A era de ouro da ciência islâmica e os gênios esquecidos do mundo árabe
Texto Bruno Vaiano Reportagem Bruno Vaiano e Luisa Costa Design Cristielle Luise Ilustração Henrique Petrus
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Em 4 de setembro do ano 476, um líder tribal germânico chamado Odoacro depôs o último imperador romano. Essa data é adotada como o marco oficial do fim de Roma e do início da Idade Média. Mas, na prática, impérios não acabam em um dia. A transição para o feudalismo durou séculos e envolveu zilhões de fatores: crise econômica, êxodo das cidades para o campo, a disseminação do cristianismo, uma pandemia de peste bubônica, mudanças climáticas e, é claro, as invasões e migrações de tribos germânicas e nômades do centro da Ásia (os ditos “bárbaros”).
Mesmo assim, mal dá para dizer que Roma acabou. Os vários reinos germânicos que vieram depois ainda se entendiam, grosso modo, como romanos. Enquanto isso, a metade oriental do império continuou existindo com capital em Constantinopla – a cidade que hoje é Istambul, na Turquia –, e se tornou um Estado cristão ortodoxo que durou até 1493.
No meio dessa bagunça medieval, algo da Antiguidade se perdeu: o desenvolvimento científico-tecnológico da Europa ficou devagar, quase parando. Na parte ocidental do continente, o trabalho acadêmico virou monopólio da Igreja Católica, que não era exatamente um órgão cabeça aberta. O lado bizantino era mais promissor: eles tinham uma identidade cultural essencialmente grega, liam Homero e estudavam lógica aristotélica no colégio. Mas o foco do ensino era formar uma administração pública competente – e não tanto usar o trabalho dos velhos mestres como ponto de partida para novas descobertas.
Enquanto isso, uma novidade florescia no Oriente Médio. Por volta do ano 600, na península onde hoje fica a Arábia Saudita, um pastor chamado Maomé uniu uma coalizão de tribos árabes sob uma religião monoteísta recém-criada, e plantou a semente de uma civilização no deserto. Os islâmicos criaram o maior império da história humana até então – e, entre os séculos 9 e 13, essa superpotência permaneceu na vanguarda da pesquisa científica global, construindo conhecimento em cima dos trabalhos de gregos, persas e indianos.
A ciência árabe deixou uma herança perceptível no nosso vocabulário. Palavras como “alquimia”, “algarismo” e “algoritmo” carregam o artigo “al” (ٱلْـ) até hoje. No céu, dezenas de estrelas têm nomes árabes: Betelgeuse (“mão do gigante”), que está prestes a explodir em uma supernova, é uma delas – bem como Aldebaran (“o seguidor”) e as Três Marias da constelação de Órion: Alnitak, Alnilam e Mintaka. “Alnilam”, diga-se, significa “colar de pérolas”, a transliteração correta seria al-nitham, com “th”.
Curiosidades etimológicas à parte, muitas contribuições fundamentais dos árabes acabaram esquecidas ou deixadas em segundo plano nos livros didáticos do Ocidente, e acadêmicos importantes não se tornaram heróis no imaginário popular como Galileu ou Newton. Fica no ar a impressão de que a única importância do Islã foi preservar os textos da Grécia Antiga enquanto a Europa ia para as cucuias medievais. Como se fossem bibliotecários guardando material até o Renascimento chegar e Copérnico precisar de uma consulta.
Na verdade, “eles não foram meros intermediários”, diz a historiadora Ana Maria Alfonso-Goldfarb, da PUC-SP. “Eles interpretavam. Pegavam certas coisas e abriam, fechavam, diluíam, aumentavam. Foram uma parte orgânica desse corpus de conhecimento.”
Vamos entender por que, exatamente, a ciência e a filosofia se tornaram uma prioridade dos califados – e conhecer histórias, anedotas e descobertas de alguns personagens importantes da era de ouro islâmica.
