A ciência prova: odiar as mesmas coisas produz as melhores amizades
Poucas coisas são tão satisfatórias quanto encontrar alguém que você gosta e descascar junto tudo aquilo que merece: as pessoas desprezíveis, os políticos detestáveis, o entretenimento medíocre, os acontecimentos mundanos que só são dignos de nota perante o asco. De fato, odiar junto é mais do que um extravaso ou uma troca de cumplicidades: é uma sinergia de sentimentos que apenas as mais fortes amizades conseguem entender.
A ciência concorda: em 2006, um estudo das Universidades de Texas e de Oklahoma analisou 120 pessoas com idades entre 16 e 25 anos e detectou que, quando elas descobriam que tinham uma aversão a algo e que outra pessoa (um estranho) sentia o mesmo, elas se sentiam mais próximas desse estranho do que das pessoas que diziam ter afeição por esse algo. Mesmo sem conhecer a pessoa, saber que ela desgostava do mesmo que você já bastava para trazer alguma proximidade.
Segundo os autores dessa pesquisa, “compartilhar atitudes negativas é atraente porque estabelece limites entre grupos internos e externos, aumenta a autoestima e transmite informações altamente diagnósticas sobre quem as possui”. Ou seja: não é só pela fofoca. O sentimento de desprezo pela mesma coisa traz informações que ajudam a entender aquela outra pessoa. “Se existe um lado positivo na fofoca, acreditamos que seja o de que atitudes negativas, ainda que leves, compartilhadas em relação aos outros podem criar e/ou ampliar a intimidade interpessoal”, diz o texto.
Esse estudo, embora não seja exaustivo, virou uma referência relativamente conhecida dentro da psicologia social sobre o fenômeno de “bonding through shared dislike” (“conexão por meio de antipatia compartilhada”). Desde então, outros estudiosos tentaram seguir a mesma linha para entender por que isso acontece.
Em 2009, um graduando de Psicologia da Universidade da Flórida, orientado por uma das autoras do estudo de 2006, publicou uma tese tentando entender o fenômeno. O trabalho sugere dois mecanismos importantes: o ódio mútuo faz a gente sentir que conhece a outra pessoa muito mais rapidamente e também causa um aumento temporário da autoestima e da sensação de pertencimento.
E mais recentemente, em 2026, um estudo da Universidade de Wenzhou , na China, observou que as pessoas usam relações negativas compartilhadas para construir mapas sociais e enxergam alianças a partir de antagonismos mútuos. É uma inversão curiosa: embora relacionamentos negativos possam enfraquecer as experiências sociais, diz o texto, as interações negativas compartilhadas podem servir como ferramentas para construir relacionamentos positivos.
Política
Essas formulações acadêmicas ajudam a entender um aspecto da nossa vida que vai muito além das amizades: o comportamento político. Em 2018, os autores Alan Abramowitz e Steven Webster publicaram o livro “Partidarismo negativo e a nacionalização das eleições nos EUA”, onde observam que eleitores modernos são cada vez mais motivados pelo medo, pela rejeição e pela antipatia ao outro partido.
Votar “contra” virou tão importante quanto votar “a favor” e identidade política virou identidade social. Da mesma forma, adversários políticos passaram a ser vistos como ameaça moral/cultural. Portanto, a pessoa A e a pessoa B podem até não votar no mesmo candidato, mas seu ódio mútuo por um mesmo político as unirá ideologicamente e criará uma sensação de comunidade entre elas.
Ou seja: se você vê um grupo de ativistas políticos e não entende como pessoas tão diferentes conseguem estar juntas, a explicação é que elas foram unidas pelo ódio. A sensação que elas têm ao criticar determinado candidato ou partido é a mesma que você e seu amigo sentem quando se juntam para falar mal de um desafeto.
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