Milhões de células das mães ficam para sempre no corpo dos filhos. Entenda por quê.
Há mais de cinquenta anos, a ciência descobriu que, da maneira mais literal possível, todos nós somos um pouco nossas mães – e toda mãe tem um pouco de seus filhos. Das mais de trinta trilhões de células que compõem o corpo humano, uma a cada um milhão não pertencem a você: são figurinhas trocadas, células “microquiméricas” que, durante a gravidez, passam pelo sangue do corpo materno para o corpo do bebê, e do corpo do bebê para a mãe. Lá, continuam aos milhões, mesmo após o parto.
Esse fenômeno – o microquimerismo – leva o nome das quimeras, criaturas híbridas da mitologia grega que misturam partes de diferentes animais (cabeça de leão, cauda de serpente, corpo de cabra, e por aí vai). É uma mistura complexa cujas ramificações vão ainda mais fundo: ao passo que células fetais conseguem “voltar no tempo” para o corpo de suas mães, as células microquiméricas herdadas também podem vir de irmãos mais velhos ou gêmeos. Ou então traçar uma linha reta, direto do corpo de nossas avós maternas.
Células assim, estrangeiras ao próprio organismo, foram identificadas em todos os órgãos humanos já analisados, e sua permanência no corpo sempre foi um mistério para a imunologia. Para defender o corpo contra organismos invasores e doenças, o sistema imunológico ataca todas as células que vêm de fora – exceto as microquiméricas. Para essas células, ele faz vista grossa, e nunca se soube exatamente por quê.
Um novo estudo publicado na revista Immunity pode ter a resposta. Modificando células imunes em ratos, uma equipe de pesquisadores identificou um pequeno subconjunto de células maternas que serviam para manter em xeque o próprio sistema imunológico.
A base de tudo é uma técnica com a qual o grupo já havia trabalhado em estudos de 2015 e 2023, que consiste em cruzar e selecionar artificialmente os ratinhos até que certos marcadores apareçam na superfície de suas células imunes. Esses marcadores são importantes, e servem para que os pesquisadores, mais tarde, consigam remover especificamente essas células.
Após o nascimento, o corpo dos ratos manteve uma fração de células das suas mães, mas algumas delas se destacaram mais que as demais. Era uma porção pequena e persistente, associada à atividade imune do corpo e à produção dos linfócitos T reguladores, que controlam os excessos do nosso sistema imunológico e não permitem que ele ataque nosso próprio corpo.
Essas células maternas eram parecidas com as células mielóides e dendríticas produzidas pela medula óssea. Esses dois tipos são responsáveis, respectivamente, pela produção das células do sangue e pela defesa do organismo.
Daí vem o pulo do gato: os pesquisadores experimentaram jogar fora esse grupo de células nos filhotes das ratinhas. O resultado é que o organismo perdeu toda a tolerância às células microquiméricas, e elas desapareceram.
Os cientistas concluíram que a persistência dessas células estrangeiras do corpo provavelmente dependia de um processo contínuo, no qual um subtipo pequeno de células maternas treinava o sistema imunológico para não atacar todas as demais.
Ainda não se sabe ao certo que função as células microquiméricas têm no corpo humano, mas o interesse em estudá-las vai bem além da curiosidade: essa troca de células tem ligação com uma série de problemas de saúde, dentre eles câncer, doenças cardiovasculares, doenças autoimunes e transtornos neurológicos como a demência. Entender essas células e como cada uma influencia no funcionamento do nosso corpo é, também, entender os problemas que trazem.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
