Aqui você encontra as informações mais interessantes e surpreendentes do mundo

Aqui você encontra as informações mais interessantes e surpreendentes do mundo

Curiosidades

O festival de cinema por IA

N

“Nossa investigação e análise de redes sociais continua a revelar exemplos do Seedance produzindo material que claramente infringe os direitos dos nossos membros”, afirma a notificação extrajudicial enviada em 20 de fevereiro pela Motion Picture Association (MPA), que reúne os estúdios de Hollywood, à empresa chinesa ByteDance, criadora do TikTok e do algoritmo de geração de vídeos Seedance. “A escala e a consistência destes resultados indicam uma infração sistêmica, não acidental. Em outras palavras, a violação de direitos autorais praticada pelo Seedance é intencional, não um bug”, diz o documento.

O motivo da acusação foi a chegada do algoritmo Seedance 2.0, que chamou a atenção por dois motivos: sua capacidade de gerar vídeos altamente realistas, que nem parecem IA, e a ausência de guardrails, limites pré-programados para o que pode ou não ser gerado. Um dos clipes criados com a ferramenta da ByteDance viralizou, e mostra Brad Pitt e Tom Cruise lutando no topo de um prédio.

Vídeos como esse, feito sem permissão dos atores, despertaram a fúria da indústria do cinema – além da carta da MPA, seis estúdios enviaram as próprias notificações extrajudiciais à ByteDance (a empresa disse que respeita os direitos autorais, e aparentemente alterou o Seedance para que não gere vídeos com atores e personagens reais).

Não é que os estúdios não gostem de IA. Pelo contrário, estão loucos para usá-la, desde que mantenham algum controle sobre o processo. Em dezembro, a Disney anunciou que está investindo US$ 1 bilhão na OpenAI, e irá liberar o uso de mais de 200 personagens em vídeos gerados pela Sora, a ferramenta de vídeo da empresa.

Os estúdios de cinema veem na IA uma forma de cortar custos e aumentar lucros. Hollywood já vinha demitindo muita gente (o número de pessoas empregadas pelos estúdios em Los Angeles caiu de 142 mil, em 2022, para 100 mil em 2024), e deve demitir ainda mais com o avanço da tecnologia.

Em 2023 o SAG-Aftra e o DGA, os sindicatos de atores e diretores de Hollywood, assinaram acordos com os estúdios impondo condições para o uso de IA. Esses contratos expiram no final de junho, o que abrirá uma nova negociação – e pode desencadear uma greve geral. A indústria do cinema está com os nervos à flor da pele.

Continua após a publicidade

O medo de perder espaço, talvez o emprego, para a IA vem acometendo todo mundo que trabalha com audiovisual – mesmo bem longe de Hollywood. “Minha filha estuda animação. Ela chegou um dia em casa e me disse: ‘Acabou, pai’”, conta o publicitário Carlos “Cebola” Guedes, que dirige uma produtora de comerciais. Para aplacar a angústia da garota, que temia ver sua futura profissão tomada pela IA, Guedes pesquisou a fundo o uso dessa tecnologia – e acabou se tornando o organizador da primeira edição brasileira do World AI Film Festival (Waiff), dedicado a filmes feitos com inteligência artificial.

Ela foi realizada em 27 e 28 de fevereiro no campus da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), com R$ 600 mil captados via Lei Rouanet. A etapa brasileira foi a primeira de cinco: depois de São Paulo, o festival irá a Seul, Quioto e Pequim, selecionando filmes para a grande final em Cannes, nos dias 21 e 22 de abril, tendo o cineasta francês Claude Lelouch e a atriz chinesa Gong Li como presidentes do júri.

<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Longa-Metragem

Die in Peace (clique aqui para ver o trailer)
Nyko Oliver
Um militar carioca se oferece para lutar, como mercenário, na Guerra da Ucrânia. Ele é ferido em combate, e então submetido a uma nova tecnologia de ressuscitação – que transforma soldados mortos em robôs biológicos controlados a distância.

 

Para participar do Waiff Brasil, que recebeu mais de 400 inscrições, os filmes (curta ou longa metragem) deveriam usar ao menos três ferramentas de IA generativa, sendo uma delas dedicada à geração de imagens. Os jurados selecionaram 38 obras, todas brasileiras – sendo 35 curta-metragens e três longas, que foram exibidos no cinema da Faap. Num esforço meio heroico (você já vai entender o adjetivo), assisti a todos os filmes, intercalando com parte das 30 horas de palestras e debates sobre IA realizadas ao longo do evento.

Continua após a publicidade

O Waiff foi criado na França e teve sua primeira edição no ano passado, quando recebeu 1.500 inscrições de 85 países e elegeu vencedores em 11 categorias (o grande campeão foi The Russian Sleep Experiment, do francês Nicolas Pomet, em que um grupo de prisioneiros é submetido à privação do sono).

