IMAX: a história, a economia e a tecnologia por trás das telas
Texto: Ana Clara Barreiro | Edição: Bela Lobato e Rafael Battaglia | Arte: Caroline Aranha
A
década de 1940 foi o auge da Era de Ouro de Hollywood. Nos EUA, as salas de cinema eram tão grandiosas que eram chamadas de “palácios”. Mas, na década seguinte, com a popularização da TV, o mercado entrou em crise.
Para muita gente, não fazia mais sentido sair do sofá para ver um filme. Com as bilheterias em queda, Hollywood buscou soluções para tornar única a experiência de ir ao cinema.
A principal ideia era ampliar a área de imagem exibida, com telas mais panorâmicas e imersivas (na época, tanto o cinema quanto a TV usavam o padrão 4:3 – quatro unidades de largura para três unidades de altura, também chamado de 1,33:1). Só que, para isso, era preciso mudar a própria forma de fazer cinema.
Na época, os filmes eram analógicos, gravados em película. A mais utilizada era a do padrão 4 perf. Cada quadro do rolo de filme tinha 35 mm de largura e quatro perfurações (daí o nome). As perfurações são os buraquinhos na borda da película. As câmeras e os projetores engancham nesses buracos e fazem o filme rodar no sentido vertical (de cima para baixo ou de baixo para cima).
Com o 4 perf, os cineastas conseguiam captar em proporção 1,33:1. Para aumentar essa proporção, a película passou por diversas alterações. Em 1954, a Paramount criou o VistaVision (1,50:1), que virou a película de 35 mm do sentido vertical para o horizontal (de um lado para o outro), aumentando a imagem. No ano seguinte, o produtor Mike Todd inovou com o Todd-AO (2,20:1), cuja película tinha 65 mm, mais larga.
Nada disso podia ser reproduzido nas TVs, e as telas de cinema foram mudando para abrigar novos formatos.
As experimentações continuaram. Em 1967, numa feira no Canadá, Graeme Ferguson exibiu um documentário em 11 telas. Já Roman Kroitor apresentou um filme em cinco telas simultâneas, em forma de cruz.
Só que o multitelas não era nada funcional. Ferguson e Kroitor perceberam que, para alcançar o efeito que queriam, a melhor saída era uma única tela gigante. Assim surgiu a Multiscreen – que hoje você conhece por IMAX (que dá nome ao formato e à empresa responsável por ele, a IMAX Corporation).
A proposta era virar a película de 65 mm na horizontal. Com isso, o modelo alcançou uma proporção de 1,43:1. A definição é equivalente a 18K, dez vezes maior que um filme em 35 mm e três vezes maior que os filmes em 65 mm filmados com a película correndo no sentido vertical.
Um dos principais trunfos do IMAX é que, dadas as suas dimensões, cenas gravadas em um plano aberto (quando o enquadramento mostra muito do cenário) se assemelham à visão do olho humano. “Esse fator resulta em imagens mais similares à realidade e mais imersivas, mesmo inconscientemente”, diz o pesquisador e cineasta Pablo Savalla em seu livro O Poder Esmagador do Cinema, que conta a história do IMAX.
Até hoje, o IMAX oferece uma das melhores qualidades de som e imagem disponíveis no mercado. Porém, seu desempenho é proporcional à dificuldade de manuseio: utilizar uma película tão grande implica uma câmera maior, mais pesada e cara.
Cada rolo de película IMAX dura apenas 3 minutos, enquanto câmeras de 35 mm rodam mais de 10 minutos com o mesmo rolo. Além da trabalheira de trocar o filme toda hora, dá-lhe gastos em material (hoje, estima-se que 1 minuto filmado em película IMAX pode custar US$ 2 mil).
Além do preço salgado, outro empecilho histórico das câmeras IMAX é o barulho: elas fazem um ruído estridente para puxar a película enorme. Muitas câmeras analógicas são barulhentas, de fato – mas a maioria utiliza blimps, caixas de isolamento acústico que anulam o som. Até pouco tempo atrás, não havia nenhum blimp para o IMAX.
Por isso, durante quase toda a existência do IMAX foi inviável gravar imagem e som ao mesmo tempo. O formato era reservado a produções que não necessariamente exigiam a captação conjunta, como documentários de natureza.
Ganhando terreno
Nos anos 1970 e 1980, sem apelo comercial em Hollywood, o IMAX encontrou espaço dentro de museus e instituições culturais, com novas salas construídas sob medida nos EUA e no Canadá.
Como filmes gravados em IMAX têm uma proporção maior, exibi-los em salas convencionais significa perder boa parte da área extra de imagem obtida pela película. Enquanto uma sala normal tem 20 m de largura e 12 m de altura, as salas IMAX têm, pelo menos, 22 m de largura e 16 m de altura. Algumas são ainda maiores, passando dos 35 m de largura [veja o infográfico abaixo].
