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Curiosidades

Cadê os aliens? Entenda como a ciência busca por vida extraterrestre inteligente

Texto Bruno Carbinatto Design Cristielle Luise Edição Rafael Battaglia Ilustrações Henrique Petrus Direção de Arte Juliana Krauss

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m 1950, o físico ítalo-americano Enrico Fermi almoçava com amigos no laboratório Los Alamos, no Novo México (EUA). O centro de pesquisas tinha sido construído anos antes como parte do Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica. Fermi havia trabalhado nele e voltou para visitar os colegas.

Em algum momento, o grupo falou sobre uma charge publicada naquele ano na revista New Yorker. O desenho mostrava alienígenas – pequenos homenzinhos verdes – levando lixeiras para dentro de uma nave espacial, uma sátira a um sumiço misterioso de lixeiras na cidade de Nova York.

Inspirados, os cientistas passaram a discutir a possibilidade de a Terra ser visitada por extraterrestres de verdade. Os físicos chegaram a fazer contas de guardanapo para estimar a probabilidade de vida alienígena avançada, mas não levaram a conversa tão a sério.

Reza a lenda que, minutos depois, já na sobremesa, Fermi soltou repentinamente uma frase que entraria para a História: “Cadê todo mundo?”.

Para o vencedor do Nobel de Física, ficou claro que a lógica indicava que extraterrestres com níveis razoáveis de tecnologia deveriam, sim, existir. Por que, então, nunca fomos visitados por eles?

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Nascia assim o que foi posteriormente chamado de Paradoxo de Fermi, um questionamento que intriga cientistas há mais de 70 anos. Ele parte do pressuposto de que o cosmos é muito, mas muito grande – tão colossal que nosso cérebro tem dificuldade de entender sua imensidão. Desse modo, há uma imensidão de oportunidades para a vida inteligente surgir e evoluir além da Terra.

Há pelo menos 200 bilhões de galáxias no Universo observável (há quem estime até 2 trilhões), cada uma com milhões ou bilhões de estrelas. O número de sóis no espaço tem 24 zeros, e cada um deles provavelmente tem um ou mais planetas em sua órbita. Existem mais mundos por aí do que grãos de areia na Terra. Como disse o cientista Carl Sagan: “Se apenas nós existirmos, é um grande desperdício de espaço”.

Parece haver uma contradição clara entre tantas possibilidades de mundos habitáveis com o fato de nunca termos identificado qualquer forma de vida lá fora. Segundo uma interpretação mais simples, é só questão de tempo até encontrarmos – ou sermos encontrados – por uma outra civilização inteligente.

A busca por alienígenas pode parecer um tema da ficção científica, ou então de pseudociências pouco sérias. Não é. Há décadas, cientistas tentam encontrar sinais de vida extraterrestre em projetos milionários, e avanços recentes nesse campo de estudos aumentam o otimismo de que estamos perto de cumprir a missão.

<span class=”hidden”>–</span>Henrique Petrus/Superinteressante
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Alô, alô, marciano

Humanos são fascinados com a ideia de ETs há milênios. No século 2 d.C., o autor grego Luciano de Samósata escreveu História Verdadeira, uma sátira que narra um conflito entre os selenitas (os habitantes da Lua) e os heliotas (do Sol). A obra é considerada, hoje, o primeiro sci-fi da História.

Já na Idade Média, filósofos debatiam as consequências teológicas da existência ou inexistência de outros mundos além da Terra.

O estudo científico da coisa, no entanto, é bem recente. Aqui, é preciso separar alguns conceitos. A chamada ufologia foca os midiáticos óvnis (“objetos voadores não identificados”), avistamentos de fenômenos aéreos misteriosos que, segundo alguns, podem ter relação com extraterrestres. Mas a maior parte dessa área não segue metodologia científica, é feita sobretudo por entusiastas amadores e está fora das universidades e dos periódicos científicos. Por isso, é considerada uma pseudociência.

