O que é um aiatolá? É a mesma coisa que o presidente do Irã?
Neste sábado (28), morreu Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989. O falecimento foi anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após uma sequência de ataques aéreos americanos e israelenses contra alvos iranianos, e depois confirmado pela televisão estatal do país.
Aos 86 anos, Khamenei ocupava havia quase quatro décadas o posto mais poderoso da República Islâmica: o de aiatolá que, pela Constituição, exerce a função de líder supremo. Sua ausência abre uma disputa delicada sobre quem comandará o país em meio à escalada de tensão no Oriente Médio.
Mas o que significa exatamente esse cargo?
Aiatolá é um título religioso. A palavra, de origem árabe, significa “sinal de Deus”. Ela é concedida a clérigos muçulmanos xiitas que, após anos de estudo avançado em teologia e direito islâmico, atingem o mais alto grau de autoridade para interpretar a sharia, a lei religiosa. Trata-se de um reconhecimento acadêmico e espiritual dentro do clero, não de um cargo político em si.
Para entender por que um líder religioso pode concentrar tanto poder no Irã, é preciso voltar ao século 7. Após a morte do profeta Maomé, parte da comunidade muçulmana defendia que o sucessor deveria ser escolhido entre seus companheiros mais próximos. Esse grupo deu origem ao sunismo, hoje majoritário no mundo islâmico. Outro segmento sustentava que a liderança legítima caberia aos descendentes de Ali, primo e genro do profeta. Dessa corrente surgiu o xiismo, predominante no Irã.
No xiismo, certos religiosos são reconhecidos como intérpretes qualificados da lei islâmica e como guias da comunidade. Ao longo do século 20, especialmente no Irã, o título de aiatolá consolidou-se como o topo da hierarquia clerical. Hoje, milhares de religiosos o detêm, mas apenas uma parcela restrita alcança projeção nacional.
O título, por si só, não garante poder de Estado. A influência política depende de prestígio dentro do clero, apoio institucional e articulação com as elites do regime. No caso iraniano, essa combinação se tornou decisiva após a Revolução de 1979.
Naquele ano, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou o movimento que derrubou a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi. O novo regime, batizado de República Islâmica, uniu mecanismos republicanos, como eleições e Parlamento, a uma estrutura de autoridade religiosa. A Constituição criou o cargo de líder supremo, reservado a um aiatolá.
E o presidente?
O líder supremo é a autoridade máxima do país. Está acima do presidente, do Parlamento e do Judiciário. O artigo 110 da Constituição estabelece que cabe ao líder supremo definir as diretrizes gerais do Estado, comandar as Forças Armadas, declarar guerra e paz, nomear chefes do Judiciário e da mídia estatal, além de parte dos integrantes de órgãos estratégicos. Também pode vetar decisões do presidente e do Parlamento.
Ou seja, o presidente não é o chefe máximo do Irã. Ele é eleito por voto popular para um mandato de quatro anos, com possibilidade de uma reeleição consecutiva. A votação ocorre em dois turnos se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos válidos na primeira rodada.
O mandatário conduz a administração cotidiana: formula políticas econômicas, coordena ministérios, implementa programas públicos, negocia acordos e representa o país no exterior. No entanto, suas decisões não podem contrariar as diretrizes estabelecidas pelo líder supremo em temas considerados estratégicos, como defesa, segurança e política externa. Atualmente, o cargo de presidente é ocupado por Masoud Pezeshkian.
A engrenagem institucional inclui ainda dois órgãos centrais. A Assembleia dos Peritos, composta por 88 clérigos eleitos, é responsável por escolher e supervisionar o líder supremo. Em teoria, pode destituí-lo.
Já o Conselho dos Guardiães, formado por 12 membros entre religiosos e juristas, analisa se as leis aprovadas pelo Parlamento estão de acordo com a Constituição e com a sharia, sistema jurídico do Islã. Parte de seus integrantes é indicada diretamente pelo líder supremo, o que reforça sua influência sobre o sistema.
Desde 1979, apenas dois homens ocuparam o posto máximo: Khomeini e, após sua morte em 1989, Khamenei.
Com o falecimento de Khamenei, o país entra em período de transição. De acordo com a Constituição, um conselho temporário assume as funções do líder supremo até que a Assembleia dos Peritos eleja o sucessor.
Esse grupo é formado pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, e por um clérigo de alto escalão indicado pelo Conselho dos Guardiães, atualmente o aiatolá Alireza Arafi.
A decisão final caberá à Assembleia dos Peritos. Entre os nomes mencionados como possíveis sucessores estão Mojtaba Khamenei, filho do líder morto; Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica; e Ali Larijani, ex-presidente do Parlamento e atual secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional.
As especulações, no entanto, ainda são incertas, especialmente diante do contexto de ataques militares e da instabilidade regional.
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