O suor dos turistas desbota as pinturas do teto da Capela Sistina, que passa por restauração
No coração do Vaticano, milhões de turistas levantam os olhos todos os dias para admirar uma das pinturas mais famosas da história da arte. Ao longo de cinco séculos, porém, essa multidão deixou marcas inesperadas.
O suor e a respiração dos visitantes contribuíram para formar uma película esbranquiçada sobre o afresco O Juízo Final, de Michelangelo, na parede do altar da Capela Sistina. Agora, a obra passa por uma nova etapa de limpeza e conservação, a primeira em cerca de 30 anos.
A manutenção começou em 1º de fevereiro, com a montagem de um grande andaime que cobre toda a superfície da pintura. Durante aproximadamente três meses, restauradores dos Museus do Vaticano irão remover os depósitos acumulados sobre o afresco.
A pintura foi concluída por Michelangelo em 1541 e ocupa cerca de 180 metros quadrados da parede atrás do altar. A cena representa a chamada Segunda Vinda de Cristo, uma crença do cristianismo segundo a qual Jesus retornará no fim dos tempos para julgar toda a humanidade.
Na pintura, Cristo aparece no centro, cercado por santos, enquanto as almas humanas são separadas entre aquelas que sobem ao céu e as que são condenadas ao inferno.
Ao todo, são 391 personagens. A obra foi encomendada em 1533 pelo papa Clemente VII e executada entre 1536 e 1541, já durante o pontificado de Paulo III.
Ao longo dos séculos, o mural foi exposto a diversos fatores que afetam sua conservação. O mais recente deles vem justamente do grande número de visitantes que passam diariamente pela capela. Mesmo com limites atuais de cerca de 24 mil pessoas por dia, o fluxo ainda cria condições ambientais que alteram lentamente a superfície da pintura.
Isso ocorre porque o suor humano – cujos níveis estão aumentando devido às mudanças climáticas – contém ácido lático. Quando esse composto evapora no ar da capela, ele pode reagir com o carbonato de cálcio presente no reboco da parede onde o afresco foi pintado. A reação produz lactato de cálcio, um sal cristalino branco que se deposita sobre a superfície da pintura.
Com o tempo, essa camada forma uma espécie de véu opaco que diminui o brilho das cores e reduz o contraste entre luz e sombra.
A própria arquitetura da parede também contribui para o problema. Segundo os Museus Vaticanos, Michelangelo projetou a parte superior da parede levemente inclinada para fora para melhorar a visibilidade da pintura a partir do chão. Esse formato acaba favorecendo o acúmulo do vapor que sobe da multidão, aumentando a deposição dessas partículas.
Como mencionado, o mural já havia passado por uma grande restauração no final do século 20. A limpeza concluída em 1994 revelou cores muito mais vibrantes do que se imaginava antes. A intervenção foi considerada um marco na compreensão da paleta de Michelangelo.
Nos anos seguintes, equipes de conservação realizaram pequenas limpezas noturnas em outras partes da Capela Sistina, como as paredes laterais e cenas pintadas por artistas do século 15. O Juízo Final, no entanto, ficou fora dessas intervenções mais recentes até agora.
Como funciona a limpeza?
A nova operação se concentra especificamente na remoção da película de sal que se formou. Os restauradores utilizam papel japonês conhecido como papel washi, feito de fibras vegetais e altamente absorvente.
O procedimento começa com a aplicação de folhas desse papel diretamente sobre a superfície do afresco. Em seguida, os especialistas passam um pincel com água desmineralizada sobre o material. A água atravessa o papel e dissolve os cristais de sal presentes na superfície da pintura. Quando o papel é removido, o depósito branco adere a ele. Confira:
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Apesar da simplicidade do método, o trabalho exige cuidado extremo. Cada parte do mural precisa ser tratada lentamente, figura por figura. Ao todo, cerca de 30 profissionais participam da intervenção, entre restauradores, cientistas e técnicos especializados.
O trabalho ocorre em um sistema de andaimes que chega a sete níveis de altura, a cerca de 20 metros do chão. Dali, os especialistas conseguem observar detalhes quase invisíveis para quem está no piso da capela. Muitas vezes, esse contato direto com a obra revela aspectos inesperados da técnica de Michelangelo.
“A cada trabalho, descobrimos novos detalhes de sua técnica – como ele raciocinava, como resolvia questões de volume e desenho”, afirmou Angela Cerreta, vice-chefe de restauração dos museus, em entrevista ao Religion News Service. “À medida que removemos gradualmente esse véu branco e enxergamos as coisas com mais clareza, sempre notamos algo novo. A emoção continua, todos os dias.”
Mesmo com os cuidados atuais, os especialistas sabem que o problema pode voltar no futuro. A Capela Sistina recebe milhões de visitantes todos os anos, e o impacto humano sobre o ambiente é difícil de evitar completamente.
Segundo Giandomenico Spinola, diretor artístico-científico adjunto dos Museus do Vaticano, é provável que intervenções semelhantes precisem ser repetidas periodicamente. “Esse problema pode voltar a ocorrer daqui a 20 anos, e por isso não devemos mais tratá-lo como um evento extraordinário, mas talvez como algo rotineiro”, disse ele ao Telegraph.
Equilibrar conservação e acesso público é um dos principais desafios do Vaticano. A capela, além de museu, continua sendo usada em cerimônias religiosas e no conclave que elege novos papas. Todos os anos, pontífices também realizam ali cerimônias de batismo.
Mesmo assim, o Vaticano decidiu manter a capela aberta durante toda a restauração, e o trabalho ocorre atrás de uma tela que reproduz a imagem do Juízo Final em alta definição. Para muitos especialistas, essa convivência entre multidões e obras de arte extremamente famosas (e delicadas) é uma realidade inevitável.
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