Quando o Universo vai acabar? Nova estimativa é mais pessimista


A astrobiologia, por sua vez, é o ramo da astronomia que investiga, de fato, se há a possibilidade de existir vida fora da Terra. Esse campo de estudos foca formas simples de vida, como bactérias, e seres extremófilos, que conseguem sobreviver em condições ambientais nada amigáveis, como temperaturas muito altas ou muito baixas ou ambientes tóxicos (por aqui, os encontramos em geleiras e nas profundezas do oceano, por exemplo).

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Astrobiólogos estudam, inclusive, regiões próximas de nós, nos planetas e luas do Sistema Solar. Marte e Vênus, por exemplo, podem ter tido vida no passado, enquanto Titã e Encélado, ambas luas de Saturno, talvez estejam escondendo micróbios ainda hoje.

Para essa empreitada, os cientistas buscam por bioassinaturas – moléculas ou fenômenos que podem ter sido pro duzidos por formas de vida. Nos últimos anos, a detecção da substância fosfina em Vênus e do dimetilsulfureto no exoplaneta K2-18b levantou esperanças de que houvesse atividade orgânica nesses locais. Em ambos os casos, parece ter sido um alarme falso, mas a busca continua.

Já a área que estuda possíveis civilizações alienígenas avançadas, capazes de se comunicar conosco, é chamada pela sigla Seti, de Search for Extraterrestrial Intelligence (“Busca por Inteligência Extraterrestre”). Ela se baseia na procura por tecnoassinaturas – indícios de uso de tecnologia que podemos detectar daqui da Terra, como ondas de rádio.

A Seti parte do chamado “princípio copernicano”, uma das principais bases da astronomia moderna. Quando Copérnico criou o modelo heliocêntrico, no século 16, derrubou a visão dominante, que vinha de séculos antes, da Terra como um planeta especial, numa posição privilegiada no Universo. 

Segundo esse princípio, vivemos em um mundo comum, num sistema estelar comum, que calhou de ter originado a vida. Nada impede que outros também tenham trilhado o mesmo caminho.

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As buscas da Seti não vasculham tudo; as outras galáxias estão muito distantes de nós, de modo que qualquer possível civilização lá fora é inalcançável. Andrômeda, a galáxia grande mais próxima da Via Láctea, fica a 2,5 milhões de anos-luz de nós, de modo que uma simples troca de mensagens levaria singelos 5 milhões de anos.

A Via Láctea é gigantesca por si só, com algo entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas. Tem espaço de sobra. Na época em que Fermi fez sua famosa pergunta e os primeiros esforços de Seti começaram, ainda não se sabia se planetas como a Terra, Marte e Júpiter eram algo comum na Via Láctea – ou se eram exclusividade do nosso Sistema Solar. Embora muitos acreditassem na presença de vários mundos pela galáxia, havia também uma crença de que apenas nossa vizinhança cósmica era estável o suficiente para abrigar um sistema planetário.

Hoje, sabemos que isso não é verdade: planetas orbitando estrelas parecem ser a regra, não a exceção. O primeiro exoplaneta (planeta fora do Sistema Solar) foi descoberto em 1992; desde então, já encontramos mais de 6.300 pela Via Láctea, muito graças à missão Kepler, da Nasa, enviada em 2009 para caçar esses orbes flutuantes.

Em média, calcula-se que cada estrela na nossa galáxia tenha pelo menos um planeta, o que significa que há centenas de bilhões de mundos na Via Láctea para procurarmos por vida. (Curiosamente, um dos primeiros a propor que cada estrela no céu abriga seu respectivo sistema planetário foi o teólogo italiano Giordano Bruno, ainda no século 16. Ele acabou queimado na fogueira pela Inquisição por essa e outras heresias.)

