DNA de múmias incas revela o mais antigo genoma da varíola das Américas
Cientistas descobriram a primeira evidência genética direta de que a colonização europeia trouxe a varíola para as Américas: múmias encontradas no Chile guardam os genomas mais antigos do vírus já identificados no continente.
As amostras vieram do sítio arqueológico Camarones 9, no norte do Chile. Os genomas sugerem que as duas múmias, que viveram em algum momento entre os anos de 1492 e 1631, foram infectadas durante o mesmo surto ou pela mesma cepa que circulava na região na época. Os achados foram descritos em artigo publicado na revista Science.
A varíola foi uma das doenças mais letais da história. O vírus foi erradicado em 1980, mas não antes de tomar as vidas de mais de 300 milhões de pessoas apenas no século 20. Globalmente, é a única doença humana até hoje a ser considerada totalmente erradicada, graças a campanhas globais de vacinação em massa.
A historiografia já sabia que as doenças do Velho Mundo foram uma das principais causadoras da alta mortalidade entre os habitantes indígenas das Américas. Sem resistência imunológica, milhões de nativos pereceram por causa de bactérias e vírus trazidos com os colonizadores – principalmente a varíola, um vírus com alta mortalidade. Estima-se que, entre 1492 e 1600, algo entre 80% e 90% das populações originárias das Américas tenha morrido, seja por causa de doenças, violência, guerras ou outras causas ligadas à chegada dos europeus.
Grande parte desse conhecimento, porém, vem de registros históricos feitos pelos colonizadores, que podem ser incompletos. A linha do tempo do espalhamento da doença na região, por exemplo, contém buracos. Sabe-se que os primeiros casos ocorreram no Caribe, em 1518; a doença logo chegou no México, na década de 1520, onde ajudou a derrubar o Império Asteca e devastou as cidades-Estados maias, facilitando a conquista dos colonizadores. Nessa mesma época, o vírus se espalhou da América Central para o sul, causando grandes epidemias no Império Inca a partir de 1525.
Não se sabe exatamente, porém, como a doença chegou em países como Chile, Argentina e Brasil. Nesses casos, estudos arqueológicos com restos mortais de pessoas que viveram na época podem ajudar a entender essa história melhor. Foi o que aconteceu no novo estudo.
Caminho até a varíola
Curiosamente, os pesquisadores encontraram os genomas por acaso. “O plano original não buscava identificar patógenos”, diz Constanza de la Fuente Castro, antropóloga da Universidade do Chile e uma das autoras do estudo. Ela e seus colegas, na verdade, haviam coletado amostras desses restos mortais para estudar a ancestralidade e a história populacional das pessoas que viveram no norte do Chile.
A mudança de curso veio com Bruno Romero González, doutorando no Trinity College Dublin, na Irlanda. O geneticista sugeriu a triagem das amostras em busca de vestígios de doenças infecciosas antigas – com a ajuda de um software específico responsável por analisar DNA e assinaturas genéticas de bactérias e vírus antigos.
As múmias em que os genomas virais foram encontrados são de uma mulher adulta e de um homem jovem. Eles viveram numa região que era dominada pelo Império Inca. Seus corpos foram mumificados naturalmente, pelas condições secas e frias do ambiente. Os DNAs dos vírus são quase idênticos, sugerindo que as vítimas morreram por causa do mesmo surto.
Com a descoberta, o estudo reinterpreta uma característica dessas múmias. Pequenas lesões cutâneas encontradas nos seus troncos, até então, atribuídas à exposição crônica ao arsênio. Agora, os cientistas acreditam que elas podem ser, na verdade, as pústulas características da varíola, que costumam deixar cicatrizes na pele das vítimas.
Os genomas também acrescentam um capítulo até então desconhecido à árvore evolutiva da varíola: eles preservaram um estágio intermediário na especialização do vírus em relação aos humanos. A linhagem, hoje extinta, surgiu a partiir de cepas europeias medievais, mas é anterior às evoluções do vírus que deram origem à varíola moderna, responsável pelas epidemias do século 20 por exemplo.
As mutações do vírus são uma das características analisadas pela nova pesquisa. Ele parece ter acumulado mutações a um ritmo constante durante séculos, antes de entrar em um período de aproximadamente 200 anos no qual seu genoma quase não sofreu alterações. Essa fase de estabilidade coincidiu com o auge da expansão colonial europeia, quando populações cada vez mais conectadas e epidemias recorrentes podem ter favorecido a varíola, que já tinha se adaptado aos humanos.
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