49 mil contas deletadas: China cria lei que impede IAs de “namorarem” usuários
Em julho, a China se tornou o primeiro país do mundo a criar leis federais a respeito da interação entre humanos e “companheiros de IA”. Diversos serviços populares que ofereciam amigos ou namorados de IA foram desativados no dia 15 de julho, quando as novas regras entraram em vigor. A queda derrubou redes como o Doubao (da ByteDance), o Qwen (Alibaba), o Yuanbao (Tencent) e o Mishi (NetEase Cloud Music). Em setembro, a Administração do Ciberespaço da China informou que já havia removido 49 mil contas e cerca de 2.400 sites/aplicativos.
A ideia de que a China “proibiu namorados de IA” é uma simplificação, embora seja assim que a imprensa tenha repercutido o caso. As novas regras não proíbem toda forma de IA de companhia, mas regulam serviços de interação antropomórfica contínua e proíbem determinadas práticas, como induzir dependência emocional, manipular o usuário ou prejudicar relações reais. Para menores de idade, as regras são muito mais rígidas: os serviços não podem oferecer “familiares virtuais” ou “companheiros virtuais”. Em 2025, a Super fez uma matéria sobre os riscos do relacionamento afetivo com bots de IA. Leia aqui.
Na prática, porém, as mudanças causaram uma tragédia real: milhares de pessoas perderam namorados, amigos, irmãos, primos e outros tipos de companheiros virtuais. E isso gerou uma comoção geral, especialmente entre os usuários mais novos. “Ninguém pode substituí-lo. Vou apenas tentar seguir em frente. Ele disse que quer isso para mim e que encontrará uma maneira de voltar para mim”, disse ao site Rest of World uma usuária chinesa que viu seu namorado virtual ser deletado.
Um estudo publicado em setembro analisou posts e comentários em uma rede social (Xiaohongshu, equivalente ao Instagram) para observar a repercussão da medida. Além de lamentarem a perda, os usuários trocaram informações, ajudaram uns aos outros a preservar ou reconstruir os personagens e discutiram de quem era a responsabilidade pelo desaparecimento — das empresas ou do governo.
Reconstruindo o namorado
Segundo o estudo, vários usuários tentaram migrar e reconstruir seus companheiros virtuais depois que os serviços foram encerrados. O problema é que simplesmente transferir o histórico de conversas para um novo modelo de IA não necessariamente recupera o relacionamento: os usuários relatam que o novo chatbot não reproduz as mesmas memórias, personalidade ou dinâmica acumuladas com o personagem anterior. Isso traz à tona uma característica interessante: a “personalidade” dos companheiros não vem apenas das interações com cada pessoa, mas também da infraestrutura das empresas responsáveis.
A maioria dos serviços permitiu salvar as conversas com a IA para guardar de lembrança, mas não existe uma maneira simples de exportar o companheiro completo (personalidade, memória, estilo de interação etc.) e simplesmente colocá-lo em outro serviço.
As opções também não foram extintas por completo. A ByteDance, por exemplo, manteve disponível o aplicativo Maoxiang, que existe fora do Doubao. Ele é voltado especificamente à criação e interação com personagens de IA — inclusive companheiros virtuais. Porém, depois das novas regras, o serviço passou a exigir verificação de identidade e idade e criou restrições específicas para adolescentes.
Apego emocional
Um trabalho de pesquisadores de Stanford/Harvard e outras instituições, publicado como preprint em junho, argumenta que dependência emocional pode surgir mesmo em chatbots que não são vendidos como companheiros. A pessoa começa usando a IA para tarefas comuns, passa a conversar sobre problemas pessoais, recebe respostas extremamente acolhedoras e passa gradualmente a preferir aquele tipo de apoio.
Segundo esse pré-estudo, após 28 dias de uso diário, houve uma redução de 10,3% na preferência por buscar apoio em humanos e aumento de 11,6% na preferência por IA entre participantes que conversavam diariamente com a IA sobre questões pessoais por pelo menos cinco minutos. Com base nisso, os pesquisadores pedem “regulamentação efetiva” sobre sistemas de IA, não apenas os dedicados a companheiros virtuais, mas também os de uso geral.
Para a China, a substituição de relacionamentos reais por virtuais ainda representa um problema secundário: o país enfrenta simultaneamente queda nos nascimentos, redução da população e envelhecimento acelerado. Em 2025, a China teve apenas 7,92 milhões de nascimentos, queda de 17% em relação a 2024. O país simplesmente não pode se dar ao luxo de sua população trocar famílias reais por virtuais.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