Desses, estimativas recentes baseadas nos dados do Kepler apontam que existem pelo menos 300 milhões de planetas potencialmente habitáveis na nossa galáxia. “Habitáveis”, aqui, significa que eles são rochosos – como a Terra, e não gasosos como Júpiter – e estão a uma distância de suas estrelas que resulta numa temperatura amena, que permite a existência de água líquida na superfície, ingrediente essencial para a vida como conhecemos.

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A busca por tecnoassinaturas começou alguns anos depois da pergunta de Fermi (não por ele – fora aquele papo com amigos, o italiano não parecia se interessar genuinamente pelo assunto; ele faleceu em 1954). Na época, o estudo de possíveis alienígenas ainda era um certo tabu, por vezes até menosprezado por alguns cientistas.

Em 1959, o italiano Giuseppe Cocconi e o estadunidense Philip Morrison escreveram um artigo na respeitada revista Nature propondo meios para a busca de vida inteligente na Via Láctea. A dupla concluiu que as melhores candidatas para a comunicação interestelar seriam ondas eletromagnéticas, que se movem na velocidade da luz (a maior possível) e são relativamente simples, de modo que uma civilização minimamente avançada poderia detectá-las com facilidade.

O problema é que o espectro eletromagnético é gigantesco e inclui rádio, micro-ondas, luz visível, infravermelho etc. Como, então, reconhecer uma mensagem alien no meio de tantas emissões de origem natural?

Os cientistas concluem que há uma frequência de rádio quase perfeita para transmitir mensagens espaciais: 1.420,4 MHz, correspondente a um comprimento de onda de 21 centímetros. Essa é a frequência emitida pelo hidrogênio, o elemento mais abundante do Universo (e por isso é conhecida como “linha do hidrogênio”). É quase certo que uma sociedade tecnológica saberá disso, de modo que ela funcionaria como uma espécie de WhatsApp natural para civilizações aliens.

Além de tudo, a linha do hidrogênio interage pouco com a matéria do cosmos, permitindo transmissões a longas distâncias.

O argumento é tão convincente que, até hoje, é essa a principal frequência buscada por iniciativas de Seti no mundo (ainda que os esforços modernos vão muito além dela). Aliás, ninguém pode usar essa faixa aqui na Terra. Por meio de regulações internacionais, está reservada para a radioastronomia.

Ilustração de uma pessoa branca com a mão na boca, falando em um telefone de lata verde conectado por um fio roxo a um pássaro preto em um ninho roxo, sobre um fundo verde. A imagem sugere comunicação e conexão.
<span class=”hidden”>–</span>Henrique Petrus/Superinteressante
Soluções para o Paradoxo de Fermi: Aliens são incompreensíveis

É impossível imaginar vida extraterrestre sem vieses: só conhecemos a inteligência humana, e, portanto, esperamos que os aliens sigam lógicas parecidas. Mas eles podem ser diferentes de nós do ponto de vista cognitivo e tecnológico, o que nos impediria de entendê-los. Em vez de rádio, por exemplo, civilizações podem se comunicar usando efeitos quânticos ou outros fenômenos que ainda não compreendemos ou descobrimos.

Em 1960, aconteceu a primeira busca por esses possíveis sinais aliens. Por três meses, o astrônomo norte-americano Frank Drake usou um radiotelescópio para observar as estrelas Tau Ceti e Epsilon Eridani, ambas relativamente próximas e similares em idade e tamanho ao nosso Sol. A tentativa, que terminou sem frutos, foi chamada de Projeto Ozma, em homenagem à fictícia princesa da Terra de Oz.

Apesar do resultado decepcionante, o projeto levantou o interesse de outros cientistas mundo afora, e, por isso, Frank Drake é considerado o “pai da Seti”. A sua maior contribuição para esse campo de pesquisa, no entanto, veio um ano depois.

Só sei que nada sei

Em 1961, Drake reuniu um seleto grupo de cientistas interessados no tema para a primeira conferência sobre Seti do mundo. Entre os convidados, estavam Philip Morrison, do artigo de 1959, e um jovem Carl Sagan, ainda no pós-doutorado. O grupo se propôs a responder qual a real probabilidade de existirem outras civilizações inteligentes na Via Láctea.

