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Curiosidades

Silêncio extremo, 110 dB de ruído e laptop jogado 3 mil vezes no chão; como são os laboratórios da Dell

AUSTIN E ROUND ROCK, TEXAS – A Allbirds é uma marca de tênis que foi criada em 2015 e virou moda nos EUA durante algum tempo, chegando a US$ 4 bilhões em valor de mercado. Mas veio perdendo mercado e enfrentando uma crise, que culminou com a venda da empresa e o fechamento de suas lojas físicas. Só mais um caso normal de ascensão e queda no capitalismo moderno. O anormal foi o que a Allbirds anunciou em 15 de abril. Irá mudar de nome, para NewBird AI, e de setor: deixará de fazer tênis e passará a construir e operar datacenters de inteligência artificial, para alugá-los a outras empresas. Wall Street adorou – e as ações da NewBird AI dispararam 582% em apenas um dia.      

Mas essa transição insólita também causou espanto, e foi apontada como um exemplo nítido da famigerada bolha da IA: a onda desenfreada, e possivelmente insustentável, de construção de datacenters que tomou conta da economia americana. “Nós [os EUA] provavelmente estamos gastando um pouco demais em infraestrutura”, afirma Dan Stanzione Jr, diretor do Texas Advanced Computing Center (TACC), que fica dentro do campus da Universidade do Texas em Austin e opera um supercomputador, o Frontera, para uso acadêmico. 

Parte do supercomputador Frontera, custeado pela National Science Foundation (NSF) e operado pelo Texas Advanced Computing Center (TACC).Bruno Garattoni/Superinteressante

Stanzione afirma que, sim, o mundo está vivendo uma bolha da IA. Cita o exemplo da OpenAI, que vem tendo quase US$ 50 bilhões de prejuízo por ano, mas mesmo assim pretende investir US$ 1,4 trilhão em novos datacenters nos próximos anos. “Se você vai vender um chatbot [a versão paga do ChatGPT] por US$ 20 mensais, para levantar US$ 1 trilhão, quantas pessoas teriam de assiná-lo? 50 bilhões de pessoas?”

Para ele, mesmo o faturamento corporativo, de empresas que pagam para usar serviços de IA, não será suficiente para sustentar os investimentos. Stanzione compara a bolha da IA à das empresas “ponto com”, no começo da era moderna da internet (ela estourou em março de 2000, o que fez o índice de ações Nasdaq despencar 78% e levou à quebra de centenas de empresas). “E não vai dar para eles venderem todos esses computadores que estão comprando, daqui a quatro ou cinco anos, para pagar as dívidas, né. Porque as máquinas não terão mais valor”, diz ele, se referindo à depreciação causada pela obsolescência tecnológica. 

Fotografia das instalações da sede da Dell.
O TACC mantém um acervo com peças de supercomputadores antigos. Na foto, seu diretor mostra um dos pratos de um disco rígido da década de 1970 – que armazenava apenas 128 kilobytes.Bruno Garattoni/Superinteressante

Essa obsolescência também está alcançando o Frontera, que foi inaugurado em 2019 e chegou a ser o quinto supercomputador mais veloz do mundo. Por isso o TACC prepara um novo, que se chamará Horizon e deve ficar pronto este ano – assim como o antecessor, será formado por máquinas Dell. O Horizon irá custar US$ 457 milhões, e será composto por uma bateria de servidores que juntos reúnem 4 mil GPUs e 1 milhão de núcleos de CPU.

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Ele será o maior supercomputador acadêmico dos EUA, dez vezes mais rápido que o Frontera, e irá rodar simulações científicas envolvendo biologia, astrofísica, climatologia, física de materiais – e, claro, inteligência artificial. O Horizon deverá atender 10 a 15 mil pesquisadores por ano (eles se cadastram, por meio da National Science Foundation, para pedir tempo de uso da máquina). 

Fotografia da porta da sede da Dell.
Porta de entrada de um dos prédios da sede da empresa no Texas – com aviso sobre a proibição de portar armas.Bruno Garattoni/Superinteressante

O novo supercomputador irá ficar num datacenter em Round Rock, cidade de 120 mil habitantes a meia hora de Austin e sede global da Dell (onde estive, em abril, a convite da empresa). Cerca de 7.400 pessoas trabalham no complexo, que se parece às sedes de outras big techs americanas, exceto por dois detalhes. A vegetação robusta, adaptada ao clima texano, e um aviso em inglês e espanhol nas portas: “Não é permitido portar armas nas dependências da Dell”. O Texas é o estado americano com mais armas de fogo registradas (têm 1 milhão delas, sendo que 37% das famílias possuem armas).  

