Estudo com sangue de pítons pode abrir caminho para novos medicamentos contra a obesidade
Remédios como Wegovy e Ozempic têm sido amplamente utilizados para o emagrecimento. Ambos possuem a semaglutida como princípio ativo, que reproduz a ação do hormônio GLP-1, o responsável por sinalizar a saciedade. Enquanto o GLP-1 dura apenas alguns minutos, a semaglutida possui um efeito prolongado, reduzindo o apetite por longos períodos e levando à perda de peso.
O uso crescente desses medicamentos, porém, tem preocupado cientistas ao redor do mundo, principalmente devido aos seus efeitos colaterais. Wegovy e Ozempic já foram associados a náuseas, vômitos, constipação e até a um maior risco de problemas de visão em pesquisas recentes (vale ressaltar: sempre consulte um médico de confiança antes de começar a usar).
É um mercado com cada vez mais opções de substâncias e formas de administrá-las (via oral em vez de injeções, por exemplo). E um novo estudo, publicado no periódico científico Nature Metabolism, mostra que novas opções contra a obesidade podem estar dentro de animais inusitado. No caso, a píton birmanesa (Python bivittatus).
A descoberta surgiu a partir de um estudo sobre o metabolismo desses animais, que conseguem engolir presas inteiras de uma só vez – algumas, inclusive, maiores do que seu próprio peso. Depois disso, ficam meses (em alguns casos, mais de um ano) sem se alimentar. As pítons birmanesas podem ultrapassar os 5 metros de comprimento e pesar 100 quilos.
E não para por aí. Logo após a alimentação, seus órgãos, incluindo o coração, aumentam de tamanho em até 50%. Já o metabolismo acelera em até quatro mil vezes. Isso acontece para que a cobra consiga dar conta de digerir uma enorme quantidade de alimento, que a sustentará por longos períodos.
Para entender os mecanismos por trás desse processo, foi analisado o sangue de pítons jovens antes e depois de uma refeição equivalente a 25% do seu peso corporal.
Os cientistas observaram que, após a alimentação, centenas de moléculas associadas ao metabolismo (metabólitos) aumentam de concentração no sangue. O fenômeno era ainda mais drástico para uma dessas moléculas, a pTOS (para-tiramina-O-sulfato), presente também na urina humana, que aumentou em mais de mil vezes. Essas elevações estão também ligadas ao intenso processo digestivo, que demanda energia e estimula a atividade celular, fazendo com que as moléculas se multipliquem mais do que o comum.
Ao identificarem a imponência do pTOS no metabolismo, os pesquisadores testaram a molécula em ratos obesos. O resultado? perda de peso. Os animais passaram a comer menos e emagreceram rapidamente, perdendo cerca de 9% do peso corporal em 28 dias. Não foram observadas mudanças no tamanho dos órgãos nem no gasto energético e tampouco os efeitos colaterais comuns dos medicamentos atuais.
A principal alteração ocorreu no apetite e nos hábitos alimentares, efeito semelhante ao do Wegovy e Ozempic. Apesar disso, o funcionamento é bem diferente. Enquanto a semaglutida atua retardando o esvaziamento gástrico, o pTOS age diretamente no cérebro, na região responsável pelo controle do apetite.
Ocorre da seguinte forma: bactérias do intestino das pítons quebram a tirosina, um aminoácido presente nas proteínas, gerando o pTOS. A molécula segue então para o hipotálamo, onde ativa neurônios ligados à regulação da alimentação.
Agora, a expectativa é verificar se a substância pode ser segura e eficaz em humanos e, no futuro, servir como base para novos tratamentos contra a obesidade.
Os pesquisadores acreditam que o corpo humano não reagirá negativamente à molécula, já que ela também está naturalmente presente em nosso organismo. Inclusive, o estudo analisou o sangue de seis voluntários saudáveis antes e depois de uma refeição. Em cinco deles, os níveis de pTOS aumentaram de duas a cinco vezes após comer.
Em alguns casos, porém, esse aumento foi ainda maior, chegando a mais de 25 vezes, com concentrações semelhantes às observadas nas pítons.
Cobras: uma farmácia ambulante
Essa não é a primeira vez que cobras demonstram potencial para o desenvolvimento de medicamentos.
Componentes do veneno desses animais já foram utilizados na criação de medicamentos para pressão arterial e anticoagulação. Um dos exemplos mais conhecidos é o captopril, usado no tratamento da hipertensão e desenvolvido a partir de estudos com o veneno da jararaca brasileira.
Mais recentemente, em 2024, pesquisadores da Unifesp e do Instituto Butantan identificaram peptídeos nos venenos da jararaca-de-barriga-preta e da surucucu, com potencial anti-hipertensivo, que ainda está em investigação.
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