Para guiar a discussão, Drake escreveu uma fórmula matemática na lousa. Para ele, era só um rascunho básico, uma espécie de conta de bar que incentivaria o debate. Mas ela acabou virando uma das equações mais famosas da História, que sustenta a Seti até hoje.

A Equação de Drake é uma multiplicação de várias probabilidades que, no fim, calculam o número de sociedades alienígenas com que somos capazes de estabelecer contato na Via Láctea. Você pode vê-la em detalhes no box abaixo.

A fórmula parte de um número grande e vai diminuindo-o em subgrupos, de acordo com certos critérios. Quantas estrelas existem na Via Láctea? Destas, quantas têm planetas ao seu redor? Quantos são rochosos e têm clima ameno, capaz de suportar água líquida? Considerando apenas esses mundos, em quantos espera-se que a vida surja? E em quantos destes a vida se desenvolve para se tornar inteligente? Das civilizações avançadas, qual porcentagem domina a comunicação interestelar e envia sinais para o espaço? Por fim: quanto tempo essas sociedades comunicativas duram? Multiplicando tudo, temos o provável número de civilizações que podemos encontrar.

E qual o resultado? Ninguém sabe. Isso porque quase todas essas variáveis são desconhecidas; as probabilidades da fórmula são estimativas embasadas, no melhor dos casos. No pior, são puros chutes.

As estimativas da equação que se referem a planetas e estrelas são mais certeiras, porque podemos estudá-los no espaço para guiar o palpite. Mas as que envolvem vida e inteligência são especulação absoluta, já que só sabemos de um único caso em que essas coisas surgiram (a Terra). Quão comum é que seres vivos surjam e, depois, se tornem tecnológicos? Podemos ser fruto de um processo comum no Universo… ou de uma exceção.

Infográfico da Equação de Drake, com a fórmula N = R* · fp · ne · fl · fi · fc · L. Cada variável é explicada com texto e linhas conectando-as, em fundo verde-água. A equação estima o número de civilizações avançadas na Via Láctea.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

O resultado da Equação de Drake, então, varia dependendo de quão pessimista ou otimista é a pessoa na calculadora. Ela pode mostrar que o número de civilizações tecnológicas na Via Láctea é próximo de zero, o que significa que estamos sozinhos, ou que são milhares e milhares delas.

Carl Sagan, um notório otimista, chegou a calcular 1 milhão de civilizações alienígenas falantes com a fórmula de Drake. Em 2019, a Super fez sua própria estimativa – e chegou a 56 mundos com serezinhos verdes.

Uma fórmula cujo resultado varia de 0,1 a 1 milhão pode parecer inútil, é verdade. Mas não é. Ela funciona até hoje como uma trilha filosófica, para guiar os esforços de Seti, e não exatamente para cravar um resultado.

“A Equação de Drake é uma maneira de nos motivar”, diz o físico Marcelo Schappo, professor do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). “E serve também para o futuro, quando entendermos melhor como o Universo funciona. Quando formos adicionando parâmetros com valores mais apropriados, a resposta ficará mais precisa.”

A pequena conferência de 1961 e a fórmula de Drake repercutiram fortemente no meio científico, a ponto de a Seti cativar até a Nasa. Em 1971, a agência espacial publicou o projeto Cyclops, que previa a construção gradual de mil antenas de radiotelescópio, cada uma com mais de 100 metros, reunidas num único lugar. Todas elas com a missão principal de captar mensagens alienígenas.

No total, custaria mais de US$ 10 bilhões – US$ 84 bi em dinheiro de hoje. Caro demais para sair do papel. O Cyclops foi engavetado, sob a justificativa de que não valeria a pena gastar tanto para falar com alienígenas se mal sabemos se eles existem. Apesar de nunca sair do papel, o projeto construiu uma grande base teórica sobre a busca por esses sinais e influenciou os esforços seguintes.