Dos Omíadas à Casa da Sabedoria
No governo do califa al-Walid, entre 705 e 715, o Império Islâmico atingiu o auge de seu território. Se estendia dos atuais Marrocos, Espanha e Portugal, no extremo oeste do mundo conhecido, até onde hoje é o Paquistão, a um passo da Índia. E tudo isso rolou rápido: menos de cem anos após a morte de Maomé e a eleição do primeiro califa, em 632.
Já seria difícil o suficiente manter esse território mastodôntico unido com computadores e celulares. Sem, era impossível. O califa que veio imediatamente antes de al-Walid, chamado al-Malik, se deparou com o problema, e uma de suas soluções foi determinar que todos os gabinetes e repartições públicas (chamadas de diwan) passassem a escrever exclusivamente em árabe.
Controlar os territórios era uma coisa, fazer todo mundo adotar um só idioma era outra, mais difícil. Na época, os burocratas de origem persa redigiam seus documentos em persa; os gregos, em grego. Os egípcios ainda falavam copta – um descendente da língua do Egito Antigo, que era escrita originalmente em hieróglifos, mas chegou à Idade Média usando uma variação do alfabeto grego (o Egito teve grande influência grega e foi parte do Império Bizantino até a conquista islâmica, no ano de 642).
Na visão do historiador libanês George Saliba, da Universidade Columbia, a arabização da administração pública foi a faísca da revolução científica no mundo árabe. A lógica é a seguinte: muitos funcionários públicos de etnias e religiões minoritárias acabaram perdendo seu prestígio e seus cargos nos diwans. Mas eles tinham uma carta na manga para recuperar influência: o conhecimento científico acumulado por suas civilizações, mais antigas que o jovem califado islâmico.
Com esse estímulo, os cristãos gregos, zoroastras persas e tantos outros povos dominados se esforçaram para seguir carreira como médicos, agrimensores, astrônomos ou astrólogos. Esses eram cargos valiosos para a alta cúpula do califado; não dava para viver sem. E, para exercer essas profissões, não bastava ler passivamente os trabalhos de Euclides ou Ptolomeu. Era preciso aplicar esse conhecimento a problemas práticos – uma pressão que pôs a engrenagem da ciência para rodar.
A história, até aqui, rolou sob a dinastia Omíada, que governou entre 661 e 750. Como deu para notar pela reforma burocrática narrada aí em cima, eles ficaram conhecidos pela governança pragmática, pé no chão. Puseram fim a uma série de conflitos civis entre os próprios árabes e profissionalizaram a administração pública. O governo deles acabou em um capítulo particularmente sangrento do Game of Thrones islâmico, quando foram arrancados do poder pelos abássidas – um clã que descendia de um tio de Maomé chamado Abbas e reivindicava o trono por pertencer à família do profeta.
Mas o que interessa para explicar o boom científico do Islã medieval é outra coisa: os abássidas eram entusiastas da pesquisa acadêmica. Eles deram início a um programa de tradução de textos da Antiguidade para o árabe – uma tarefa que empregou minorias étnicas fluentes em grego, persa, sânscrito etc. –, e enviaram emissários para várias terras distantes em busca de mais material de Aristóteles, Platão, Galeno, Hipócrates e companhia.
Boa parte desse acervo ficava na Casa da Sabedoria de Bagdá, mistura de biblioteca e centro de pesquisa que hoje carrega a mesma aura mística atribuída a Alexandria. Há quem fale em 400 mil obras guardadas ali – um óbvio exagero. Mas, no ano 987, um bibliotecário de Bagdá chamado Ibn al-Nadim publicou um catálogo com mais de 10 mil livros de 3,7 mil autores. É uma quantidade impressionante para a era pré-prensa tipográfica, e reforça o status da capital abássida como o MIT da época.

Al-Battani, o astrônomo pagão
Os abássidas eram tolerantes com pagãos em Harã, um entreposto comercial a 17 km de onde hoje fica a fronteira da Turquia com a Síria. Harã é muito antiga. Foi fundada há 4 mil anos pelos sumérios. Lá, eles ergueram um templo ao deus da Lua, chamado Nanna. E o povo de Harã preservou essa tradição mesopotâmica por milênios, até a era islâmica.
