Como a musculação impacta o fígado? Estudo brasileiro encontra respostas
A doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD, afeta mais de 115 milhões de pessoas em todo o mundo. Trata-se, basicamente, do acúmulo de gordura no fígado causado por distúrbios metabólicos, como diabetes tipo 2 ou até mesmo a obesidade, que gera um acúmulo de e lipídios no fígado e interfere em seu metabolismo.
Uma das estratégias que ajudam no tratamento da MASLD é a musculação. Exercitar os músculos é capaz de provocar mudanças no fígado, reduzindo o acúmulo de gordura.
Embora essa relação já seja conhecida pela ciência, os pesquisadores ainda não haviam desvendado exatamente o mecanismo por trás dessa conexão. Pensando nisso, uma nova pesquisa brasileira, desenvolvida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), buscou entender o que acontece dentro das células do fígado quando fazemos musculação.
O estudo, publicado no periódico científico Life Sciences, deu um passo importante nessa direção: mostrou que a musculação é capaz de promover uma reprogramação molecular no fígado.
O foco dos pesquisadores era descobrir se a MASLD causada pela obesidade alterava o funcionamento dos genes. Para isso, eles realizaram um experimento com ratos obesos alimentados com uma dieta rica em gorduras. Parte dos animais permaneceu sedentária, enquanto outra foi submetida a um protocolo de exercícios de musculação. Depois, os dois grupos passaram por análises genéticas.
Após apenas oito semanas de treinamento, os pesquisadores identificaram uma metilação do gene MTCH2, envolvido no metabolismo energético do fígado e relacionado ao acúmulo de gordura. Calma, vamos traduzir: a metilação é um tipo de modificação que pode ocorrer nos genes sem alterar a sequência original do DNA. Ela consiste na adição de uma molécula química do grupo metil ao DNA, o que pode ativar ou inibir a expressão de determinados genes. Neste caso, inibiu o MTCH2.
É um processo complexo. Primeiro, a obesidade provoca inflamação nas mitocôndrias do fígado, estruturas responsáveis por produzir energia para as células. Com isso, o órgão passa a funcionar de forma desregulada, inclusive no controle do gene MTCH2, que fica em grandes concentrações.
A musculação, por outro lado, reduz essa inflamação e dá energia para o fígado, favorecendo a regulação do MTCH2. Dessa forma, a gordura acumulada diminui.
A revolução celular causada pela musculação não para por aí. O exercício também aumentou a quantidade da proteína ATP5, importante para a produção de energia nas mitocôndrias e mais um fator que contribui para regular o MTCH2. Outro efeito observado foi a redução da atividade de proteínas associadas à fibrose e ao crescimento celular descontrolado, processos que também são favorecidos pela obesidade.
Além disso, os pesquisadores perceberam que os roedores submetidos à musculação recuperaram a sensibilidade à insulina, característica que costuma ser perdida com o acúmulo de gordura no fígado. Sem responder adequadamente à insulina, o órgão continua produzindo glicose mesmo quando ela já está disponível no sangue, contribuindo para a hiperglicemia típica do diabetes tipo 2.
“Nossos achados fornecem novas evidências de que o exercício resistido promove a remodelação da sinalização mitocondrial e da insulina, reforçando seu potencial terapêutico no tratamento da obesidade”, escrevem os autores no estudo.
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