o timo vai atrofiando com o tempo). Logo após a puberdade em humanos, grande parte das células do timo se transformam em tecido fibrogorduroso, que não tem função alguma. A produção das células-T afunda junto: aos 40 anos, cai para um quarto da capacidade; aos 65 anos, produz apenas 10% do que conseguia originalmente.

Daí, outra reviravolta. Em 2023, pesquisadores descobriram que pessoas que tiraram o timo depois de adultas tinham três vezes mais chances de morrer, e uma probabilidade duas vezes maior de desenvolver câncer após cinco anos da cirurgia.

Em 2026, dois estudos lançados em conjunto na revista Nature revelaram ainda mais prejuízos.

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Analisando os dados de mais de 31 mil pessoas, a equipe de pesquisadores mostrou, em um dos artigos, que timos mais encolhidos estavam ligados a riscos maiores de morte, de desenvolvimento de câncer de pulmão e de problemas cardiovasculares. No outro, eles observaram que pacientes com câncer que tinham timos menores tendiam a responder pior à imunoterapia, morrendo mais após o tratamento.

Os estudos apontam correlações, então ainda não é possível dizer se foi a atrofia do timo, especificamente, que levou a essas pioras na saúde. Ainda assim, os achados despertaram o interesse de diversos pesquisadores, com uma suspeita tentadora: se o timo for mesmo esse grande marcador da saúde geral, regenerar esse órgão poderia trazer muitos benefícios à saúde.

É nisso que muitas empresas têm apostado, durante uma nova onda de investimentos que tem mirado o desenvolvimento de tratamentos capazes de rejuvenescer o timo. Nos EUA, a biofarmacêutica Intervene Immune tem desenvolvido diversos ensaios clínicos sob o comando científico do criobiólogo Gregory Fahy – que, em 1996, injetou hormônios do crescimento em si mesmo na tentativa de regenerar o próprio timo.

Nos ensaios clínicos, o protocolo é parecido (mas dessa vez em um cenário bem mais controlado, claro). Hormônios do crescimento e outros compostos são administrados em participantes quatro vezes por semana, enquanto os pesquisadores monitoram marcadores químicos do envelhecimento em seus cromossomos. Esses têm sido os testes mais promissores até agora: os participantes demonstraram uma reversão de, em média, dois anos e meio nesses marcadores.

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Segundo apuração da Nature, investimentos em pesquisas nessa área já somam algumas dezenas de milhões. Em outubro do ano passado, a firma de biotecnologia Zag Bio injetou 80 milhões de dólares nessas iniciativas. Em janeiro, mais 12,4 milhões foram investidos pela empresa suíça TECregen. Fundos de investimento e empresas farmacêuticas também têm demonstrado interesse em novos possíveis tratamentos.

Por enquanto, porém, os métodos para regenerar o timo são limitados, e muitos ainda são caros ou complexos demais. Com mais destaque, a terapia de privação de andrógeno, um tipo de hormonioterapia para o tratamento do câncer de próstata, consegue aumentar a produção de células-T, e o mesmo vale para a restrição de calorias.

Outros desafios também estão postos. Terapias que envolvem hormônios do crescimento podem trazer junto os riscos maiores de câncer e picos de glicemia associados a esses fármacos, e muitos dos compostos sendo testados são injetados direto nas veias – uma inconveniência a mais. Além disso, é difícil desenvolver um tratamento que atinja apenas o timo, já que o órgão, em sua maioria, não é composto de nenhuma proteína específica apenas a ele.

Ainda assim, mesmo que pesquisadores consigam regenerar de maneira segura o timo, as pesquisas ainda não respondem qual é o real impacto que o aumento da produção de células-T poderia ter na saúde.

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“É fácil perceber que o tamanho foi restaurado, mas é menos evidente se toda a funcionalidade também foi recuperada”, disse à Nature a microbiologista Ann Griffith, da Universidade do Texas. “Ainda não compreendemos plenamente como essas intervenções realmente regeneram o tecido, e estamos apenas começando a explorar esse processo. Estamos bem no início dessa jornada.”

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.