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Curiosidades

Marmotas podem ter causado primeiro surto de peste há 5,5 mil anos, revela estudo

Há cerca de 5.500 anos, às margens do Lago Baikal, na Sibéria, pequenos grupos de caçadores-coletores sobreviviam em meio às florestas geladas do norte da Ásia. Eles pescavam, caçavam animais como alces, cervos e focas, e também consumiam marmotas, grandes roedores comuns na região.

Mas algo começou a matar aquelas comunidades. Durante décadas, arqueólogos que estudavam cemitérios pré-históricos da região tentavam explicar por que tantas crianças e adolescentes haviam morrido em um intervalo tão curto de tempo. Algumas foram enterradas juntas, lado a lado, como parentes próximos.

Agora, cientistas descobriram o provável culpado: a peste. Um estudo publicado na revista Nature identificou os casos mais antigos já conhecidos da doença, cerca de 200 anos antes do que se imaginava até então. 

Ao analisar restos mortais encontrados em quatro cemitérios próximos ao Lago Baikal, pesquisadores encontraram vestígios da bactéria Yersinia pestis, responsável pela peste, nos dentes de 18 dos 46 indivíduos estudados.

A descoberta mostra que esse microrganismo já era capaz de provocar surtos mortais muito antes do surgimento das grandes cidades e das famosas epidemias medievais.

“As descobertas mudam fundamentalmente a forma como pensamos sobre as origens e o impacto inicial de um dos patógenos mais importantes para a humanidade”, disse à Reuters Eske Willerslev, geneticista evolucionista da Universidade de Copenhague e da Universidade de Cambridge e um dos autores do estudo.

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Muito antes da Peste Negra

Quando falamos em peste, a imagem mais comum é a da Peste Negra, a epidemia que devastou a Europa no século 14 e matou dezenas de milhões de pessoas. Naquela época, a doença se espalhava principalmente pela picada de pulgas infectadas que viviam em ratos.

Mas a história da peste é muito mais antiga. A Yersinia pestis é uma bactéria zoonótica, ou seja, um microrganismo que circula naturalmente em animais, mas pode “pular” para os seres humanos. Hoje, ela é rara e pode ser tratada com antibióticos quando diagnosticada a tempo. No passado, porém, provocou algumas das maiores crises sanitárias já registradas.

Além da Peste Negra, a bactéria esteve por trás da Peste de Justiniano, no século 6, que atingiu o Império Bizantino e matou uma grande parcela da população.

Por muito tempo, pesquisadores acreditavam que grandes surtos da doença só tinham surgido depois que os humanos começaram a praticar agricultura e viver em assentamentos maiores – uma vez que mais pessoas reunidas no mesmo lugar significavam mais oportunidades para um patógeno se espalhar.

As primeiras versões da bactéria também eram vistas como possivelmente menos perigosas, porque ainda não tinham algumas adaptações presentes nas cepas posteriores.

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O novo estudo muda essa interpretação. “O fato de as primeiras formas de peste serem leves ou virulentas tem sido motivo de debate, mas nossas descobertas demonstram que essas cepas antigas já eram altamente letais”, afirmou Willerslev em comunicado.

O que aconteceu na Sibéria?

Para investigar as mortes no Lago Baikal, os cientistas recorreram ao DNA antigo. Com técnicas modernas de sequenciamento genético, é possível recuperar fragmentos de material genético preservados por milhares de anos em ossos e dentes.

Os dentes são especialmente úteis porque podem guardar sinais de microrganismos que estavam circulando no sangue de uma pessoa no momento da morte.

Foi assim que os pesquisadores encontraram o DNA da Yersinia pestis em 18 caçadores-coletores enterrados na região. A datação dos ossos indicou dois períodos de surto: o mais antigo aconteceu entre 5.596 e 5.341 anos atrás; outro ocorreu entre 5.126 e 4.926 anos atrás.

A quantidade de infectados chamou a atenção. Cerca de 40% das pessoas analisadas tinham sinais da bactéria. Segundo os pesquisadores, essa proporção é maior do que a observada em algumas valas comuns da Idade Média associadas à peste.

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Entre as vítimas estavam várias crianças, algumas com idades entre 8 e 11 anos. Três meninas foram encontradas enterradas juntas, sendo que duas provavelmente eram primas. Outro túmulo reunia uma tia e um sobrinho.

A análise genética indicou que muitos parentes próximos morreram mais ou menos ao mesmo tempo.

Os pesquisadores também reconstruíram os genomas das bactérias encontradas nos corpos. Isso permitiu comparar aquela peste pré-histórica com as versões responsáveis por epidemias posteriores.

Eles descobriram que as cepas antigas representavam uma espécie de fase intermediária na evolução da bactéria. Elas já conseguiam provocar infecções graves, mas ainda não tinham todas as características das versões que surgiriam depois.

Por exemplo: essa versão antiga ainda não tinha um gene que permitiu, mais tarde, que a peste fosse transmitida de forma eficiente por pulgas. Também não causava os inchaços dolorosos nos gânglios linfáticos característicos da peste bubônica medieval.

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Por outro lado, ela carregava uma característica genética associada à produção de uma toxina capaz de provocar reações exageradas do sistema imunológico – e que desapareceu nas cepas posteriores.

Assim, a defesa do próprio corpo podia entrar em estado de alerta extremo e causar inflamações graves. Segundo os pesquisadores, isso talvez explique por que tantas crianças morreram.

“Essa suscetibilidade é maior em crianças de 8 a 12 anos e representa um padrão de mortalidade completamente diferente do que observamos em outros sítios de caçadores-coletores do Baikal, onde a peste não é detectada”, afirmou Ruairidh Macleod, pesquisador de DNA antigo da Universidade de Oxford e um dos autores do estudo, à Reuters.

Como a peste chegou até eles?

A principal suspeita dos cientistas são as marmotas. Esses roedores ainda hoje podem carregar a bactéria da peste, e evidências arqueológicas indicam que os caçadores-coletores da região tinham contato frequente com esses animais. 

Além de servirem como alimento, dentes de marmotas já foram encontrados como pingentes em sepultamentos antigos. “Algumas pessoas podem ter entrado em contato com uma marmota infectada, provavelmente ao manuseá-la ou ao comer carne mal cozida”, disse Macleod.

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Depois dessa primeira transmissão dos animais para humanos, os cientistas acreditam que a doença pode ter passado de pessoa para pessoa, possivelmente pela tosse e pelos espirros. Nesse caso, a forma mais provável seria a peste pneumônica, que atinge os pulmões.

O surto parece ter atingido famílias inteiras e provocado mortes em sequência. Mesmo assim, algumas pessoas sobreviveram.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.