Acinetobacter: a superbactéria encontrada em Porto Alegre é uma das mais perigosas do mundo?
Durante uma análise de rotina, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) perceberam que parte das amostras de água coletadas em Porto Alegre estava contaminado por bactérias.
Mas não se tratava de qualquer bactéria: era a superbactéria Acinetobacter baumannii, conhecida na linguagem das ruas simplesmente como Acinetobacter. Ela faz parte da lista de patógenos prioritários da Organização Mundial da Saúde (OMS), que reúne microorganismos considerados ameaças críticas à saúde humana.
Encontrada naturalmente no solo e na água, a Acinetobacter baumannii se tornou especialmente conhecida pelas infecções em serviços de saúde, pois se espalha com facilidade em ambientes de saúde. Estima-se que 80% das infecções hospitalares sejam causadas por essa superbactéria.
A A. baumannii é classificada como uma superbactéria por causa de sua alta resistência a antibióticos. Muitas cepas são imunes à maioria dos medicamentos disponíveis, inclusive alguns dos mais potentes, o que torna o tratamento das infecções muito mais difícil. Essa resistência costuma surgir por mutações genéticas.
Além disso, a Acinetobacter baumannii é uma bactéria gram-negativa, ou seja, possui uma membrana externa adicional que aumenta ainda mais sua resistência.
Das 17 amostras de água analisadas pelos pesquisadores, a bactéria foi identificada em quatro. Elas foram coletadas na Praia do Lami, na Praia de Ipanema e em dois pontos do lago Guaíba, um próximo à foz do Arroio Dilúvio e outro perto da Estação de Bombeamento de Água Pluvial (EBAP) Menino Deus.
Os cientistas isolaram as bactérias para estudá-las e testar sua resistência a antibióticos. Todas as amostras apresentaram resistência, mas a coletada próxima à estação de bombeamento chamou ainda mais atenção: ela foi imune a todos os 14 antibióticos testados. O nome científico para isso é multirresistência.
Mas não é preciso entrar em desespero. Isso não quer dizer que a água que chega às torneiras de Porto Alegre esteja contaminada. As amostras analisadas foram coletadas diretamente no ambiente e não passaram por tratamento.
Na verdade, a Acinetobacter baumannii já está disseminada no meio ambiente, e o contato com ela pode ocorrer naturalmente ao longo da vida. Na maioria das vezes, o organismo de pessoas saudáveis consegue combatê-la sem complicações.
O problema, contudo, começa quando essas bactérias entram nos hospitais. Elas conseguem sobreviver por longos períodos em superfícies secas (em alguns casos, por até um mês) e se proliferar em ventiladores mecânicos e outros equipamentos médicos. Assim, elas atingem os pacientes hospitalizados, que já estão com a saúde fragilizada e vulneráveis. Nesses casos, a bactéria gera complicações graves, como pneumonia e infecções generalizadas. A taxa de mortalidade pode chegar a 70%.
A transmissão também pode ocorrer por falhas na higienização de equipamentos e das mãos dos profissionais de saúde. Justamente por sua resistência e facilidade de disseminação, a presença dessa bactéria em hospitais é um problema mundial.
Apesar do alerta, não se trata de um perigo iminente para a população em geral. Estar na lista de prioridades da OMS não significa que a Acinetobacter baumannii seja “a bactéria mais perigosa do mundo”, mas sim que ela exige atenção especial da ciência e das políticas de saúde pública. O achado dos pesquisadores da UFRGS indica um possível perigo específico para os hospitais.
Em abril deste ano, um surto dessa mesma bactéria em uma UTI neonatal de um hospital de Porto Alegre levou à morte de um bebê. Agora, os pesquisadores irão investigar se existe relação entre o evento e as bactérias encontradas nas amostras ambientais. Uma das hipóteses levantadas é que o microrganismo tenha chegado à água por meio do descarte inadequado de resíduos hospitalares no esgoto.
Os próximos passos da pesquisa envolvem o sequenciamento genômico das bactérias para entender essa resistência extrema. Os pesquisadores também pretendem testar a resistência à polimixina B, um dos antibióticos de referência para infecções causadas por Acinetobacter baumannii.
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