Roblox: entenda o que está por trás dos protestos na plataforma
Com cartazes em riste e roupas espalhafatosas, cidadãos tomaram as ruas da pacata Brookhaven em protesto contra as novas políticas de verificação de idade anunciadas pela Roblox Corporation, no dia 7 de janeiro.
Os atos chamaram atenção não apenas pela pauta, mas sobretudo pela forma como aconteceram: usuários do Roblox, em sua maioria crianças e adolescentes, ocuparam a plataforma de jogos para reivindicar, com placas e caminhões, o direito à liberdade de expressão. Tudo em pixels, numa cidade fictícia dentro do ambiente virtual.
Fotos das mensagens escritas pelos jogadores tomaram as redes sociais: “Quero injustiça”, “O fim do Roblox está próximo”, “Afasta de nois esse cale se pai”, “Não tem chat? Que usem as placas”.
to me acabando com esse protesto do roblox pic.twitter.com/XQhdQd909r
— rafa. (@raf4aell) January 13, 2026
Tag yourself: quem é você no protesto de placas dos mirins do Roblox contra o Felca? pic.twitter.com/7ieIil7nBZ
— Camarote da República (@camarotedacpi) January 16, 2026
Com o novo regulamento, os sistemas de chat de texto e voz, que permitiam a comunicação entre todos os usuários conectados no mesmo servidor de um jogo, passaram a funcionar sob novas restrições etárias.
Agora, o recurso só se torna acessível após uma etapa de verificação de idade. Além disso, a comunicação é restrita a faixas de idade próximas – nada de criança conversando com adulto. Foi por conta do bloqueio do chat que os protestos aconteceram com placas (objetos customizáveis dentro da plataforma).
Lançado em 2006 e com mais de 150 milhões de usuários ativos por dia, o Roblox não é exatamente um videogame. Trata-se de uma plataforma de interação via avatares que permite criar novos mundos (e jogos dentro deles).
No alvoroço das manifestações, sobrou também para o influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca. No dia 15 de janeiro, ele revelou ter recebido ataques de crianças em suas redes sociais.
eu to sendo atacado por crianças na minha dm por conta que o roblox tirou o chat de voz pic.twitter.com/b0e3qfCQal
— Felca (@Felcca) January 15, 2026
A motivação é indireta. Acontece que, em 2025, Felca publicou um vídeo de repercussão nacional no qual denunciava a exploração de crianças para a criação de conteúdo para a internet – muitas vezes de teor adulto. E esse assunto dialoga com alguns problemas recentes envolvendo o Roblox, onde 56% da base de usuários tem menos de 16 anos.
A plataforma tem sido alvo de uma série de acusações envolvendo casos de exploração sexual e aliciamento de crianças. Em 2025, por exemplo, a empresa foi processada pelos procuradores gerais de três estados nos EUA – Louisiana, Texas e Kentucky – por supostamente falhar em proteger seus usuários de abusadores. Na Flórida, a companhia foi alvo de uma intimação judicial pelos mesmos motivos.
Crianças e adolescentes na internet
As novas regras do Roblox chegam em um momento no qual países do mundo inteiro têm endurecido suas legislações sobre o acesso de crianças à internet.
No Brasil, a mudança procura adequar a plataforma aos termos do novo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA), sancionado em setembro. A lei atualiza o ECA diante dos novos contextos online, visando criar proteções contra conteúdo nocivo, cyberbullying e exploração sexual – e estabelece obrigações às plataformas em relação a mecanismos de verificação de idade e supervisão parental.
O governo federal determinou que empresas de tecnologia como a Roblox Company, o TikTok e a Epic Games – dona do Fortnite, outro jogo popular entre as crianças – teriam até o dia 13 de fevereiro para apresentar as medidas para adequar suas plataformas aos termos da nova legislação.
Em dezembro, a Roblox Company implementou uma fase piloto do novo regimento em alguns países – Austrália, Nova Zelândia e Holanda. O Roblox havia ficado de fora das novas restrições do Ato de Segurança Online da Austrália, que, no mesmo mês, proibiram que menores de 16 anos criassem contas em plataformas digitais como o Instagram e o TikTok.
Conexões confiáveis
As novas políticas de verificação de idade do Roblox foram anunciadas pela primeira vez em julho de 2025. O carro-chefe do novo regulamento são as “Conexões Confiáveis”, uma nova categoria dentro do sistema de amizades da plataforma que distingue as conexões feitas exclusivamente dentro da plataforma das amizades entre jogadores que já se conhecem fora das telas.
A funcionalidade remove os filtros de linguagem nas conversas entre usuários maiores de 13 anos, e só é acessível após um processo de checagem de idade. Via de regra, basta mostrar o rosto para a câmera do celular, virar a cabeça para o lado e para o outro e esperar até uma inteligência artificial concluir qual a sua idade aproximada. A verificação também pode ser feita escaneando uma carteira de identidade ou mediante autorização dos pais.
Feito isso, o usuário só pode conversar com faixas de idade próximas à sua faixa estimada. Menores de 9 anos só podem conversar com pessoas de até 13 anos, adolescentes entre 13 e 15 anos ficam restritos ao chat com pessoas entre 9 e 17. Maiores de 21 só conversam com maiores de 18.
Ao revelar as mudanças, a Roblox Company afirmou que o sistema de checagem ficaria a cargo de outra empresa, a Persona, especializada em serviços de verificação de identidade. De acordo com a plataforma, os vídeos usados para a checagem seriam deletados imediatamente.
No entanto, preocupações em relação à transparência e o armazenamento de dados faciais das crianças e adolescentes ainda permeiam a implantação do novo sistema. Além disso, é comum que sistemas de verificação de idade façam estimativas erradas.
Na internet, usuários do Roblox têm relatado erros grosseiros, com crianças inseridas nas faixa dos adultos e adultos sendo colocados entre os adolescentes. Além disso, também têm circulado vídeos de crianças burlando o sistema de verificação – desenhando uma barba com canetinha ou apontando a câmera para uma fotografia de outra pessoa.
Em casa, a irmã deste repórter teve a idade estimada entre 13 e 15 anos. Ela tem 11.
Todos esses casos, por mais impressionantes que possam parecer, ainda são relatos isolados. Sem dados robustos, é difícil saber se representam apenas anomalias pontuais ou se os erros são múltiplos o suficiente para colocar em cheque a confiança no sistema.
Na esteira das novas restrições em redes sociais para menores na Austrália, um relatório com dados de 60 tecnologias de verificação de idade afirmou serem comuns erros de até dois ou três anos nas estimativas. O problema é quando essa diferença, a princípio inofensiva, pode colocar crianças numa faixa etária completamente diferente.
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