Masturbação entre pássaros é natural, inofensiva e não deve ser punida, dizem especialistas
Dos perus aos periquitos, a masturbação é uma prática comum e amplamente difundida entre os mais diversos tipos de ave. Ainda assim, esse tipo de comportamento nunca havia recebido a devida atenção de especialistas. Na verdade, por muito tempo o autoerotismo desses animais foi associado a condições negativas, como problemas de saúde ou o estresse do cativeiro.
Agora, um novo estudo confirma que a masturbação dos passarinhos é, pelo contrário, algo perfeitamente natural, que acontece com muito mais frequência entre aves selvagens do que no cativeiro. Reunindo dados de mais de cem espécies, o trabalho é a primeira grande pesquisa científica já feita sobre o tema.
Para cuidadores e, principalmente, para os próprios pássaros, a notícia deve ser fonte de muito alívio. Até então, mesmo dentro do meio veterinário, imperava o entendimento de que a masturbação das aves deveria ser desencorajada – muitas vezes punida. Não raro, pássaros domésticos pegos em atos de autoamor eram sujeitos à castração por via hormonal ou cirúrgica.
O estudo, feito por pesquisadores do Reino Unido, foi divulgado no periódico Ecology and Evolution no início desse mês de julho. Durante a pesquisa, os autores reuniram mais de 200 registros presentes na literatura científica e na internet documentando casos em que aves estavam possivelmente se masturbando.
No total, a prática foi verificada em 120 espécies diferentes de aves, como gansos, sabiás e codornas. Os pássaros que mais se masturbavam pertenciam à ordem dos Psittaciformes, que inclui papagaios, araras, calopsitas e também periquitos.
Além disso, a prática foi observada em machos e fêmeas, com machos compondo 55% dos registros. Já pelo recorte de idade, adultos e infantes tinham quase a mesma chance de se masturbar (100% e 96%, respectivamente). Espécies que costumam ter múltiplos parceiros sexuais também foram flagradas no ato com mais frequência.
“Nosso principal achado é que a masturbação não é uma resposta negativa ao cativeiro”, disse a pesquisadora Chloe Heys, da Universidade de Lancashire, ao britânico The Guardian. “Esse comportamento é disseminado entre as aves, e descobrimos que ele é perfeitamente natural e saudável, fazendo parte do repertório de comportamentos sexuais delas.”
O ato em si é, por assim dizer, um tanto inconfundível – e, segundo os pesquisadores, também um tanto deselegante. As aves são dotadas de um único orifício multiuso chamado cloaca, que serve tanto para a reprodução quanto para fazer as necessidades. A masturbação, então, tipicamente acontece por meio do atrito da cloaca com algum objeto.
É comum, por exemplo, ver aves, principalmente machos, “roçando de maneira um tanto vigorosa” em galhos, poleiros ou mesmo brinquedos, como descreve Heys. Esse esforço geralmente vem acompanhado do bater das asas e algumas vocalizações bem particulares, que os animais não costumam fazer em outros contextos.
“Eu tinha uma calopsita de estimação que se masturbava o tempo todo”, relata Heys, principal autora do estudo. “Se você já viu uma ave se masturbar, você sabe perfeitamente o que ela está fazendo.”
Mistério evolutivo
Na maioria dos animais, a masturbação é, como descreve o artigo, um “enigma darwiniano”. Isso porque, sob uma perspectiva evolutiva, esse tipo de comportamento sexual sem fins reprodutivos não faz muito sentido, já que desperdiça recursos valiosos, como tempo, energia e, no caso dos machos, o sêmen. O animal poderia muito bem investir os mesmos recursos na cópula com algum parceiro viável.
Ainda assim, a prática é comumente vista em uma variedade de animais, como camelos, porcos-espinho, golfinhos, jabutis, iguanas e muitos primatas (incluindo humanos, claro). Cientistas, então, procuram explicações evolutivas para a masturbação animal.
No caso das aves, segundo o estudo, esse comportamento pode estar ligado à competição pela fertilização, uma vez que a maior parte dos casos está concentrada em aves com múltiplos parceiros. Em machos, a masturbação seria uma forma de se livrar do sêmen velho para aumentar as chances de fecundar as fêmeas. Já para as fêmeas, o ato pode servir para aumentar o desejo sexual antes da cópula.
Por muito tempo, porém, acreditou-se que os pássaros não sentiriam o mesmo prazer sexual que os mamíferos, já que as cloacas têm supostamente muito menos nervos que outros órgãos sexuais. No entanto, como relatam os autores, as aves analisadas claramente tiravam alguma satisfação do ato.
A principal recomendação dos pesquisadores, afinal, é que esse tipo de comportamento não seja punido. “Em casos muito extremos, veterinários chegavam a administrar medicamentos ou terapias hormonais às aves para impedi-las de fazer isso”, disse Heys. “Houve até casos de cirurgias para eliminar completamente a sexualidade das aves, o que é maluquice.”
“Os veterinários não deveriam aconselhar os tutores a impedir que as aves façam isso, a menos que o comportamento esteja claramente causando um problema crônico, como um prolapso, mas isso representa uma minoria absoluta dos casos”, completa.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
