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Curiosidades

Como o cérebro bilíngue processa regras de diferentes idiomas? Estudo traz pistas

Quando você fala uma língua desde pequeno, boa parte da gramática dela vira automática: não é preciso lembrar todas as regras antes de montar uma frase. Seu cérebro simplesmente sabe que “um gato” vira “dois gatos” no plural, ou que “eu comi” é o certo enquanto “eu comeu” soa bizarro.

Mas o que acontece quando uma pessoa fala duas línguas? Será que o cérebro cria um sistema separado para cada uma, como se tivesse uma “central gramatical” para o português e outra para o inglês, por exemplo? Ou existe uma única máquina capaz de lidar com todos os idiomas?

Um novo estudo publicado na revista JNeurosci indica que a segunda opção pode estar mais perto da realidade. Pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU) encontraram evidências de que pessoas bilíngues usam um mesmo mecanismo cerebral para aplicar regras gramaticais em idiomas diferentes.

Ou seja, uma pessoa que fala espanhol e inglês não parece ter um “departamento do espanhol” e outro “departamento do inglês” no cérebro para fazer certas operações gramaticais. O órgão aproveita uma mesma estrutura para os dois.

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Para entender o achado, primeiro é preciso falar sobre uma habilidade que usamos o tempo todo sem perceber: adaptar palavras ao contexto. É o que os linguistas chamam de “inflexão morfológica”, e consiste no processo de modificar uma palavra para indicar informações como quantidade, tempo ou gênero.

Quando você transforma “cachorro” em “cachorros”, está fazendo uma inflexão. O mesmo acontece quando muda “andar” para “andou”.

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Essa transformação existe em várias línguas, mas nem sempre acontece da mesma forma. Em português, por exemplo, a maioria dos plurais são feitos adicionando uma letra “s” no final, como “gato” e “gatos”. Em outros idiomas, a mudança pode envolver alterações no meio da palavra ou outras regras completamente diferentes.

Por causa dessas distinções, neurocientistas debatem há anos como o cérebro de pessoas bilíngues organiza as informações. Uma hipótese era que cada língua poderia depender de mecanismos próprios.

Outra ideia defendia que, depois de aprender uma regra geral, o cérebro poderia reaproveitar esse sistema em diferentes idiomas. O novo estudo testou exatamente isso.

Como o estudo foi feito?

Os pesquisadores recrutaram 23 pessoas altamente proficientes em inglês e espanhol. Todos os participantes tinham grande domínio dos dois idiomas: em média, relataram 96,4% de habilidade em espanhol e 98,4% em inglês em tarefas como falar, ouvir, ler e escrever.

Enquanto faziam um exercício de linguagem, eles tiveram a atividade cerebral monitorada por uma técnica chamada magnetoencefalografia (MEG). O método registra, em escala de milissegundos, os campos magnéticos gerados pela atividade dos neurônios. Isso permite acompanhar quase em tempo real o cérebro trabalhando.

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Os voluntários viam uma palavra na tela, como boat (“barco”, em inglês), e depois ouviam um comando. Se escutassem two (“dois”), tinham que transformar a palavra no plural: boats. Se recebessem outro comando, deveriam deixar a palavra no singular ou apenas repeti-la.

O teste foi montado para separar a regra gramatical em si de outras coisas que poderiam confundir o resultado. Afinal, transformar uma palavra também envolve som, memória e significado. Os pesquisadores queriam saber especificamente onde estava a “conta” feita pelo cérebro para aplicar a regra.

Os resultados mostraram que, ao fazer essas transformações, os participantes ativavam uma rede muito parecida tanto no inglês quanto no espanhol. Essa rede ficava principalmente em regiões frontais e temporais do lado esquerdo do cérebro, áreas tradicionalmente associadas ao processamento da linguagem.

Os padrões de atividade apareceram cedo, cerca de 100 milissegundos após o comando recebido pelos participantes. E, mais importante, eles se repetiam independentemente do idioma usado.

“Não era óbvio que o resultado seria tão igual”, disse Esti Blanco-Elorrieta, professora de psicologia e neurociência da NYU e autora sênior do estudo, ao New York Times. “Acho que este é um dos primeiros resultados detalhados sobre o quão verdadeiramente integradas duas línguas diferentes estão no cérebro.”

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Os cientistas fizeram ainda outros testes para eliminar explicações alternativas. Uma possibilidade era que o cérebro estivesse mostrando padrões parecidos porque algumas palavras em inglês e espanhol são parecidas. É o caso dos cognatos – palavras que têm origem, aparência e significado semelhantes nos dois idiomas.

Para testar isso, eles compararam diferentes tipos de palavras, incluindo termos sem essa semelhança e até “pseudopalavras”: combinações inventadas de letras que parecem palavras reais, mas não existem.

O raciocínio era: se o cérebro só estivesse reconhecendo palavras parecidas, o efeito deveria desaparecer quando surgissem termos totalmente novos.

Não foi o que aconteceu. Mesmo diante das pseudopalavras, os participantes ativaram o mesmo mecanismo gramatical. Isso sugere que o cérebro não estava apenas puxando palavras conhecidas de um “arquivo mental”, mas aplicando uma regra mais abstrata e geral.

Pense no exemplo de uma palavra inventada como “plom”. Mesmo sem nunca ter ouvido esse termo, um falante de português provavelmente consegue imaginar que o plural poderia ser “plons”. O cérebro não decorou essa palavra, ele aplicou um padrão.

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Implicações

A descoberta ajuda a explicar por que somos capazes de usar a língua de forma tão flexível. Não guardamos apenas uma lista gigante de frases prontas. Nosso cérebro aprende regras e consegue aplicá-las a situações novas.

Isso também pode ajudar a entender algumas misturas comuns feitas por pessoas bilíngues. Um falante de português aprendendo inglês, por exemplo, pode dizer “I have 20 years” (“eu possuo 20 anos”, numa tradução mais literal) em vez de “I am 20” (a forma correta de se dizer “eu tenho 20 anos”, mas cuja tradução palavra por palavra é “eu sou 20”). 

Esses cruzamentos não significam necessariamente que existem dois sistemas competindo dentro do cérebro. Eles podem refletir justamente o fato de que os idiomas estão profundamente conectados.

A descoberta combina com uma mudança maior na forma como os cientistas enxergam o bilinguismo. Segundo Judith Kroll, psicolinguista da Universidade da Califórnia em Irvine que não participou do estudo, pesquisas antigas costumavam tratar uma segunda língua como um “acréscimo” ou uma “interrupção” no processamento da língua materna, conforme explicou ao NYT.

Hoje, o cenário parece mais integrado. Estudos já sugeriram que o bilinguismo está associado a diferenças na estrutura e no funcionamento do cérebro. Agora, pesquisadores tentam entender melhor como uma mesma rede neural consegue dar conta de vários idiomas.

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Ainda existem perguntas em aberto. O próprio estudo analisou apenas falantes de inglês e espanhol, duas línguas que têm algumas semelhanças importantes na formação de plurais. Os autores destacam que pesquisas futuras precisarão verificar se o mesmo compartilhamento acontece entre idiomas com estruturas muito diferentes.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.