Milagrito: o coração mexicano que atravessou a colonização
Você provavelmente já se deparou com o “coração mexicano”, um símbolo icônico da cultura popular do país, comum em feiras de artesanato, estampas e souvenires e amplamente reproduzido na internet. Basta dar uma passada no Pinterest para encontrar esses coraçõezinhos coloridos.
Conhecido como milagrito, ele pode ter vários tamanhos e ser feito de diferentes materiais, como latão, bronze, outros metais, madeira, barro, tecido e por aí vai. Pode ser pendurado na parede, usado como acessório, amuleto de boa sorte… é o queridinho dos turistas.
Porém, mais do que um enfeite bonito, esse coração está profundamente enraizado na vida religiosa mexicana. Sua história começa no período colonial e envolve uma mistura complexa entre tradições trazidas pelos colonizadores espanhóis e práticas religiosas dos povos indígenas do território que hoje chamamos de México. Bora entender?
Os espanhóis trouxeram consigo a tradição dos “ex-votos”, muito presente na Idade Média. A prática consistia em oferecer objetos a santos e divindades como forma de pedir um milagre ou agradecer por uma pedido cumprido.
Esses ex-votos representavam partes do corpo humano – pulmões, corações, braços, pernas –, além de animais ou objetos. Cada forma correspondia a um pedido específico. Ah, também podiam ser imagens pictóricas, que hoje são fontes valiosas para os historiadores.
O costume foi levado às colônias, principalmente em sua versão feita de metais, e apropriado pelos povos indígenas mesoamericanos, que ocupavam o território do atual México. A representação de partes do corpo dialogava com suas próprias tradições religiosas, que incluíam rituais de sacrifício humano como oferenda aos deuses.
Os milagritos são um exemplo do sincretismo da colonização mexicana, que, de forma violenta, promoveu a fusão entre crenças locais e o catolicismo imposto pelos colonizadores. Fruto desse processo, eles se consolidaram na vida religiosa.
A partir daí, a história fica um pouco imprecisa. Não se sabe exatamente quando nem onde, mas os milagritos passaram a integrar o artesanato folk e a arte popular mexicana, tornando-se verdadeiros símbolos nacionais e não exclusivamente religiosos.
Ganharam cores vibrantes, novos materiais e diferentes desenhos, e o coração se consolidou como o formato mais famoso. Ele pode aparecer atravessado por flechas, envolto em chamas, coroado, com olhos ou outros elementos decorativos.
Mas por que justamente um coração? Mesmo sem respostas definitivas, sabemos que o órgão ocupa um lugar central tanto para os cristãos evangelizadores quanto para os povos indígenas.
Para as culturas mesoamericanas, o coração era essencial à sua cosmovisão (palavra chique que quer dizer “forma subjetiva de entender o mundo”). Ele representava a vitalidade e a força humana e, por isso, muitos rituais envolviam sua extração como oferenda aos deuses. Já para os cristãos, o coração remete ao Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor, da piedade e do sacrifício divino.
Embora não seja possível afirmar que os milagritos resultem diretamente da fusão desses dois corações, o símbolo se tornou uma tradição própria. Por trás dos coraçõezinhos vibrantes, há uma bela aula sobre o processo de colonização, que produziu um cotidiano marcado pelo sincretismo.
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