Por que algumas cobras evoluíram para serem canibais
Canibalismo. Seria correto chamar esse tópico de polêmico? Para nós, humanos, é provável que não. A polêmica pressupõe alguma discordância entre as partes, e é difícil achar hoje alguém que não olhe torto para quem faz lanche com picadinho de gente.
Porém, se as serpentes argumentassem, elas estariam no meio de uma grande controvérsia. Hoje, existem mais de 4 mil espécies desses répteis espalhadas pelo mundo, e, dos registros que existem, pelo menos 207 delas podem ser canibais.
É o que revela um estudo recente publicado no periódico Biological Reviews, feito por pesquisadores brasileiros. Trata-se da revisão mais compreensiva sobre o comportamento canibal entre as serpentes. Os autores analisaram 503 casos documentados desde 1892, procurando entender com que frequência e por quais motivos algumas cobras devoram umas às outras.
O canibalismo – ou seja, o ato de se alimentar de outro membro da mesma espécie – é algo comum e bem documentado entre muitas espécies do reino animal, desde peixes, insetos e salamandras até falcões e chimpanzés. Enquanto para nós a prática é um tabu, o canibalismo pode trazer uma série de benefícios aos outros animais. As louva-a-deus fêmeas, por exemplo, são famosas por devorar seus machos após o coito, algo que serve para aumentar a produção de ovos.
Para as cobras não é muito diferente. Esses animais, com seus venenos imobilizantes e bocas que abrem mais que o tamanho da própria cabeça, são predadores muito bem equipados para devorar uma grande parcela do reino animal. Isso inclui, também, outras cobras: a espécies ofiófagas se alimentam de outras serpentes, geralmente de uma espécie distinta da sua. Mas não só.
Algumas espécies, como a Jiboia-vermelha, encontram a energia para criar seus filhos favoritos comendo o restante de suas próprias ninhadas. Esse é o chamado canibalismo materno, que acontece quando animais comem seus próprios ovos para proteger os filhotes mais viáveis de doenças ou predadores.
Já para as sucuris-verdes, o canibalismo é sexual. Suas fêmeas, que são bem maiores que os machos, costumam copular com vários parceiros ao mesmo tempo, e por vezes aproveitam para devorar alguns de seus namorados. Essa estratégia pode servir tanto para diminuir a competição entre o esperma dos parceiros como para garantir uma reserva de energia depois do acasalamento.
No decorrer da evolução das diferentes espécies de serpente, os cientistas identificaram 11 casos em que o comportamento canibal surgiu de maneira independente. No todo, os registros mostraram casos de cobras canibais em todos os continentes em que esses animais existem (o único continente que não tem cobras é a Antártida).
Entre os registros analisados, três famílias de cobra apareceram mais que as outras: Colubridae, Viperidae e Elapidae. Para os colubrídeos, que, apesar de raramente comerem outras cobras, constavam em 29% dos registros, a causa mais provável para esse tipo de comportamento eram estressores como a falta de fontes melhores de comida. Já no caso das víboras, que estão em 21% dos registros, a maioria só se devorou dentro de cativeiros, quando estavam confinadas e sem comida. Por fim, os elapídeos, com 19% dos casos, são espécies ofiófagas – ou seja, o canibalismo já fazia parte da dieta.
O fator que mais se correlacionava com a dieta canibal era, na verdade, bem simples: o tamanho da abertura da boca e da presa. Em outras palavras, se cabe na boca, é porque dá pra comer. Espécies com bocas que abrem menos, como as cobras-cegas, acabaram sendo as menos canibais. Além disso, quanto maior era a cobra, mais energia ela tinha, e maior a chance de ser devorada por uma colega de espécie.
O estudo tem suas limitações. 43% dos registros eram de animais em cativeiro, e 29% não especificava nenhum contexto. É possível que o comportamento dos animais na natureza funcione sob regras um pouco diferentes, mas o estudo abre uma porta para outras pesquisas que procurem entender melhor por que há tanta cobra engolindo cobra.
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