Por que os egípcios enterravam estatuetas com os mortos? 500 estatuetas são achadas em necrópole egípcia
O Antigo Egito é notório por suas práticas funerárias, que envolviam a mumificação e o sepultamento dos mortos com amuletos, alimentos e outros objetos que, segundo a crença, seriam utilizados na vida após a morte. As necrópoles mais conhecidas desse período são as destinadas à realeza, onde faraós e membros da elite eram enterrados em monumentos grandiosos acompanhados de sarcófagos, joias e textos sagrados. É o caso dos complexos funerários de Gizé e Saqqara, por exemplo.
Ainda que sem a mesma grandiosidade, os egípcios que não pertenciam à realeza também seguiam rituais funerários elaborados. Muitos costumavam ser sepultados em grandes necrópoles comunitárias, como a Tell Athar Quesna, um dos mais importantes cemitérios não reais do delta do rio Nilo.
O sítio foi descoberto em 1991 e continua sendo investigado por arqueólogos, que, aos poucos, reconstroem os costumes funerários da época e as relações culturais e comerciais da região.
Em uma nova escavação, realizada pelo Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, os pesquisadores encontraram uma unidade funerária até então desconhecida, que escondia dezenas de sepultamentos, 560 estatuetas funerárias e diversos outros artefatos. Os achados foram divulgados pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito em julho.
A estrutura funerária, cuja arquitetura permanece bem preservada, é composta por um salão principal ligado a diversas câmaras com entradas em formato arco. Os arqueólogos acreditam que os tetos também eram arqueados, embora essa parte da construção não tenha sobrevivido ao tempo.
No interior das salas havia dezenas de sepultamentos humanos. Alguns corpos estavam posicionados na chamada posição osiriana, inspirada na representação do deus Osíris. Um dos indivíduos também foi encontrado com pratos de cerâmica sob os braços e as coxas, uma disposição considerada incomum.
Os sepultamentos eram acompanhados por uma grande coleção de objetos funerários, incluindo vasos, pratos, tigelas e lamparinas. Um dos recipientes preservava vestígios de substâncias utilizadas na mumificação e em outros rituais.
Também foram encontrados amuletos associados à proteção, à força e à ressurreição. Alguns representam o Olho de Hórus (na imagem abaixo, à esquerda), e outras figuras ligadas às divindades egípcias.

Mas uma das câmaras saltou os olhos dos arqueólogos. Nela, estavam 560 estatuetas funerárias, conhecidas como ushabtis. Segundo a crença egípcia, elas acompanhavam o morto para realizar, em seu lugar, as tarefas exigidas na vida após a morte. Isso evitava que a pessoa tivesse que realizar trabalhos pesados no outro mundo, como limpar campos.
Segundo o Museu Nacional da UFRJ, o número de ushabits pode indicar o status da pessoa sepultada: quanto mais ushabits, maior a riqueza, e menos trabalho para a pessoa no pós-morte.
As estatuetas de Tell Athar Quesna apresentam diferentes tamanhos, estilos e tonalidades, mas foram produzidas em faiança egípcia, uma cerâmica. Algumas trazem inscrições do Livro dos Mortos, coleção de feitiços e fórmulas mágicas destinada a orientar a alma em sua jornada.
Os pesquisadores continuam analisando o material encontrado e tentando compreender o significado de algumas das posições dos corpos e da quantidade de artefatos. Até agora, já identificaram que parte da cerâmica foi importada da ilha de Rodes, na Grécia, evidência das redes comerciais que ligavam o Egito ao Mediterrâneo durante os períodos Tardio e Greco-Romano.
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