O que uma garrafa enfiada em um ânus tem a ver com o colapso da Iugoslávia
“A mutilação de Djordje Martinovic, um agricultor de 56 anos e pai de três filhos, tornou-se o caso criminal iugoslavo mais discutido em anos, debatido no Parlamento e amplamente noticiado pela televisão e pela imprensa. Os iugoslavos culpam os albaneses” —é o que noticiou o jornal The New York Times em 28 de abril de 1986.
Uma história muito séria, até você entender que a tal mutilação pode, na verdade, ser um caso catastrófico de masturbação malsucedida.
Tudo começou no dia 1o de maio de 1985, quando o sérvio Martinovic, residente da cidade de Gjilan, em Kosovo, deu entrada em um hospital local com uma garrafa de vidro quebrada alojada em seu reto. Se você fosse um médico atendendo esse paciente, o que pensaria ter causado esse incidente? Provavelmente, uma brincadeira erótica que deu errado, certo?
Pois bem, Martinovic contou outra história: ele afirmou que estava trabalhando em sua fazenda quando foi abordado por dois albaneses que o agrediram e o estupraram, inserindo a garrafa. Não seria de todo estranho: os sérvios e os albaneses eram dois grupos étnicos de Kosovo que não se bicavam.
Na época, o país Iugoslávia era formado por seis repúblicas constituintes: Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Eslovênia. Dentro da Sérvia, havia duas províncias autônomas, Kosovo e Voivodina. E Kosovo tinha esses dois grupos étnicos: os sérvios, que eram minoria, e os albaneses, que formavam a maioria.
Ao culpar os albaneses, Martinovic inadvertidamente jogou gasolina em um conflito político que já estava pegando fogo.
Uma história dita e desdita
Inicialmente, as autoridades não compraram a história de Martinovic, que foi interrogado várias vezes. No relatório do Serviço de Segurança do Estado do Kosovo, ficou registrado que o paciente feriu-se na parte inferior do intestino grosso ao quebrar a garrafa “durante masturbação anal”.
Mas Martinovic foi transferido para um hospital na cidade de Belgrado, onde passou por novos exames. Lá, a despeito das opiniões dos médicos, as autoridades reportaram que a história da masturbação era uma farsa, criada para ocultar do público os abusos dos albaneses contra os sérvios em Kosovo.
“O caso Martinovic, que combinava imagens potentes do sofrimento e da masculinidade sérvia violada pelo albanês primitivo, brutal e hipersexualizado, tornou-se o símbolo central da questão do Kosovo. Ele capturava a noção de continuidade histórica, o medo de uma vitória demográfica albanesa e a visão da vitimização sérvia”, escreve a historiadora Jasna Dragovic-Soso no livro Salvadores da Nação: A Oposição Intelectual da Sérvia e o Renascimento do Nacionalismo.
A sociedade se revolta
O escândalo estava pronto. A imprensa de Kosovo passou a repercutir o caso diariamente, ao mesmo passo em que crescia a revolta entre os sérvios da província. Martinovic foi alçado a herói e até mesmo músicas e poemas foram escritos sobre ele. Um quadro em que ele aparece crucificado foi pintado.
“O caso permanece sem solução, mas a opinião dos iugoslavos parece estar praticamente formada”, dizia o artigo do New York Times. “Eles culpam os albaneses étnicos e também os responsabilizam pelos contínuos ataques, estupros e vandalismo. Acreditam que o objetivo deles é expulsar os não-albaneses do Kosovo.”
O historiador Samuel Foster acredita que Martinovic possa ter subornado para contar a história da agressão. “A maioria desses ressentimentos é de âmbito local, então eu diria que as pessoas que o convenceram a contar essa história provavelmente o fizeram por razões locais, e não por motivos políticos revolucionários nacionalistas mais amplos. A história pode ter sido aproveitada por autoridades locais e nacionalistas sérvios em níveis mais altos”, disse Foster.
Enfim, guerra
Tudo isso acontecia num contexto político que já era tenso desde pelo menos 1980, quando o presidente iugoslavo Josip Broz Tito, que governou por 27 anos, morreu. Tito havia se esforçado para conter o sentimento ultranacionalista sérvio. Sem ele, as tensões escalaram com maior facilidade.
O caso Martinović não gerou uma guerra imediata, mas ele alimentou diretamente o discurso radicalizado sérvio. Esse fator, aliado a muitos outros (em especial, a crise econômica), facilitou a ascensão de Slobodan Milošević, que foi eleito presidente da Sérvia em 1989 usando um discurso nacionalista e pregando a ideia de que os sérvios estavam sendo oprimidos em outras partes da Iugoslávia, em especial no Kosovo.
Em 1991, após diversos conflitos por poder alimentados por Milošević e pelas tensões étnicas, a Iugoslávia iniciou seu processo de ruptura, dividindo-se em países independentes: Eslovênia (1991), Croácia (1991), Bósnia e Herzegovina (1992), Macedônia do Norte (1991), Montenegro (2006) e Sérvia (2006).
Milošević também participou de várias guerras na década seguinte: a Guerra da Croácia (1991–1995), a Guerra da Bósnia (1992–1995) e a Guerra do Kosovo (1998–1999), todas elas acentuando a frágil situação geopolítica da região da península Balcânica.
Até hoje, a situação por ali ainda é bastante delicada: para ficar apenas em um exemplo, Kosovo declarou independência em 2008, mas a Sérvia não reconhece. E pensar que tudo isso pode ter sido agravado por causa de uma garrafa…
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