O que é “psicose pós-parto”, condição rara por trás de julgamento midiático nos EUA
A enfermeira norte-americana Lindsay Clancy era descrita por colegas e familiares como uma mãe carinhosa. Após o nascimento de seu terceiro filho em maio de 2022, porém, pessoas de seu entorno notaram uma mudança súbita de comportamento. Lindsay passou a relatar queixas como insônia, pensamentos intrusivos e ideação suicida. Por meses, ela procurou diferentes profissionais de saúde.
Seu marido, Patrick Clancy, disse que, em meados de novembro daquele ano, o estado de Lindsay piorou: ela perdeu seu apetite, isolou-se socialmente e vivia episódios constantes de medo intenso. Um mês antes de matar seus três filhos, a enfermeira procurou a mãe e o marido para dizer que tinha “pensamentos sobre fazer mal às crianças”.
Em 24 de janeiro de 2023, Lindsay estrangulou seus filhos – Cora, de cinco anos; Dawson, de três; e Callan, de apenas oito meses – em sua casa em Duxbury, Massachusetts. Em seguida, ela tentou suicídio cortando os pulsos e o pescoço e se jogando de uma janela do segundo andar.
Patrick encontrou a cena algum tempo depois. As crianças mais velhas, Cora e Dawson, foram declaradas mortas ainda no hospital. O filho mais novo do casal, Callan, teve morte cerebral alguns dias depois.
Já Lindsay foi reanimada após sofrer paradas cardíacas e múltiplas transfusões de sangue. A queda do segundo andar, porém, a deixou paralisada da cintura para baixo.
Quando acordou no hospital, ainda entubada, a enfermeira foi entrevistada por um psiquiatra forense. Entre as perguntas que escreveu ao perito, estavam: “tenho um advogado?” e “meu corpo está fraturado?”.
Em seu testemunho, Lindsay afirmou ter ouvido uma voz masculina ordenando que ela cometesse os atos. No dia do crime, ela diz ter acordado com pensamentos suicidas e que, à tarde, uma voz alta repetia insistentemente em sua cabeça: “Esta é a sua última chance. Você tem que matar as crianças para poder se matar”.
Lindsay agora responde judicialmente pelo assassinato de seus três filhos. A ré não contesta que cometeu o crime. Mas sua defesa alega que ela sofria de psicose pós-parto e transtorno bipolar e, por causa dos problemas psiquiátricos, não deveria ser responsabilizada criminalmente.
Os promotores, por sua vez, argumentam que ela estava consciente no momento dos assassinatos. Para eles, há indícios de natureza premeditada do caso: ela pediu para o marido ir buscar comida e medicamentos no dia do crime, para ficar sozinha com as crianças. Além disso, nenhum dos profissionais de saúde que a atendiam na época havia registrado sinais de psicose.
Nesta quinta-feira (3), o julgamento chegou ao sexto dia de deliberações, sem que o júri tenha conseguido chegar a um consenso. Por enquanto, a instrução do juiz é que eles continuem tentando – para evitar que um novo julgamento seja realizado.
Caso condenada por homicídio em primeiro grau, Lindsay enfrenta a pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Se absolvida por motivos de insanidade, seu futuro provavelmente será uma instituição psiquiátrica de segurança máxima – por tempo indeterminado.
O que seria a “psicose pós-parto”?
As mortes trágicas dos filhos de Lindsay Clancy dividiram opiniões nos Estados Unidos. Alguns acreditam que a condenação é necessária e que uma eventual absolvição seria um exemplo claro de impunidade. Outros, especialmente mães que lutaram contra a depressão pós-parto, veem a situação sob lentes mais empáticas. A discussão chegou a ganhar conotação política.
De qualquer maneira, o caso reacende uma discussão frequentemente negligenciada: a saúde mental de mães. O nascimento de um filho pode estar associado a diversos transtornos mentais – estimativas apontam que até 85% das mulheres sofrem de algum tipo de distúrbio de humor, como tristeza ou estresse elevados, ainda que a maioria dos quadros seja transitória e desapareça espontaneamente. Mas há casos mais graves, que nem sempre recebem tratamento adequado.
A defesa de Lindsay diz que ela procurou atendimento de saúde diversas vezes, mas que seus sintomas foram ignorados e que ela foi diagnosticada, erroneamente, apenas com depressão pós-parto. Na verdade, seus advogados argumentam que ela teve psicose pós-parto (PPP) – uma condição ainda pouco compreendida pela comunidade médica.
A PPP é uma emergência e, na maioria dos casos, exige internação hospitalar para assistência e tratamento especializado. A condição surge de maneira súbita, geralmente nas primeiras duas semanas após o nascimento do bebê, e progride rapidamente.
Um dos primeiros sinais do transtorno ocorre quando a mãe não parece estar agindo normalmente ou perde a noção de realidade. Sintomas podem incluir insônia, depressão, desorientação, alucinações auditivas, visuais e olfativas, alterações de humor, delírios, agitação psicomotora, falta de apetite, irritabilidade e confusão.
Mesmo após anos de pesquisas, ainda não se sabe ao certo o que causa a PPP. Sabemos que, apesar de poder afetar mulheres sem uma doença mental preexistente, cerca de 50% dos casos apresentam histórico prévio de problemas psiquiátricos, e que a existência de casos na família é um fator de risco. A condição mais associada à PPP é o transtorno bipolar.
A literatura científica estima que entre 1 e 2 mulheres desenvolvam psicose pós-parto a cada 1000 nascimentos.
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