Imagem de um senhor de longa barba branca, usando toca e casaco azul, fazendo um desenho num caderno sobre a mesa. Ao fundo, vê-se, uma antiga TV e uma estante de livros.
<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Curta-Metragem – Animação

Hallucination (clique aqui para assistir)
Milton Montenegro
Um desenhista é levado para a delegacia, onde é interrogado por uma versão caricata do computador HAL 9000 (do clássico “2001 – Uma Odisseia no Espaço”). Acaba salvo por uma de suas criações: o Homem-Cebola, cuja arma é o hálito.

 

O festival foi idealizado pelo italiano Marco Landi, que fez carreira como executivo em empresas de tecnologia e foi chief operating officer (COO) da Apple nos anos 1990. De paletó azul e lenço vermelho no bolso, cabelos brancos fixados com gel, ele fala com ênfase e gesticulando, ao melhor estereótipo italiano – parece um personagem de filme.

Começa seu discurso, na abertura do festival, dizendo que o Waiff deveria ser realizado também em Ouro Preto, onde esteve e se encantou com as obras de Aleijadinho (a cidade “é a Capela Sistina do Brasil”, diz). Mas, em meio ao tom festivo, Landi encaixa uma observação mortalmente séria: “Temos que proteger a propriedade intelectual. Muita gente está simplesmente roubando as criações”.

Continua após a publicidade

De fato, está. As ferramentas de IA são verdadeiras máquinas de violar direitos autorais, e isso começa nas próprias empresas do setor – que alimentaram seus algoritmos com quantidades colossais de textos, imagens, músicas e vídeos, inclusive filmes inteiros, sem permissão dos criadores. “As ferramentas já foram treinadas com todo o conteúdo que está na internet. Isso já morreu”, avalia Rodrigo Salinas, mestre em Direito pela FGV, especialista na área de mídia e participante, ao lado de dois outros advogados, de uma mesa-redonda no festival (“IA e a Indústria Criativa: Desafios Jurídicos”).

Ou seja, é pouco provável que a indústria do cinema obtenha alguma compensação das big techs por esse uso não autorizado das obras. Para Salinas, o que ela pode fazer é licenciar novos conteúdos, que ainda não foram sugados pelas empresas de IA, para treinar algoritmos mais específicos, como ferramentas para a pós-produção de filmes. Parece plausível. Quem sabe no futuro surjam plugins de IA capazes de codificar e reproduzir o estilo visual de um filme – e deixar qualquer gravação com a pátina setentista de O Agente Secreto, por exemplo.

.
<span class=”hidden”>–</span>Reprodução/Montagem sobre reprodução

Assim que termina o debate com os advogados, vou até o cinema da Faap (uma sala de verdade, com 87 lugares e projetor profissional) começar a ver os filmes da mostra. A programação, que totaliza 5h42, é exibida em loop – quando entro na sala, estão passando os “documentários”. Uso aspas porque na verdade são histórias fictícias (o estilo narrativo é que é documental).

O primeiro deles, Cortex Blue, trata de um pesquisador embrenhado na floresta atrás de um fruto alucinógeno. Me causa uma impressão que se repetiria, muitas e muitas vezes, em quase todos os outros títulos do festival: está mais para uma demonstração de tecnologia (ótima, aliás; Cortex parece uma filmagem real, não vídeo gerado por IA) do que para cinema de verdade. Não diz muito; é meio que só uma sequência de cenas. Na primeira geração de filmes criados com IA, especialmente entre os curta-metragens, ainda é difícil encontrar enredos elaborados ou ideias originais.

Ok, talvez exigir isso logo de cara seja um pouco demais: os primeiros filmes dos irmãos Lumière, os inventores do cinema, também não tinham grande sofisticação narrativa. Ainda estamos lutando para manejar a IA, ao mesmo tempo em que nos encantamos com o que ela consegue fazer – e tateamos as possibilidades artísticas que poderá abrir.

Continua após a publicidade

Imagem de três jovens numa festa. Ao fundo, vê-se um muitas pessoas reunidas numa pista de dança.

Melhor Curta-Metragem – Documentário e Melhor Filme do Festival

Warped Memories (clique aqui para assistir)
Pedro Bayeux
É um “mockumentary”, gênero que mescla realidade e ficção. Mas seus elementos fictícios soam assustadoramente plausíveis: no futuro, o uso exagerado de plataformas digitais acaba destruindo as memórias humanas e deformando a realidade.

 

Isso fica evidente num dos curtas seguintes: Warped Memories, que acabaria ganhando os prêmios de melhor documentário e melhor filme do festival [veja quadro acima]. Ele se passa na São Paulo do futuro e mescla cenas fotorrealistas a outras estilizadas, que abraçam as imperfeições estéticas das IAs atuais. O resultado é interessante, porque difere de qualquer outra coisa – é o primeiro exemplo de uma linguagem visual baseada no uso de IA. Bacana.

Imagem de uma garota se transformando numa fera com garras e olhos vermelhos.
<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Curta-Metragem – Ação

Maya (clique aqui para ver um trecho)
Rodrigo Chaves e Marcelo Presotto
Uma dançarina de boate volta para casa dirigindo seu Fusca, mas o pneu do carro fura na estrada. Dois caras drogados aparecem e tentam violentá-la – mas ela se transforma numa loba. Mistura filmagem real e IA (utilizada nos efeitos especiais).