Em fevereiro, a Dell anunciou seus resultados financeiros do último ano fiscal: teve alta de 19% no faturamento, que alcançou US$ 113,5 bilhões. 45% desse dinheiro vem da divisão de “soluções ao cliente”, que inclui os PCs e notebooks vendidos pela empresa, e o resto da divisão de “infraestrutura”, que inclui os servidores.

A Dell está faturando alto com o frenesi da IA – então, naturalmente, ela não vai dizer que é uma bolha. “Há uma demanda sem precedentes por IA, e nós não estamos vendo sinais disso parar”, diz o executivo David Schmidt, responsável pelo setor de servidores da empresa. Mas, mesmo escolhendo as palavras com cuidado, ele deixa entrever alguma incerteza. “Haverá um ponto em que nós construímos todos esses datacenters, e aí, bom, estamos usando eles da melhor forma? Estamos fazendo a economia [viabilidade financeira] desses datacenters funcionar? Ou haverá uma necessidade por mais datacenters?”, reflete. 

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Além de turbinar o faturamento das empresas de hardware, a corrida da IA vem tendo outro efeito: causar uma escassez global de memórias, o que fez disparar os preços de memórias RAM e SSDs no último ano, porque toda a produção global desses componentes está indo para os datacenters de IA.

Isso afeta todo mundo, dos usuários domésticos -que já estão tendo de pagar mais caro por laptops e consoles de games- até centros de supercomputação como o TACC, bem como os próprios fabricantes de computadores, que vêm tentando se virar como podem. “Nós temos acordos de longo prazo, que nos garantem acesso a componentes”, diz Drew Schulke, responsável pela divisão de storage (servidores usados para armazenar dados) da Dell. Segundo ele, a escassez de SSDs começou a ficar “muito aguda” em outubro do ano passado, e “deve persistir ao longo de 2027, no mínimo”. Yikes.

O dia 13 de abril amanheceu com as ações da Dell disparando 7,6% por causa de um rumor: a toda-poderosa Nvidia (rainha dos chips de IA e atualmente a empresa mais valiosa do mundo, alcançando US$ 4,9 trilhões) estaria pensando em comprar uma fabricante de PCs e servidores, que poderia ser a Hewlett-Packard ou a Dell. A possibilidade foi levantada pelo jornalista Charlie Demerjian, um veterano da área de tecnologia, conhecido por ter boas fontes – e prontamente negada pela Nvidia.  

Mas ela não se deu ao trabalho de negar outro rumor: o desenvolvimento do chip N1, para laptops, que estaria sendo preparado pela Nvidia. Ele poderia mudar o equilíbrio de forças do mercado, hoje dominado pela Intel, e dar aos notebooks Windows uma arma poderosa para enfrentar os MacBooks – cujos processadores, desenvolvidos pela Apple, continuam imbatíveis na relação performance x consumo de energia. “Eu acho que algumas das coisas que eles [a Nvidia] estão olhando, mais para o futuro, eu não tenho certeza de todos os detalhes. Vamos ver”, desconversa Zach Noskey, diretor de laptops corporativos da Dell. 

Fotografia de maquinas da Dell ao9 longo dos anos.
Acervo com alguns dos computadores lançados pela Alienware, que foi comprada pela Dell em 2006.Bruno Garattoni/Superinteressante
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O N1 poderá ser revelado pela Nvidia em junho, na feira de tecnologia Computex. Se o chip de fato existir, a Dell provavelmente já tem protótipos de laptops com o N1 rodando em algum canto de Round Rock. Durante a visita à sede, ela mostrou o mock-up (modelo de plástico, ainda sem peças dentro) de um notebook da sua linha Alienware, para games, que será lançado nos próximos meses. Deverá vir equipado com uma CPU tradicional, mas aponta um novo caminho de design para a marca, pois é fino, relativamente leve e discreto (bem diferente dos notebooks gamer, que costumam ser grandes, pesados e espalhafatosos). A Dell comprou a Alienware em 2006.  

laptop submetido a teste de desgaste
Laptop submetido a teste de corrosão com água salgada, em câmara específica para isso (à esquerda).Bruno Garattoni/Superinteressante

Ao entrar no Rugged Lab, laboratório onde a resistência dos laptops Dell é testada, chama a atenção um forte barulho de pancadas. Vem de uma máquina onde um braço robótico está pegando, e derrubando de propósito, um notebook da linha rugged (“robusta”, em inglês). Ela reúne modelos reforçados, que são revestidos por algo que lembra borracha e usados pela polícia e pelo exército, bem como em ambientes duros – plataformas de petróleo, por exemplo. São projetados para aguentar muita coisa.