Eles eram politeístas e cultuavam os astros, coisa que o Corão não permitia. Mas acabaram enquadrados como sabianos: um grupo étnico-religioso cuja identidade exata não é conhecida até hoje*. O livro sagrado do Islã põe os sabianos na lista de seguidores do mesmo Deus abraâmico de judeus, cristãos e islâmicos, uma pedalada interpretativa que permitiu deixar os pagãos em paz.
O mais famoso cidadão de Harã foi al-Battani. Ele adotou a fé islâmica, mas seu pai era pagão e foi um fabricante de instrumentos astronômicos na época do califa al-Mamun, o mais dedicado dos patronos da ciência dentre os abássidas. Foi com o pai que al-Battani aprendeu os truques do ofício antes de se mudar para Raqqa, no norte da atual Síria. Lá, montou um observatório privado onde passou 40 anos – de 877 a 918 – estudando o céu.
No laboratório de al-Battani, os objetos tinham dimensões dignas de Itu. Ele preferia que seus astrolábios, quadrantes e afins tivessem no mínimo 1 m, porque, quanto maior o aparato, menor o erro relativo da medida. O resultado foi uma precisão impressionante para alguém que trabalhava sem telescópio: suas observações de equinócios e solstícios não são muito inferiores às que o dinamarquês Tycho Brahe faria 700 anos depois.
Al-Battani mediu a inclinação do eixo da Terra, calculou a latitude geográfica de Raqqa com margem de erro de apenas 7,4 km e descobriu que a posição do Sol no afélio – o ponto da órbita da Terra em que ficamos mais distantes da estrela, que ocorre todo ano entre 2 e 7 de julho – se desloca 1 grau no céu a cada 66 anos. Os gregos pensavam que esse ponto era fixo.
Ele também fez anotações precisas sobre uma série de eclipses e percebeu que, como o tamanho que a Lua e o Sol parecem ter no céu varia ao longo do ano – o chamado “diâmetro aparente” –, alguns eclipses solares precisariam ser anulares: quando a Lua não cobre totalmente o Sol e sobra um anel de luz ao redor do satélite.
Sete séculos depois, em 1693, o britânico Edmund Halley (que depois foi homenageado no nome do cometa) calculou de quais regiões do mundo alguns eclipses do passado puderam ser observados. E percebeu que, embora al-Battani tivesse registrado vários desses fenômenos no Oriente Médio com precisão, ele parecia estar fora das áreas de observação previstas. Calhou que a culpa era da Lua: a discrepância foi o primeiro passo da descoberta de que o satélite natural se afasta da Terra a uma taxa de 3,8 cm por ano, uma variável inesperada que distorceu os cálculos de Halley.
As desventuras de al-Haytham
No século 10, o califado Abássida já não era assim uma Brastemp, e havia perdido um bocado de território para outros clãs islâmicos. Um dos adversários eram os fatímidas, que tomaram o controle do norte da África e fizeram sua capital no Cairo. O mais famoso dos califas fatímidas foi al-Hakim, que governou entre os anos de 996 e 1021, e ganhou o apelido de “Nero do Egito”.
Como o romano Nero, ele era excêntrico – e cruel. Mandou a população dormir de dia e trabalhar à noite, ordenou que os soldados matassem cachorros, porque não gostava dos latidos, e… baniu mariscos de seu reino. Ninguém podia comer mariscos. Al-Hakim também perseguiu muçulmanos sunitas, cristãos e judeus, coisa que fugia do padrão de tolerância religiosa dos califas até então.

Um dos planos megalomaníacos de al-Hakim era regular o fluxo do Nilo durante a época de cheia. Para a tarefa, ele chamou o hábil al-Haytham, um estudioso multifacetado que, entre outras realizações, deu uma formulação preliminar do princípio da inércia que Newton enunciaria séculos depois.
A ideia exigiria uma grande obra de engenharia no sul do Egito. E al-Haytham logo percebeu que o plano não era viável com a tecnologia da época. Para evitar a ira de al-Hakim e uma provável decapitação, ele fingiu demência – literalmente. O acadêmico simulou um problema de saúde mental, e acabou encarando uma pena mais branda: prisão domiciliar. O cárcere durou dez anos, até o califa desaparecer misteriosamente ao sair para um passeio noturno com seu burrinho de estimação, em 1021.
