Odisseia: qual a espécie da flor de lótus mágica que causa amnésia?
A Odisseia – poema épico de Homero que acaba de ganhar uma nova adaptação para o cinema pelo diretor Christopher Nolan – narra a jornada do herói Odisseu, rei de Ítaca, que tenta por dez anos voltar para casa após sua vitória na Guerra de Tróia. O caminho é tortuoso, a história é comprida e, no meio do caminho, Odisseu e seu grupo de marinheiros acabam topando com uma variedade de obstáculos – o mais famoso sendo o encontro com o ciclope devorador de homens na caverna.
Pouco antes disso, porém, um outro episódio conhecido é narrado em uma passagem relativamente miúda do poema. Tem a ver com uma flor de lótus.
Perdidos em alto mar após uma tentativa muito mal-sucedida de saquear a tribo dos Cícones, Odisseu e seus companheiros acabam atracando em uma ilha em algum ponto remoto do Mediterrâneo. O território, eles logo descobrem, é habitado pelos chamados “lotófagos”, um povo estranhamente sossegado, que passa a vida se alimentando das flores e frutos que brotam da planta fantástica que domina a ilha, a árvore de lótus.
Os homens de Odisseu, convencidos a saborear o alimento, acabam enfeitiçados. A onda foi tão forte que eles nem se lembravam mais para onde estavam querendo voltar para começo de conversa. Melhor passar o resto da vida lá na ilha. É Odisseu, o épico herói, então, quem fica encarregado de arrastar todos seus companheiros de volta para o navio, amarrados e chorando.
Entre os mais de 12 mil versos do poema, essa história mal passa de 20. No novo filme A Odisseia, Nolan escolheu dar as flores na mão de Calipso, a ninfa que aprisionou Odisseu em sua ilha por sete anos em um estado profundo de amnésia. Ela, interpretada por Charlize Theron, usa os efeitos da flor de lótus para fazê-lo esquecer os traumas do saque em Tróia, assim como sua família em Ítaca.
O que levanta a pergunta: que espécie de flor é essa que bate tão forte ao ponto de apagar a memória? A resposta, mesmo para estudiosos da Odisséia, continua no ar.
Difícil cravar uma espécie exata. Para começar, é improvável que a tal “flor de lótus” descrita no poema corresponda a qualquer uma das espécies que hoje associamos a esse nome – como a Nelumbo nucifera, uma planta aquática nativa da Ásia associada às tradições budistas.
Olhando para o idioma original, então, a palavra grega usada para descrever a planta é λωτός (lōtós). O que também não é muito específico, já que esse mesmo termo era usado para designar uma variedade de plantas e frutos.
Os historiadores da Grécia Antiga também nunca chegaram a concordar em uma única localização exata onde essa história teria se passado. No século 5 A.C., Heródoto era crente que a ilha de fato existia, no lugar que hoje corresponde à região costeira da Líbia. Três séculos depois, sem desviar muito, Políbio colocou as fichas na ilha de Djerba, onde crescia uma distinta frutinha doce – mesma aposta feita, depois, pelo historiador grego do século 1, Estrabão.
“Ela [a ilha de Djerba] de fato tem uma planta nativa chamada Ziziphus lotus, que é um sedativo”, disse ao New York Times a arqueóloga Elizabeth Fentress, que pesquisou Djerba. “Não tem como provar, mas eu não vejo por que não seria”.
No norte da África, essa é uma das espécies que recebe o apelido de jujubeira. Dela, brotam pequenas frutinhas com propriedades aliviantes, que podem ser consumidas frescas, desidratadas ou fermentadas em vinho.
Aí teríamos um forte candidato. O problema é que a Odisseia já é uma obra recheada de menções ao vinho. Difícil imaginar, então, que Homero contaria uma história fantástica sobre um fruto mágico hipnotizante se, assim como todas as outras bebidas do poema, essa fosse apenas mais uma droga alcoólica. A flor de lótus, então, precisaria ser algo bem mais forte. Talvez até alucinógena.
É o caso da Nymphaea caerulea, a lótus-azul, que, em doses altas, pode induzir alucinações ou euforia. Também conhecida como lótus-do-Egito, essa planta era usada pela antiga civilização egípcia por conta de suas propriedades psicoativas – seja para aliviar a ansiedade, induzir o sono, ou até melhorar a libido. Além disso, crescendo no norte da África, sua localização também bate com o mediterrâneo mítico narrado na Odisseia.
Falando do mediterrâneo, porém, não podemos deixar de fora a opção mais óbvia: o ópio. Ou melhor, a papoila-dormideira (Papaver somniferum), a flor colorida de que deriva a substância analgésica, usada para a síntese de opioides como a heroína. Na antiguidade, essa era uma substância amplamente difundida pela região do mediterrâneo, por vezes consumida diariamente, mais de uma vez ao dia.
Na história, faz sentido. Os companheiros de Odisseu tiveram que ser levados de volta para a nau amarrados e esperneando – uma reação perfeitamente plausível para alguém com uma adicção grave.
Ainda assim, não há certeza. Resta, então, cogitar se realmente faz sentido tentar encontrar a espécie específica da planta mágica de Homero. A flor de lótus da narrativa, afinal, pode reunir todas as características exóticas que agitariam a imaginação de um grego antigo, sem, necessariamente, ter um paralelo na vida real.
“O loto é para a comida, na Odisseia, o que o Ciclope é para os humanos. Uma coisa na imaginação mítica”, disse Kirk Freudenburg, pesquisador da cultura clássica, para o NYT. Sendo a flor, então, uma planta de nenhuma espécie, talvez ela possa dizer mais sobre o pensamento de quem narrava essas histórias, e o mundo em que elas viviam, do que sobre botânica. Mas ainda dá pra aprender um pouco de botânica no processo.
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