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Curiosidades

O que nos torna humanos quando as máquinas aprendem?

Durante muito tempo, acreditamos que aprender significava acumular conhecimento. Hoje, pela primeira vez na história, carregamos no bolso uma tecnologia capaz de responder praticamente qualquer pergunta em segundos.

A inteligência artificial escreve textos, resume livros, resolve problemas, organiza ideias e produz imagens. Ela faz em segundos tarefas que, antes, exigiam horas de trabalho. Mas, à medida que ela se torna cada vez melhor em produzir respostas, uma pergunta passa a importar ainda mais: afinal, o que continua sendo exclusivamente humano?

Ler no papel é melhor para o cérebro do que ler em telas?


Recentemente li uma entrevista sobre hospitalidade de luxo que me chamou a atenção. O entrevistado defendia que a verdadeira excelência não está nos mármores, nas estrelas Michelin ou na sofisticação visível de um hotel. Ela acontece “no momento em que alguém sente que o mundo parou, por um instante, só para ela”. Acho que a educação vive exatamente desse mesmo fenômeno.

Um professor pode observar três alunos cometendo o mesmo erro em matemática. O erro é idêntico. Mas sua origem, não. Um deles talvez ainda não tenha compreendido um conceito. Outro pode estar enfrentando uma dificuldade relacionada ao processamento visual. O terceiro talvez esteja apenas emocionalmente abalado por algo que aconteceu no recreio. Nenhuma inteligência artificial consegue inferir isso apenas olhando para a resposta errada. Ensinar nunca foi apenas corrigir respostas, e sim interpretar pessoas.

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Algo semelhante acontece quando um professor lê uma redação. Seu trabalho não consiste apenas em identificar erros gramaticais ou verificar se os argumentos estão corretos. Ele tenta compreender como aquele estudante está pensando. Que conexões está construindo. Onde sua ideia começa a ganhar forma. Onde ainda hesita. Onde existe uma centelha de originalidade que merece ser cultivada. Esse tipo de leitura não busca apenas melhorar um texto. Ela ajuda a formar uma pessoa.

Talvez por isso, uma das maiores contribuições da inteligência artificial para a educação seja nos obrigar a perguntar o que realmente significa aprender. Durante muito tempo, associamos aprendizagem à aquisição de informação. Mas informação nunca foi suficiente. Aprender é transformar a maneira como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

As pesquisas mais recentes sobre o uso da inteligência artificial nas escolas começam a apontar justamente nessa direção. O fator decisivo não parece ser a frequência com que os estudantes utilizam ferramentas de IA, mas o lugar que elas ocupam em seu processo de aprendizagem. Quando passam a substituir o esforço de compreender, em vez de ampliá-lo, os resultados tendem a ser piores. A tecnologia, por si só, não determina a qualidade da aprendizagem. A relação que construímos com ela, sim.

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Existe ainda outra dimensão que preocupa. Vivemos cercados por ferramentas capazes de oferecer respostas instantâneas e altamente personalizadas. Aos poucos, podemos começar a acreditar que aprender é uma atividade cada vez mais individual: eu, minha pergunta e uma máquina que responde.

Mas grande parte das capacidades que mais valorizamos como seres humanos nasce justamente do contrário. Elas surgem quando pensamos com outras pessoas.

Quando alguém desafia uma ideia que parecia óbvia. Quando uma conversa nos obriga a reconsiderar uma posição. Quando descobrimos nuances que jamais encontraríamos sozinhos. Quando percebemos que o outro enxerga o mesmo problema por um ângulo completamente diferente do nosso. Julgamento, criatividade, empatia e humildade intelectual dificilmente florescem no isolamento. Eles se desenvolvem no encontro.

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Esse processo é lento. Às vezes desconfortável. Frequentemente ineficiente. Mas talvez seja por isso que seja tão valioso.

Vivemos uma época obcecada por eficiência. Celebramos tudo aquilo que reduz tempo, elimina atritos e acelera resultados. A inteligência artificial faz isso extraordinariamente bem. Só que desenvolvimento humano não segue a mesma lógica.

Algumas das experiências que mais nos transformam exigem exatamente aquilo que a eficiência procura eliminar: tempo, incerteza, convivência, frustração, revisão de ideias e conversas difíceis. Talvez o maior desafio da era da inteligência artificial não seja preservar empregos ou competir com máquinas. Seja preservar as experiências que continuam formando seres humanos.

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A capacidade de sustentar atenção quando tudo nos convida à distração. De fazer perguntas que ainda não têm resposta. De mudar de ideia diante de bons argumentos. De construir significado junto com outras pessoas. 

Porque, no fim, as experiências que mais nos transformam raramente são aquelas em que alguém apenas nos entregou uma resposta eficiente. São aquelas em que nos sentimos verdadeiramente vistos — e também desafiados a pensar mais profundamente junto com os outros.

Anne Baldisseri é diretora da Avenues São Paulo e pós-doutoranda pela UNIFESP – Escola Paulista de Medicina.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.