Preso em casa, ou um pouco depois, al-Haytham escreveu sua obra-prima: o Livro da Óptica. Ali, afirmou que nossos olhos recebem a luz emitida ou refletida pelos objetos. Não era uma ideia inédita, mas sim algo ousado para a época: muitos textos respeitados da Antiguidade defendiam que eram nossos olhos que lançavam raios para vasculhar o ambiente ao redor, como um radar.
Ele investigou muitos outros fenômenos de refração e reflexão da luz, como sombras, arco-íris e câmaras escuras, que são o princípio de funcionamento das câmeras fotográficas. A ilustração do início desta reportagem, por exemplo – inspirada na imagem que abre uma antiga edição em latim d’O Livro da Óptica –, mostra seu interesse no problema matemático do espelho incendiário. Al-Haytham calculou a curvatura que um espelho em forma de antena parabólica precisaria ter para refletir a luz do Sol concentrada em um só ponto – e, assim, deflagrar um incêndio. Até hoje, as contas por trás desse problema aparecem na construção de telescópios e satélites.
Segundo o historiador Donald Hill, autor do livro Islamic Science and Engineering (“Ciência e Engenharia Islâmica”), os estudos de óptica, até al-Haytham, eram “um emaranhado confuso de incertezas e contradições”. Al-Haytham, porém, foi um experimentador cuidadoso, que evitava fazer afirmações sem provas, e foi um precursor do método científico moderno. Sua obra circulou na Europa e influenciou, por exemplo, o astrônomo Johannes Kepler.
As histórias de al-Battani e al-Haytham são só a ponta de um iceberg de realizações intelectuais da era de ouro do Islã. Nem sequer falamos dos tratados médicos de Avicena, da alquimia de Jabir ibn Hayyan ou do engenheiro mecânico al-Jazari, que inventou o virabrequim e construiu uma das primeiras fechaduras de combinação, com senha de quatro dígitos [o infográfico abaixo mostra um de seus inventos mais peculiares, um relógio exuberante em forma de elefante].
Al-Jazari também foi uma espécie de luthier: criou instrumentos de percussão e flautas que tocavam sozinhos – precursores dos pianos mecânicos do século 19, que liam as notas em rolos de papel perfurados. Os árabes, diga-se, foram os responsáveis por levar os primeiros instrumentos musicais de cordas com braço à Península Ibérica, onde deram origem aos violões e violas que conhecemos hoje. Esses instrumentos chegaram às Américas nas mãos dos portugueses e espanhóis e estão nas raízes da música popular como a conhecemos: samba, repentistas nordestinos e o blues não existiriam sem eles.

A invasão mongol – e o fim
Em 1296, uma horda mongol liderada por Hulagu Khan, neto de Gengis Khan, saqueou Bagdá, pôs fim à dinastia Abássida e lançou o acervo da Casa da Sabedoria nas águas do Rio Tigre – que, de acordo com um cronista da época, se tingiram de preto conforme a tinta se dissolvia. O relato provavelmente é um exagero, mas transmite um trauma que, na história islâmica, tem o mesmo tamanho do mítico incêndio da Biblioteca de Alexandria. Chegava ao fim a era de ouro dos abássidas, um período de florescimento intelectual e cultural de uma intensidade que só se repetiria dois séculos depois, com o Renascimento na Itália.
Aqui, vem a calhar a citação mais famosa de Newton: “Se vi mais longe, foi por estar nos ombros de gigantes”. É verdade: Isaac e seus contemporâneos estudaram atentamente o trabalho de seus antecessores árabes – que, por sua vez, se apoiaram nos gregos, persas e hindus. Um lembrete de que a ciência como a conhecemos não é fruto de lampejos de genialidade de alguns heróis isolados – mas o resultado das idas e vindas da História, e do acúmulo diligente de conhecimento por gerações de curiosos de todos os cantos do mundo.
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