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Curiosidades

Por que alguns jogos cansam e outros restauram a mente?

*Manoel Acioli é doutor em psicologia e especialista em terapias gamificadas e RPG terapia.

Alguns jogos deixam a cabeça leve, quase silenciosa. Outros parecem esgotar completamente a energia mental. Terminamos a partida mais irritados do que quando começamos. 

A maneira como um jogo afeta a cabeça não depende apenas do seu tipo (videogames, tabuleiro, RPGs, apps de celular), mas de como ele organiza nossa atenção. E, claro, de quem está jogando.

Clair Obscur: Expedition 33 pode ser catarticamente energizante para uma pessoa e mentalmente devastador para outra. Uma sessão de It Takes Two pode gerar gargalhadas ou briga, dependendo de quem está no sofá. Uma campanha de Dungeons & Dragons pode deixar alguém renovado, enquanto outra pessoa termina exausta. 

A questão é a forma como o jogo estrutura a experiência mental de quem joga. E foi sobre isso que a ciência começou a encontrar novas respostas.

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Canseira

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Nos últimos anos, pesquisadores conseguiram explicar melhor um tipo de cansaço mental que muita gente conhece na prática: a sensação de cabeça cheia demais ou sobrecarga cognitiva.  

Um estudo de 2024 de Simon Hanzal, da Universidade de Glasgow, testou adultos em uma tarefa prolongada de atenção sustentada. Durante 20 minutos, os participantes precisavam responder rapidamente a uma sequência de números, mas inibir a resposta quando aparecia um número específico. O estudo mostrou que sustentar atenção por tempo prolongado aumentou a fadiga subjetiva, reduziu a sensação de energia e comprometeu a precisão das respostas.

Esse efeito apareceu tanto em pessoas com maior fadiga-traço (tendência mais duradoura ao cansaço) quanto em pessoas com menor fadiga-traço, embora a fadiga-estado (o cansaço momentâneo produzido pela tarefa), tenha sido especialmente importante para explicar a piora no desempenho. 

Em outras palavras: sustentar atenção por tempo prolongado cansa, e esse cansaço compromete o desempenho. 

A investigação de Caterina Pauletti, da Universidade Sapienza de Roma, também de 2024, foi além, mostrando que a fadiga mental afeta de forma distinta três redes atencionais: as de alerta, orientação e controle executivo. Os resultados indicam que o controle executivo, responsável por gerenciar conflitos e inibir respostas automáticas, foi o mais comprometido, com queda de precisão após esforço cognitivo prolongado. 

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O controle executivo é o mais acionado em jogos que exigem tomada de decisão constante, alternância de estratégia e gestão de múltiplas demandas simultâneas. 

Em 2025, Katherine Boere, da Universidade de Victoria, no Canadá, mediu a carga cognitiva com testes de tarefas únicas e tarefas múltiplas simultâneas. O esforço foi maior nas condições de multitarefa, acompanhada de maior ativação do córtex pré-frontal, região responsável pelo controle executivo, planejamento e inibição de respostas automáticas.

Essa é a lógica de jogos como Overcooked, em que o desafio não está apenas em “cozinhar rápido”, mas em alternar continuamente entre pedidos, tempo, ingredientes, deslocamento, comunicação e correção de erros. O jogo diverte porque transforma multitarefa em caos administrável, mas também mostra por que esse tipo de experiência pode ser mentalmente cansativo.

Os participantes do estudo cometeram mais erros e foram menos precisos quando precisavam alternar entre tarefas do que quando podiam se concentrar em uma só, reforçando a noção central: o desgaste cognitivo não vem de pensar muito. Vem de manter a mente em estado contínuo de alternância, vigilância constante e decisão muito rápida.

O que esses estudos revelam, em conjunto, é que a mente humana não se cansa da mesma forma diante de qualquer esforço. Manter foco contínuo em uma tarefa coerente é cognitivamente muito diferente de alternar atenção entre múltiplas demandas simultâneas. Acompanhar um ritmo previsível pesa menos do que monitorar um ambiente instável, cheio de estímulos que competem entre si.

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Essa distinção importa porque ela muda completamente a pergunta, que deixa de ser “esse jogo é pesado ou leve?” e passa a ser “que tipo de atenção ele exige?”.

Cena do jogo Clair Obscur: Expedição 33.©2025 Sandfall Interactive SAS – Publicado pela Kepler Interactive Limited./Divulgação

Sobrecarga vs. restauro 

Jogos que exigem multitarefa intensa, resposta rápida e vigilância contínua tendem a fragmentar nossa atenção porque a mente é puxada em várias direções ao mesmo tempo. Temos que observar as ameaças, checar recursos, antecipar consequências…Isso tem um custo. Ao final, essas demandas exigem uma pequena reconfiguração cognitiva, criando uma sensação de desgaste. 

Essa sobrecarga tem uma característica insidiosa: ela raramente aparece no momento em que acontece. Durante a partida, o engajamento é alto, a imersão pode ser intensa. Mas, a fadiga só aparece depois, ao fecharmos o jogo e percebermos que a nossa mente está mais agitada do que descansada. 

Isso acontece porque o cérebro, nesse modo de atenção fragmentada, permanece em estado de alerta mesmo sem mais nada para monitorar. Ele demora para “desligar” porque nunca entrou num fluxo coerente que pudesse, naturalmente, se encerrar. 