A IMAX Corporation monitora todas as salas IMAX, que devem atender a critérios rígidos de qualidade. As telas são levemente curvadas, para ampliar a imersão. A empresa tem um sistema de som próprio, além de um projetor específico para rodar uma película de 70 mm (na pós-produção, a película de 65 mm ganha 5 mm para a adição da trilha de som).
1% das salas de cinema do mundo são IMAX.
A chegada do cinema digital na década de 1990 mudou a lógica do mercado. A nova tecnologia permitia câmeras mais leves, de alta qualidade, sem barulho e que logo se tornaram opções mais baratas. A indústria estava prestes a aposentar as películas, e o IMAX precisava se adaptar.
Sob o controle de novos investidores, a empresa chavecou estúdios de Hollywood para que eles filmassem blockbusters em IMAX. Mas era difícil convencê-los devido ao alto custo da tecnologia e à escassez de salas aptas para exibir o formato.
O jeito, então, foi investir em adaptações para formatos digitais. Foi assim que, em 2002, surgiu o IMAX DMR (sigla em inglês para “Remasterização de Mídia Digital”), que permite transformar em formato IMAX 70 mm qualquer filme, seja ele gravado em digital ou em película 35 mm.
Assim como o streaming hoje, a criação da TV motivou novos formatos nas telas de cinema para atrair gente.
Com o DMR, a empresa finalmente começou a expandir. A exibição de filmes de sucesso, como Apollo 13, Star Wars, Matrix e Harry Potter em IMAX estimulou a abertura de novas salas no formato. Em setembro de 2007, já havia 296 salas IMAX funcionando em 40 países.
No meu tempo que era bom…
Nem todo mundo curtiu a transição para o digital. Diretores como Steven Spielberg, Quentin Tarantino, Christopher Nolan e Paul Thomas Anderson são alguns dos que nunca abandonaram a película.
O aparente saudosismo tem justificativas técnicas. A imagem digital é composta por pixels, pequenos quadrados que ficam sempre no mesmo lugar (o que muda é a cor da luz que será emitida por eles). Já a estrutura-base da película são grãos de prata, que registram a imagem a partir de uma reação química no contato com a luz. São milhões de grãos de diferentes tamanhos, espalhados aleatoriamente em cada quadro.

O grão confere à filmagem uma estética mais orgânica em comparação com a exatidão do digital – o que, para muitos artistas, é um trunfo. “A película tem uma coloração, uma forma de retratar as coisas totalmente diferente. Há um purismo, uma questão de precisão de movimento e textura. De fato, é uma questão cultural, mas ter uma imagem com grão é uma preciosidade que todo mundo adora”, diz Luiz Gonzaga De Luca, ex-presidente da rede de cinemas Cinépolis no Brasil.
Mas essa preferência não é regra. Muitos cineastas optam pelo digital pela facilidade de manuseio e custo. “Eu concordo com a superioridade de filmar em películas a partir de 70 mm. Mas, além disso, acho que filmar em película é um pouco de saudosismo, de não se render à tecnologia”, diz Marcelo Lima, consultor da indústria do cinema e fundador da Expocine, uma das principais convenções do setor na América Latina. “Um filme feito com um bom fotógrafo e time de produção é o que importa. […] A realidade é que a gente precisa contar histórias a um custo razoável para que o mercado funcione.”

Nessa discussão, também é preciso considerar que os projetores digitais trouxeram uma série de benefícios, tanto ambientais (sem a necessidade de transportar toneladas de filmes para os exibidores) quanto para os próprios funcionários do cinema. Entre as décadas de 1970 e 1980, os projetores de película no Brasil causavam acidentes de trabalho por ainda utilizarem bastões de carvão (que, ligados a uma fonte de energia, geravam um arco elétrico bastante luminoso que servia para projetar o filme). Depois, isso foi substituído por lâmpadas, que diminuíram os acidentes mas ainda eram difíceis de operar.
Christopher Nolan, ávido defensor do cinema analógico tradicional, adotou o IMAX como o seu xodó. Ainda em 2008, gravou 28 minutos de Batman: O Cavaleiro das Trevas em câmeras IMAX, para a Warner Bros. Foi um dos primeiros blockbusters filmados no formato, e não somente remasterizado. Isso deu ainda mais visibilidade para a empresa.
Nolan influenciou outros diretores a usar IMAX e, desde então, adotou a tecnologia em boa parte de seus filmes (sobretudo em cenas de ação, com pouco ou nenhum diálogo). O uso do grande formato vem, também, para atrair o público de volta aos cinemas, assim como ocorreu na década de 1950 – só que, de lá para cá, a TV se tornou um concorrente ainda mais forte com os streamings. A aposta do IMAX é que o tamanho da tela e a imersão vão fazer os espectadores escolherem suas salas.