Fotografia das maquinas da sede da Dell.
Braço robótico levanta notebook (à esquerda) e o solta (à dir.), provocando uma queda de 1 metro de altura – repetida mais de 3 mil vezes.Bruno Garattoni/Superinteressante

Mesmo assim, sinto pena ao ver a pobre máquina sendo torturada, e pergunto a um dos funcionários quantas vezes será derrubada. “Até ela quebrar”, diz, com um sorriso, o engenheiro de testes Gary Corpuz, responsável pelo laboratório. Segundo ele, a máquina será submetida a 3 mil quedas, inspecionada, e então o teste recomeçará. “O objetivo do laboratório é quebrar os nossos designs”, afirma. “Eu peso 102 quilos”, conta seu colega Jonathan Rover, um americano alto e corpulento, enquanto pula em cima de outro laptop.

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Os dois parecem se divertir bastante submetendo as máquinas a condições extremas, que incluem pancadas, quedas, submersão, jatos de água doce e salgada e câmaras térmicas que alcançam 70 graus positivos e 51 negativos – elas funcionam conectadas a um enorme tanque de nitrogênio líquido do lado de fora do prédio. 

Fotografia das instalações da sede da Dell.
Câmara semi-anecoica utilizada para medir o nível de ruído gerado por servidores.Bruno Garattoni/Superinteressante

O próximo laboratório, de acústica, é o completo oposto: lugar calmo e marcado por um silêncio extremo. É que dentro dele há quatro câmaras anecóicas: três menores, do tamanho de salas pequenas, e uma bem grande, com 194 metros cúbicos.

As paredes desses ambientes são revestidas por peças brancas cheias de espuma acústica que absorve quase todo o som, impedindo que ele reflita nas paredes – daí a expressão anecoica, ou seja, “sem eco”.

As câmaras da Dell são do tipo semi-anecoico, pois seu chão é normal (numa câmara totalmente anecoica, até o chão é coberto pelas peças, e você anda sobre uma plataforma). Mas elas são avançadas o suficiente para reduzir drasticamente o nível de ruído ambiente – que, dentro da câmara principal, é de apenas 5 decibéis.

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É um nível radical de silêncio, que não existe na natureza. Numa biblioteca, por exemplo, o ruído é de pelo menos 20 dB, e numa igreja silenciosa ele começa em 30 dB (os decibéis são medidos em escala logarítmica, e a intensidade percebida do som dobra a cada 3 dB). Ou seja, um ambiente com apenas 5 decibéis realmente é algo de outro mundo. Parece um “buraco negro” sonoro, onde não há nada além dos sons do seu próprio corpo. Uma sensação estranha e sublime ao mesmo tempo.

Fotografia das instalações da sede da Dell.
Servidor pronto para o teste de acústica, que inclui um microfone especial em formato de cabeça (à esquerda)Bruno Garattoni/Superinteressante

A Dell usa as câmaras semi-anecoicas para emitir o nível de ruído gerado por seus PCs, laptops e especialmente servidores – que, como todas as máquinas do tipo, podem gerar quantidades colossais de barulho. Ao entrar no datacenter experimental mantido pela empresa na sede, onde ela testa seus servidores, é necessário colocar protetores nos ouvidos. No ponto mais barulhento do datacenter, no meio das fileiras de servidores, o ruído chega a espantosos 110 decibéis, o equivalente a um show de rock – e suficiente, segundo o National Institutes of Health, para causar dano auditivo após 2 minutos de exposição. 

Impressionado pelo barulho, pergunto ao engenheiro de sistemas Brendan Hanlon, anfitrião da visita ao datacenter, qual foi o nível máximo de ruído que ele já experimentou ali. Hanlon conta que, quando precisa ficar mais do que alguns minutos no ambiente, usa fones com cancelamento de ruído por cima dos protetores auditivos de espuma. E dá a entender, rindo, que eu não vi -ou melhor, ouvi- nada ainda. “Quando nós instalamos os [servidores Dell PowerEdge] 9680 aqui, teve um bug que deixava as fans [ventoinhas] rodando a 100%. Parecia um avião.” 

O jornalista viajou a convite da Dell. 

 

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augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.