Fumar realmente provoca gangrena? Como?
Sim. Isso acontece de algumas formas.
O corpo humano é feito de tecidos vivos feitos de células igualmente vivas que, a todo momento, dependem de oxigênio e nutrientes para continuarem funcionando. Os nutrientes são absorvidos durante o processo de digestão, enquanto o oxigênio vêm dos pulmões. Mas quem se encarrega de distribuir esses componentes por todos os cantos do corpo é, justamente, o sangue.
A gangrena acontece quando os tecidos deixam de receber sangue e apodrecem. Na maioria dos casos, a gangrena tende a afetar mais as extremidades do corpo, como os dedos dos pés e das mãos, onde o sangue chega com mais dificuldade. Mas, caso não seja tratada, ela também pode se espalhar pelo restante do corpo.
As complicações dessa condição podem ser graves. Quando entram em necrose, os tecidos ficam muito mais suscetíveis a infecções bacterianas, que, por sua vez, podem cair na corrente sanguínea, levando ao choque séptico. É comum que pacientes com gangrena tenham que amputar os membros afetados para impedir o avanço da infecção.
O cigarro contribui para esse processo. A fumaça do tabaco injeta no sangue substâncias nocivas como a nicotina, o monóxido de carbono e o alcatrão, que podem danificar os vasos sanguíneos de várias maneiras.
Primeiro, apertando os vasos sanguíneos: os químicos irritam as células das paredes das artérias e reduzem a produção de óxido nítrico, uma molécula essencial para a dilatação dos vasos. Somado a isso, as células também reagem contra as substâncias nocivas por meio de uma resposta inflamatória, o que deixa a passagem do sangue arterial (o tipo rico em nutrientes e oxigênio, que de fato alimenta os tecidos) ainda mais estreita.
O cigarro também contribui para o desenvolvimento da aterosclerose, uma doença vascular crônica que causa acúmulo de placas de gordura, colesterol e cálcio nas paredes das artérias – o que restringe o fluxo de sangue.
Além disso, o monóxido de carbono liberado pelo tabaco reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio. Dentro do sangue, as células especializadas responsáveis pelo transporte do oxigênio são as hemácias (também conhecidas como glóbulos vermelhos). Nessas células, existe uma proteína chamada hemoglobina, que se une ao oxigênio no pulmão e o leva até outras regiões do corpo.
O problema é que a hemoglobina se une com uma afinidade muito maior ao monóxido de carbono, formando a carboxiemoglobina (COHb). Essa união pode diminuir consideravelmente a capacidade do sangue de transportar oxigênio, além de dificultar a absorção do oxigênio que de fato chega nos tecidos. Sem oxigenação, as células morrem.
Para além da gangrena, fumar é um hábito notoriamente associado a todo tipo de problema cardiovascular. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é a causa determinante de 10% de todas as doenças cardiovasculares no mundo. E os riscos aumentam conforme a exposição. A título de exemplo, estudos passados mostraram que ex-fumantes diagnosticados com a doença arterial periférica (DAP), uma das condições que leva à gangrena, tinham uma chance muito menor de morrerem ou de serem amputados do que aqueles que continuavam fumando.
Fontes: artigos understanding gangrene in the context of peripheral vascular disease: prevalence, etiology, and considerations for amputation-level determination, smoking and the pathophysiology of peripheral artery disease e carbon monoxide toxicity
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