Ilustração de uma galinha grande com penas pretas e rosadas, caminhando sobre um gramado verde-água. Atrás dela, um ninho com três ovos, um deles rachado. À direita, um pintinho preto e uma lápide rosa com a inscrição RIP e a silhueta de uma galinha. O fundo é roxo com plantas estilizadas e um sol pálido atrás da galinha.
<span class=”hidden”>–</span>Henrique Petrus/Superinteressante
Soluções para o Paradoxo de Fermi: Questões temporais

Várias hipóteses focam o último elemento da Equação de Drake: o intervalo de tempo em que uma civilização avançada pratica a comunicação. É possível que sociedades durem pouco, o que reduziria a chance de haver alienígenas contemporâneos a nós. Talvez os dinossauros tenham recebido sinais de rádio de extraterrestres há 200 milhões de anos, mas nós perdemos o bonde. Numa linha parecida, a Hipótese do Primogênito defende que a Terra pode ser a primeira civilização inteligente da História. Quem aí quer um caçulinha?

Esse é, aliás, um problema que acompanha a Seti até hoje: falta de financiamento. Em várias outras ocasiões, o Congresso norte-americano cortou a grana de esforços do tipo da Nasa; às vezes, políticos debochavam desse estudo como algo pouco sério. Mas houve avanços, tanto com dinheiro público como privado, claro.

Em 1984, a astrônoma Jill Tarter cofundou o Instituto Seti, uma instituição sem fins lucrativos que até hoje é a maior incentivadora e pesquisadora desse campo de estudos. (Tarter é hoje uma das maiores especialistas do tema e inspirou a personagem de Jodie Foster no filme Contato, de 1997, baseado no romance homônimo de Carl Sagan.)

O instituto trabalha em conjunto com várias outras iniciativas de busca por vida inteligente, de universidades, governos e entidades privadas mundo afora. A maioria funciona da maneira clássica, com antenas de radiotelescópios que buscam por sinais de rádio anômalos. Mas há também abordagens mais modernas e inovadoras, como a chamada Seti óptica, que vasculha o céu em busca de lasers possivelmente emitidos por alienígenas.

Apesar de todos esses esforços, nunca recebemos um alô de ETs. Ou será que recebemos?

Oi, sumido

No dia 15 de agosto de 1977, o radiotelescópio Big Ear, no estado americano de Ohio, registrou um sinal forte, que durou pelo menos 72 segundos (o máximo de tempo que o aparelho conseguia captar), vindo da direção da constelação de Sagitário. Ele era 30 vezes mais intenso do que os ruídos que o Big Ear costumava receber.

O mais impressionante de tudo? A frequência do sinal: 1.420,4556 MHz, quase idêntica à linha do hidrogênio, eleita como a mais provável para a comunicação interestelar.

Ao ver o registro desses dados dias depois, o astrônomo Jerry Ehman se surpreendeu tanto que circulou os números e escreveu do lado “Wow!” (“Uau!”). O sinal esquisitíssimo passou a ser chamado de “sinal Wow!” – e é, até hoje, o melhor candidato a um “alô” de alienígenas da História.

O Uau! sinal representado como
<span class=”hidden”>–</span>Wikimedia Commons/Reprodução

Existem explicações alternativas para esse sinal, claro, incluindo defeitos no aparelho ou algum sinal terrestre que foi refletido de volta e captado pelo telescópio (algo mais improvável, já que a frequência é regulada). Cometas também já foram apontados como possíveis emissores naturais, mas essa hipótese foi pouco aceita pela comunidade científica.

Um estudo de 2024, que ainda não passou por revisão, propôs que uma nuvem de hidrogênio pode ter sido excitada por um magnetar, um tipo raro de estrela de nêutrons, e emitido a onda detectada. É uma explicação que parece fazer mais sentido, mas ainda precisa ser comprovada.

