Microplásticos presentes no ar podem estar agravando o aquecimento global. Entenda como
Os microplásticos já foram encontrados no fundo do oceano, no topo do Everest, na chuva, em placentas humanas, no sangue e até no cérebro. Agora, cientistas estão propondo mais um lugar onde essas partículas podem estar causando estragos: o próprio sistema climático da Terra.
Um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change concluiu que micro e nanoplásticos suspensos na atmosfera absorvem calor e contribuem para o aquecimento global.
Segundo os autores, esse efeito ainda é relativamente pequeno quando comparado ao impacto do dióxido de carbono (CO₂) ou da fuligem produzida pela queima de combustíveis fósseis. Mesmo assim, ele pode ser muito maior do que os cientistas imaginavam até agora.
Antes de entender o estudo, vale recapitular o que são esses materiais. Microplásticos são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros de comprimento. Já os nanoplásticos são ainda menores, medindo menos de 1 micrômetro – cerca de cem vezes mais finos que um fio de cabelo humano.
Eles surgem principalmente quando objetos plásticos se degradam lentamente no ambiente. Pneus, roupas sintéticas, embalagens, sacolas, garrafas e tintas liberam partículas minúsculas o tempo todo.
Boa parte desse material acaba sendo carregada pelo vento. Nas últimas décadas, cientistas descobriram que os microplásticos conseguem viajar milhares de quilômetros pela atmosfera. Eles já foram detectados em regiões remotas do Ártico, da Antártida e em áreas oceânicas distantes de centros urbanos.
Mas havia uma pergunta em aberto: essas partículas apenas “flutuam” no ar ou também alteram o clima? Foi isso que os pesquisadores tentaram responder.
Como o estudo foi feito?
Para descobrir como os plásticos interagem com a luz solar, a equipe realizou experimentos de laboratório com partículas de diferentes cores, tamanhos e composições químicas. Os cientistas trituraram produtos plásticos comuns e analisaram como eles absorviam ou refletiam luz em diferentes comprimentos de onda.
Logo de cara eles perceberam que a cor faz enorme diferença. Partículas brancas refletem mais luz e quase não absorvem calor. Já as escuras absorvem muito mais energia solar, com intensidade suficiente para aquecer o ar ao redor.
Como era de se esperar, os plásticos pretos apresentaram o efeito mais intenso. Em seguida vieram os amarelos, azuis e vermelhos.
Além da cor, o tamanho também importa. Os pesquisadores observaram que nanoplásticos (as partículas ultrapequenas) absorvem e espalham luz de forma muito mais eficiente que fragmentos maiores. Isso acontece porque partículas menores conseguem permanecer suspensas no ar por mais tempo e interagem de maneira diferente com a radiação solar.
Depois dos experimentos, os cientistas alimentaram modelos atmosféricos com os dados coletados em laboratório. Eles combinaram informações sobre absorção de luz, distribuição global de partículas e circulação atmosférica para estimar o impacto climático dos microplásticos.
O cálculo final indica que os microplásticos adicionam cerca de 0,039 watt de aquecimento por metro quadrado da Terra. Parece pouco, especialmente quando comparado ao efeito do CO₂, que hoje é estimado em mais de 2 watts por metro quadrado.
Mas o resultado chama atenção porque essas partículas praticamente nunca entram nos modelos climáticos usados para prever o futuro do planeta.
O estudo também identificou que em algumas regiões do planeta isso pode ser mais intenso. São elas as áreas oceânicas conhecidas pelo acúmulo de lixo plástico, como a Mancha de Lixo do Pacífico Norte. Nesses locais, o impacto dos microplásticos chegou a superar o da fuligem.
Isso acontece porque os oceanos funcionam como grandes reservatórios de plástico. Ondas, vento e radiação solar fragmentam continuamente o material, lançando partículas microscópicas de volta para a atmosfera.
Os pesquisadores também observaram concentrações elevadas sobre regiões densamente povoadas e industrializadas, como o Mediterrâneo, o leste da América do Norte e partes do leste asiático.
Outro ponto importante do estudo envolve o envelhecimento dos plásticos. Na atmosfera, essas partículas ficam expostas ao Sol, à umidade, ao ozônio e a outros compostos químicos. Isso altera suas propriedades ao longo do tempo.
Alguns plásticos brancos, por exemplo, amarelam com a exposição solar – algo parecido com o que acontece com capinhas de celular antigas ou papéis plastificados.
Os pesquisadores descobriram que essas mudanças não eliminam o efeito de aquecimento. Mesmo envelhecidas, as partículas continuam absorvendo luz de forma significativa.
Alguns impasses
Apesar dos resultados, os próprios autores destacam que ainda existem muitas incertezas.
A principal delas é que ninguém sabe exatamente quanto plástico existe na atmosfera. Hoje, a maior parte das medições é feita perto do solo, já que os pesquisadores estão focados principalmente nos possíveis impactos à saúde humana.
Mas, para entender o efeito no clima, é preciso saber como essas partículas se distribuem em toda a atmosfera, inclusive em grandes altitudes.
Os cientistas também reconhecem que os experimentos foram feitos em condições mais simples do que as encontradas no mundo real.
Na natureza, os plásticos passam por processos muito mais complexos, influenciados ao mesmo tempo por luz solar, umidade, sal marinho, poluição, vento e reações químicas.
Por isso, especialistas dizem que ainda será necessário acompanhar essas partículas por muito tempo antes de entender com precisão o tamanho do seu impacto climático.
“Precisamos de mais dez anos de estudos antes de podermos tirar conclusões suficientemente firmes”, afirmou ao Washington Post o climatologista Andreas Stohl, da Universidade de Viena, que não participou da pesquisa.
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