Defensor das salas de cinema, Nolan rompeu o contrato com a Warner após a decisão da empresa de fazer estreias simultâneas na telona e no streaming em 2021. Ele migrou para a Universal e filmou 70% de Oppenheimer (2023) em IMAX.
Para executar o plano de filmar A Odisseia 100% em IMAX (algo que, até então, jamais tinha sido feito com um longa–metragem), era preciso solucionar a questão do som. A IMAX, em parceria com Nolan, desenvolveu a câmera Keighley, mais leve e 30% mais silenciosa. Mas não era o suficiente para gravar cenas com áudio. Então, criaram um blimp – a caixa de isolamento que eliminava de uma vez por todas o barulho.
E agora, Odisseu?
Em julho, A Odisseia estreou com quase três horas de duração. Em setembro, a bilheteria do filme ultrapassou US$ 1 bilhão. Mas a maior parte das pessoas não viu o filme da forma que Nolan planejou.
1967 é o ano de criação do IMAX, no Canadá.
A experiência do grande formato depende da sala de exibição, e há apenas 41 salas IMAX no mundo com projetores analógicos de 70 mm, atingindo a proporção 1,43:1 e com 18K de resolução. As demais salas IMAX no mundo têm projetores digitais, com uma proporção de 1,90:1, cortando uma parte do enquadramento original do filme. No Brasil, todas as 12 salas IMAX são digitais.
Ver o filme em película IMAX é uma experiência para poucos – e para os que podem pagar. Um ingresso para ver A Odisseia em Los Angeles custa US$ 30, cerca de R$ 150. Numa sala IMAX digital de São Paulo, assistir ao filme em um sábado gira em torno de R$ 90.
“Fazer um filme em IMAX custa muito caro. Ter salas IMAX, também. Alguém tem que pagar a conta de algum modo e, por isso, o ingresso é mais caro”, diz Lima.
Os especialistas acreditam que, após A Odisseia, a demanda do público por telas maiores deve aumentar. Mas isso não significa que novas salas irão abrir no Brasil da noite para o dia.
O custo de abrir uma sala IMAX é ainda mais elevado por aqui e em outros países da América Latina devido ao valor do dólar. Além disso, uma sala IMAX é como uma espécie de franquia. O exibidor deve seguir uma série de regras, como a definição da programação da sala (feita pela própria IMAX) e o repasse de parte do valor arrecadado para a empresa.

“O IMAX é um bom atrator de público, mas, do ponto de vista de retorno econômico, é arriscado”, diz Lima. “Todas as soluções de IMAX no Brasil tiveram algum subsídio, seja uma parceria com o próprio shop--ping ou algum patrocinador. Abrir uma sala IMAX hoje é uma conta que não se fecha. Lógico, A Odisseia fez a coisa crescer, mas a realidade é que o custo de implantação não cobre o resultado.”
A alta na bilheteria mundial é reflexo de ingressos caros. Há menos gente indo aos cinemas hoje do que antes da Covid.
Além disso, há uma questão estrutural. A maioria dos cinemas no Brasil fica dentro de shopping centers, que não costumam ter pé-direito suficiente para uma sala IMAX.
Nos últimos anos, os cinemas brasileiros têm investido em tecnologias próprias de telas grandes, conhecidas como PLF (Premium Large Formats). Elas costumam ser mais baratas que o IMAX e dão ao exibidor mais autonomia sobre o lucro e exibição das salas.
Hoje, existem mais de 1.800 salas IMAX em 89 países. Em 2026, a empresa prevê faturamento de US$ 1,4 bilhão. Desde 2018, a sua fatia no mercado cresceu 50%.
As salas IMAX representam 1% do total mundial. Há poucas câmeras certificadas pela empresa operando, a película é cara e nem todo diretor terá a chance de trabalhar com o formato. “Os estúdios jamais entregariam os altos custos de fazer um filme inteiro em 70 mm IMAX para qualquer um”, diz Lima.
Apesar das limitações técnicas, o fato é que o IMAX e outros formatos premium têm ajudado a equilibrar as contas da indústria no pós-pandemia. No verão deste ano, a bilheteria dos EUA e do Canadá foi de US$ 4,7 bilhões, 26% a mais que no verão de 2025.
O problema é que o crescimento da bilheteria tem a ver com ingressos mais caros, e não com um público maior. Entre janeiro e agosto deste ano, EUA e Canadá venderam 568,4 milhões de ingressos, 30% a menos que no mesmo período de 2019.
A qualidade do IMAX e o apreço de cineastas como Nolan pela sala de cinema precisam ser celebrados, é claro. Mas até que ponto é sustentável depender de um público cada vez menor? Será que ingressos mais caros são a melhor alternativa para fazer as pessoas voltarem às telonas? Hollywood precisa tomar cuidado para não criar uma armadilha da qual nem mesmo Odisseu seria capaz de escapar.
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