O fato é que a frequência do sinal era muito similar à provável frequência utilizada por extraterrestres (ela não era idêntica, mas isso poderia ser culpa de uma distorção mínima caso a fonte estivesse em movimento em direção à Terra). Ou seja: a hipótese de que o sinal Wow! seja uma tentativa de comunicação alien está de pé.

O problema é que nunca mais detectamos nada parecido, e não foi por falta de procura. Nos últimos 50 anos, diversos cientistas analisaram as fatias da constelação de Sagitário de onde o sinal Wow! parece ter vindo – e só encontraram silêncio. As buscas seguem.

Um despertador roxo com borda verde-água e ponteiros pretos marcando 14h, sobre uma estrutura preta com linhas horizontais. À esquerda, três formas ovais rosa empilhadas. À direita, nove cilindros roxos empilhados em três colunas. Fios roxos conectam o despertador a uma caixa preta com dois círculos brancos. Ondas verdes-água flutuam acima do despertador. Tudo sobre uma mesa verde-água, em fundo roxo escuro.
<span class=”hidden”>–</span>Henrique Petrus/Superinteressante
Soluções para o Paradoxo de Fermi: A vida se autodestrói

Um desdobramento da hipótese anterior. Segundo a ideia, sociedades tecnológicas têm, além da comunicação, meios de destruição em massa, e tendem a se aniquilar em pouco tempo – por isso não a encontramos. Os humanos dominaram o radiotelescópio mais ou menos na mesma época em que desenvolveram a bomba atômica, por exemplo. Philip Morrison, que trabalhou no Projeto Manhattan, era pessimista e apoiava essa hipótese. Carl Sagan, pacifista e otimista, acreditava que espécies avançadas poderiam alcançar estabilidade e prosperidade por, talvez, milhões de anos.

Em 2016, o cientista inglês Stephen Hawking e o bilionário russo-israelense Yuri Milner lançaram o Breakthrough Listen, uma iniciativa de US$ 100 milhões para buscar sinais usando radiotelescópios nos EUA e na Austrália.

Na Califórnia, o Allen Telescope Array é um conjunto de mais de 40 antenas que captam sinais de rádio do espaço. Ele foi fundado pelo Instituto Seti e custeado em grande parte por doações de Paul Allen, cofundador da Microsoft.

Há também esforços de Seti envolvendo o FAST, o maior radiotelescópio de uma única antena do mundo. Localizado na China, ele estuda principalmente os pulsares, tipos de estrelas de nêutrons altamente magnetizadas que giram rápido e emitem feixes intensos de radiação.

Em 2022, cientistas chineses disseram estar revisando sinais esquisitos detectados na antena, que poderiam ter origem inteligente. No fim, era só interferência de sinais de rádio da Terra.

Talvez, um dia, um desses esforços dê frutos e detectaremos, enfim, um sinal alienígena. Se esse dia chegar, o que fazer? Há um protocolo a ser seguido [veja no quadro abaixo]. Até lá, o Paradoxo de Fermi segue firme. E, na falta de uma detecção certeira que colocaria fim ao mistério, cientistas tentam encontrar uma explicação para desatar esse nó.

Infográfico O Dia D sobre o protocolo da Academia Internacional de Astronáutica para cientistas que encontrem sinais de vida alienígena inteligente. Apresenta seis passos: checar antes de anunciar, compartilhar com outros cientistas, divulgar com cautela, transparência total, proteção aos cientistas e nunca responder.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

Uma raridade

Várias hipóteses tentam responder ao Paradoxo de Fermi [espalhamos algumas delas nos quadros ao longo desta reportagem]. Elas se dividem, grosso modo, em dois grupos.

Algumas partem da ideia de que a vida extraterrestre existe e é abundante, mas especulam motivos pelos quais nós ainda não a encontramos. Outras, porém, são mais taxativas: não encontramos aliens simplesmente porque eles não existem – ou, pelo menos, são muito mais raros do que imaginamos.