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Por outro lado, existem jogos que produzem o efeito oposto. São sistemas bem calibrados, que organizam a atenção em torno de um fluxo mais contínuo, permitindo que entremos em um estado em que pensar, agir e perceber resultados aconteçam de forma integrada. Há objetivos claros, ritmo compreensível e feedback consistente.

Descanso psicológico, é bom ressaltar, não significa ausência de atividade. Em muitos casos, o que restaura a mente é justamente entrar em uma atividade estruturada para interromper a dispersão interna e dar direção ao foco. Ao encontrar uma trilha clara, a atenção transforma a experiência subjetiva. O esforço deixa de parecer ruído e passa a ter direção. Continuamos pensando, decidindo e nos adaptando, mas agora dentro de uma moldura compreensível.

Outro fator decisivo é a previsibilidade. Com a identificação de padrões, o cérebro começa a antecipar o que vem a seguir, reduzindo a necessidade de controle constante e liberando recursos cognitivos. O jogo continua desafiador, mas o desafio ganha clareza. Existe uma lógica interna sustentando a experiência, e é essa coerência que permite ao jogador operar com mais eficiência e menos atrito. Em vez de vivermos num campo mental disperso, entramos num sistema em que pensar, agir e perceber resultados fazem mais sentido juntos. É por isso que terminamos certos jogos com a sensação de que a cabeça assentou, mesmo tendo feito esforço considerável.

Isso ajuda a explicar por que o mesmo jogo pode ser restaurador para uma pessoa e exaustivo para outra. A relação entre as demandas do jogo e a forma como cada mente organiza atenção, expectativa e controle é diferente para cada um. Para alguém, um jogo intenso pode funcionar como foco organizado. Para outra pessoa, pode ser apenas ruído. Entram aí fatores como familiaridade com o sistema, momento emocional, tolerância à incerteza, preferência por cooperação ou competição e nível de cansaço prévio.

Alguém esgotado por um dia de tarefas fragmentadas pode não querer um jogo que peça ainda mais alternância de foco. Pode-se beneficiar, ao contrário, de uma experiência mais integrada, em que a atenção encontre continuidade. 

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Por outro lado, há quem precise de jogos mais intensos para interromper o ruído mental de forma abrupta. O encaixe entre forma do jogo e estado da mente é o que define a experiência. Não existe um jogo universalmente restaurador. Existe uma relação entre o que o jogo exige e o que a mente precisa naquele momento.

Isso também significa que o mesmo jogo pode cumprir funções diferentes em momentos diferentes da vida de uma mesma pessoa. Em uma tarde de baixa energia, um sistema muito aberto pode parecer avassalador. Na semana seguinte, o mesmo sistema pode ser exatamente o espaço de exploração que faltava. A experiência não está apenas no jogo. Está no encontro entre o jogo e o estado mental de quem joga. Reconhecer isso é o primeiro passo para usar os jogos de forma mais consciente e, quando necessário, mais restauradora.

Mas que fique muito claro: um jogo que cansa não faz mal à sua saúde mental. Uma partida intensa de Battlefield 6, uma noite longa de Baldur’s Gate 3 ou uma sessão extensa de D&D podem deixar a mente cansada da mesma forma que um treino físico cansa o corpo, sem que isso implique qualquer prejuízo. O que importa, do ponto de vista da saúde mental, é o contexto: se o jogo é jogado com escolha, prazer e senso de controle, o perfil psicológico é muito diferente do mesmo jogo jogado de forma compulsiva ou como fuga.

Captura da tela do jogo Mario Tennis Fever.
Cena do jogo “Mario Tennis Fever”Nintendo/Reprodução

Jogar com consciência

Ao jogar, entramos em um ambiente onde ação, regra, obstáculo e consequência estão conectados de forma mais clara do que na maior parte da vida cotidiana. Na vida real, muitas vezes fazemos esforço sem perceber progresso, tomamos decisões sem saber ao certo suas consequências e lidamos com problemas sem borda definida. Nos jogos, em geral, isso muda. O sistema responde. O erro aparece. O acerto também. O progresso, quando existe, torna-se perceptível. Essa clareza tem um efeito psicológico direto: ela reduz a sensação de difusão e dá contorno à ação. Com a atenção operando com unidade, o cérebro trabalha de forma mais eficiente.

Basta comparar alguns jogos clássicos e atuais. Em Super Mario Bros, Tetris, Hades 2 ou Cuphead, a dificuldade pode ser alta, mas a atenção costuma se organizar em ciclos claros de tentativa, erros, leitura de padrão e execução. Já em jogos como StarCraft, The Sims, Fortnite ou Baldur’s Gate 3, a experiência costuma exigir monitoramento simultâneo de várias frentes: recursos, tempo, prioridades, ameaças, necessidades e consequências futuras.

No fim, o que importa é perceber como o jogo estrutura sua experiência mental: em um estado de atenção fragmentada ou em um modo mais coeso e integrado. E, talvez mais importante ainda, em quais momentos cada uma dessas formas de funcionamento se torna mais necessária. Saber o que um jogo faz com sua mente é motivo para jogar com mais consciência. E jogar com consciência é, em si, uma forma de cuidado.

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.