Fósseis de 773 mil anos descobertos no Marrocos podem preencher lacuna na evolução humana
Um conjunto raro de fósseis humanos descoberto na região de Casablanca, no Marrocos, está ajudando a preencher uma das maiores lacunas do registro da evolução humana.
Datados em cerca de 773 mil anos, os restos pertencem a hominídeos que viveram num momento decisivo da história evolutiva, quando as linhagens que mais tarde dariam origem aos humanos modernos, aos neandertais e aos denisovanos estavam começando a a se diferenciar.
A descoberta foi descrita em um estudo publicado na revista Nature, liderado pelo antropólogo Jean-Jacques Hublin, do Collège de France e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.
Os fósseis vieram da Grotte à Hominidés, uma caverna localizada no sítio arqueológico de Thomas Quarry I, nos arredores de Casablanca. O local está sendo escavado de forma contínua por equipes franco-marroquinas nas últimas três décadas.
O período entre 1 milhão e 600 mil anos atrás é um dos menos documentados no registro fóssil africano. Trata-se justamente do intervalo em que, segundo evidências genéticas, a linhagem africana que levaria ao Homo sapiens começou a se separar das populações ancestrais dos neandertais e dos denisovanos.
A ausência de fósseis bem datados desse intervalo sempre dificultou a reconstrução desse processo. Por isso, a idade e o contexto dos restos marroquinos são considerados especialmente relevantes.
O conjunto de fósseis inclui uma mandíbula adulta quase completa, metade de outra mandíbula adulta, a mandíbula de uma criança com cerca de um ano e meio, dentes isolados, vértebras e um fêmur.

As análises indicam que a caverna funcionava principalmente como uma toca de grandes carnívoros.
O fêmur apresenta marcas claras de mordidas, provavelmente deixadas por uma hiena após a morte do indivíduo. Isso sugere que os hominídeos usavam o local de forma ocasional e que, apesar de capazes de caçar, também podiam ser vítimas dos predadores que dominavam a paisagem.
Na época em que esses indivíduos viveram, o litoral atlântico do atual Marrocos era marcado por dunas, sistemas de cavernas costeiras, áreas alagadas e pântanos, moldados por oscilações repetidas do nível do mar. Era um ambiente rico em recursos, frequentado por grandes herbívoros e carnívoros, como felinos, hienas, crocodilos e hipopótamos, oferecendo oportunidades, mas também riscos, para os grupos humanos.
Datação precisa
Um dos pontos centrais do estudo é a precisão da datação dos fósseis. Estabelecer a idade de restos humanos tão antigos costuma ser difícil, mas a caverna preservou um registro geológico excepcional. A chave está no campo magnético da Terra, que ao longo de sua história já inverteu várias vezes sua polaridade. Isso significa que, em determinados momentos, o polo norte magnético passou a apontar para o sul e vice-versa.
Essas inversões ocorrem em escala global e deixam marcas nos sedimentos. Quando partículas minerais se depositam no solo, elas se alinham à direção do campo magnético existente naquele momento, como pequenas bússolas naturais.
Se o campo muda, esse alinhamento também muda, criando um registro cronológico comparável a um “código de barras” geológico. Uma dessas inversões, chamada transição Matuyama–Brunhes, ocorreu há cerca de 773 mil anos e é um dos marcos mais bem estabelecidos da história recente do planeta.
Por meio de magnetoestratigrafia de alta resolução, os pesquisadores analisaram 180 amostras de sedimentos da caverna e identificaram com clareza o nível em que essa inversão ocorreu. Os fósseis humanos estavam exatamente em sedimentos depositados durante essa transição, o que permitiu fixar sua idade com uma margem de erro de cerca de quatro mil anos, algo raro para fósseis africanos desse período.
“Eu seria cauteloso em classificá-los como ‘o último ancestral comum’”, disse Hublin à Reuters, “mas eles são plausivelmente próximos das populações das quais emergiram as linhagens africanas posteriores e as eurasiáticas”.
Ao New York Times, ele acrescentou: “A evolução humana é, em grande parte, uma história de extinções. É difícil dizer se essa população deixou descendentes, mas ela oferece uma boa ideia de como pode ter sido o último ancestral comum.”
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