Nessa linha, uma das soluções mais polêmicas para o paradoxo é a chamada Terra Rara. Proposta em 2000, com base em ideias que já circulavam antes, o raciocínio contradiz o pressuposto central da Seti ao afirmar que nosso planeta não é só mais um numa imensidão de mundos do cosmos. Ele seria especial, e, por isso, talvez o único a abrigar vida na Via Láctea.

Defensores dessa hipótese afirmam que, para a vida inteligente florescer, não basta um planeta rochoso com água líquida. Na Terra, os humanos só prosperaram graças a uma combinação singular de vários fatores específicos. Por exemplo: nosso planeta tem tectonismo (movimento de placas) intenso, o que, por sua vez, gera vulcanismo. Os vulcões são essenciais para a vida porque abastecem a atmosfera com carbono – o que, por sua vez, resulta no efeito estufa responsável por manter a temperatura quentinha e agradável. Não fosse isso, zero vida.

Além disso, orbitamos uma estrela de tamanho ideal. Se o Sol fosse muito maior, ele teria uma vida útil bem menor, e provavelmente morreria antes da evolução da vida complexa na Terra (das primeiras bactérias simples até os sapiens foram mais de 3 bilhões de anos).

O contrário também seria um problema. Caso o Sol fosse muito menor, precisaríamos estar mais perto dele para receber calor suficiente; o problema é que isso poderia causar o chamado “travamento de maré”, fazendo com que um lado do planeta ficasse sempre virado para o Sol, enquanto o outro estaria sempre oposto, como ocorre com a Lua em relação à Terra. Nesse ca so, um hemisfério seria um inferno em chamas; o outro, uma escuridão congelante. Nada amigável para a vida.

Há outros fatores que embasam a hipótese da Terra Rara: a presença da nossa Lua importa porque ela ajuda a estabilizar o eixo de rotação do planeta, garantindo estações mais previsíveis. Da mesma forma, a existência de Júpiter no sistema planetário pode nos proteger do impacto de muitos asteroides, o que contribui para o sucesso da vida. E assim por diante.

Os defensores dessa ideia dizem que a vida não deveria ser comum no Universo, como pensa a maioria dos entusiastas da Seti. Ela seria fruto de uma combinação raríssima, e talvez única, de fatores.

A ideia da Terra Rara, porém, é criticada por ser antropocêntrica demais, ou seja, pressupor que as condições que deram origem aos humanos são requisitos absolutos para todas as formas de vida.

“É uma hipótese com pouca liberdade de imaginação”, diz Alexey Dodsworth, doutor em bioética e especialista em astrobiologia. “Ela fica presa ao que conhecemos e transforma todos os acidentes que fizeram a gente ser o que é como se fossem fatores absolutamente necessários.”

Duas mãos cor-de-rosa seguram uma caixa de joias aberta, revelando um colar de contas roxas com um pingente de globo terrestre verde e azul no centro, com brilhos ao redor.

Soluções para o Paradoxo de Fermi: A Terra é uma exceção

Estruturada em 2000 pelo paleontólogo Peter Ward e pelo astrônomo Donald Brownlee, a Hipótese da Terra Rara questiona a própria essência do Paradoxo de Fermi. Para a dupla pessimista, a vida inteligente por aqui só existiu graças a um conjunto improvável de coincidências, e, portanto, deve ser raríssima lá fora. É uma hipótese ao mesmo tempo popular e polêmica. Críticos argumentam que ela apenas descreve o surgimento da vida na Terra – e que condições diferentes no cosmos podem levar à evolução de outras formas de vida.

Outra hipótese na mesma linha é a do Grande Filtro. Ela diz que o surgimento da vida simples pode ser até algo banal no Universo, mas o seu desenvolvimento até atingir níveis avançados de tecnologia e comunicação é mais desafiador. No meio do caminho, pode existir um ou mais filtros dos quais poucas formas de vida conseguem passar – e, portanto, civilizações inteligentes seriam raríssimas na Via Láctea.

Vários candidatos podem assumir o papel desse filtro. Por exemplo: talvez o nascimento de formas de vida simples seja comum, mas o surgimento de células eucariontes, com o material genético organizado num núcleo e com organelas celulares, seja algo raro. Na Terra, essa inovação deu origem às plantas, aos fungos, aos animais e a nós, claro.

Talvez a própria inteligência seja um funil. O biólogo Ernst Mayr, famoso crítico dos esforços de Seti, argumenta que, de bilhões de espécies que já existiram na Terra, apenas uma atingiu o nível tecnológico (nós). Para Mayr, a capacidade cognitiva avançada, capaz de criar e transmitir ondas de rádio, talvez não seja um estágio natural da vida, mas sim uma exceção que aconteceu com os humanos.

Contatos (nem tão) imediatos

Olhos de diferentes formatos e cores espiam por entre as frestas de uma persiana roxa, com uma corda de bolinhas pretas à esquerda.
<span class=”hidden”>–</span>Henrique Petrus/Superinteressante
Soluções para o Paradoxo de Fermi: Todos estão se escondendo

A Hipótese da Floresta Escura deve seu nome a um livro do chinês Liu Cixin, autor da saga O Problema dos 3 Corpos, que virou série na Netflix. É uma ideia simples: civilizações alienígenas temem outras sociedades avançadas da Via Láctea, que podem colonizá-las ou destruí-las. Por isso, todas ficam quietas, apenas observando o cosmos para não revelar sua própria existência. Não à toa, as consequências do contato interestelar é um tema muito explorado na ficção científica.

Várias outras hipóteses, por sua vez, concordam que civilizações alienígenas devem existir. Elas, então, tentam responder: “Cadê elas? Por que não estabelecem comunicação?”.

É possível que simplesmente tenhamos dado o azar de nascer numa área pouco badalada, um naco da Via Láctea que não chama a atenção de nenhuma outra civilização. Quem sabe, há impérios multiestelares em outras partes da galáxia…

Talvez as outras civilizações, sabiamente, estejam quietas de propósito. O medo é de ser encontrado por uma outra espécie mais avançada e potencialmente hostil, o que poderia levar à sua extinção.

Nós mesmos, ao longo dos últimos 50 anos, tivemos pouquíssimas iniciativas de Meti – a parte da Seti que envia mensagens para fora, em vez de tentar captar recados. Essa é uma área polêmica, desencorajada pela maioria dos cientistas devido ao risco de atrair perigo.

Se todo o cosmos segue esse raciocínio de preservação, então todos estão ouvindo, mas ninguém está falando. Isso explicaria o total silêncio que presenciamos.

Infográfico com 5 soluções menos ortodoxas para o Paradoxo de Fermi: A Terra é um zoológico; Guerra nas estrelas; Eles não ligam para nós; Tipo Matrix; Eles já estão aqui.
<span class=”hidden”>–</span>Cristielle Luise/Superinteressante

Seja qual for a sua resposta favorita, fato é que (ainda) não sabemos de nada. E há uma certa beleza na ignorância.

Se formos os únicos na Via Láctea ou até no Universo, isso torna tudo o que nos rodeia – a natureza, as artes, as emoções – ainda mais especial, verdadeiras joias exclusivas do cosmos.

Por outro lado, a possível destruição do nosso mundo, seja por guerras, mudanças climáticas ou outros problemas causados pela humanidade, fica ainda mais dramática e melancólica.

Agora, se não somos exclusivos, é ao mesmo tempo fascinante e estranho pensar que, neste momento, algum ser da constelação de Sagitário pode estar se questionando se nós, terráqueos, existimos.

Arthur C. Clarke, o mestre da ficção científica britânica e autor do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, resumiu em uma frase célebre: “Só existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no Universo ou não estamos. As duas são igualmente assustadoras”.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.