Continua após a publicidade

Mas, assim que começo a me empolgar, o projecionista corta a onda: me diz que terá de interromper a exibição por uns 40 minutos. Para passar o tempo, desço as escadas e visito a 55a exposição anual de arte da Faap, com obras criadas por 34 estudantes da faculdade. Penso em quais delas, se alguma, poderiam ser geradas por IA (até as esculturas, quem sabe um dia, com a ajuda de impressoras 3D?).

Uma das obras, no canto, atrai pelo tom misterioso: uma cadeira, um teclado e um prompt de comando projetado na parede. Ela se chama Olympia, e é interativa – a ideia é que o visitante se sente e converse com uma IA. “Que tédio… Estou aqui. Estou só. Fale comigo”, diz o software, numa mensagem repetida várias vezes na tela – parece estar ligado há muito tempo sem receber qualquer atenção. Após trocarmos os cumprimentos de praxe, indago:

– Qual sua opinião sobre o uso de inteligência artificial no cinema?

Can you speak English?“, retruca o bot. Sure, acedo, e refaço a pergunta no idioma de Shakespeare e Sam Altman. “Engraçado… você fala comigo como se eu fosse humano”, diz a IA, voltando ao português e ignorando minha questão. Parece ser um algoritmo bem primitivo, dotado de um número finito de respostas pré-programadas – como Eliza, o primeiro chatbot da História, criado no MIT em 1967.

Desapontado, volto à sala de cinema. Vejo mais quatro curtas (True, I am Different, Hunter with a Single Arrow, Saci), seguidos de uma bateria de filmetes publicitários gerados com IA. Depois vêm A Roda das Crianças, ótima série de animação infantil, e o assustador Precautions, que ilustra como a IA pode ser usada para gerar deepfakes, vídeos falsos com a cara de gente real. A sociedade está lascada. Mais uma bateria de quatro curtas: Agranel, Entre Forças, Silver Nightingale e Blue Bird, com destaque para este último, visualmente belíssimo (parece ambientado dentro de uma pintura a óleo cujas figuras ganham vida).

Imagem de um exército de robôs armados. Ao fundo, vê-se uma cidade futurista.
<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Curta-Metragem – Fantasia

True (clique aqui para assistir)
Rodolfo Roth
Numa distopia que lembra o filme “Elysium” (2013), os ricos se mudam para cidades suspensas onde tudo é limpo e bonito – enquanto, ao rés do chão, tropas de robôs massacram o resto da humanidade.

Imagem de um homem dormindo ao relento numa cidade suja e escura.
<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Curta-Metragem – Drama

Cold (clique aqui para assistir)
Marcelo Presotto
Depois de perder o emprego e a família devido ao alcoolismo, um mendigo pede esmolas e atenção, mas só recebe a grosseria e a indiferença da sociedade, enquanto tenta sobreviver numa cidade cinza e congelante.

Hora de encarar os longa-metragens. Temo pelo pior. Mas o primeiro deles, Die in Peace, surpreende. Não é nenhum primor técnico (o movimento é truncado, parece correr a apenas 15 quadros por segundo, e há problemas de sincronia labial), mas tem algo raro nos filmes gerados com IA: uma mensagem. O enredo começa numa guerra no leste europeu, instigada pelos EUA, e termina com a invasão da Venezuela (chamada de “Varzélia”) e a captura de seu líder. O tom é claramente anti-imperialista e pacifista.

Já é noite, resolvo ir embora. Na manhã seguinte, olho o noticiário enquanto me arrumo para sair de casa: EUA e Israel atacaram o Irã. O mundo flerta agressivamente com a Terceira Guerra Mundial. Mas, pelo menos, o autor de Die in Peace já tem assunto para uma continuação (se der tempo). Volto ao festival e vou direto ao cinema, que para minha sorte está prestes a exibir os outros dois longas: Iva Delta 7 (um sci-fi esforçado, mas mal-executado) e Magda and the Female Police – que parte de uma premissa interessante, a criação de uma polícia feminina no Brasil dos anos 1950, mas é excruciantemente longo.

Imagem de um coração boiando no formol.
<span class=”hidden”>–</span>Divulgação/Reprodução
Melhor Diretora

Entre Forças (clique aqui para assistir)
Amanda Talli
Divagações sobre o Universo e a essência da vida, ilustradas por cenas belíssimas da natureza – que lembram a estética de “A Árvore da Vida” (2011), do diretor norte-americano Terrence Malick.

Quando finalmente termina, respiro fundo e assisto a 15 curtas em sequência (os melhores são Arnaldo Had an Idea, pela qualidade técnica, e Empresário de Mim, pelo tema: os motoboys e seu trabalho precarizado). Ufa, acabou.

Saio do cinema meio tonto, mas satisfeito por ter conseguido ver todos os 38 filmes do Waiff. Talvez tenha sido a única pessoa, fora os jurados, a fazer isso – durante meu tempo na sala de exibição, não contei mais de dez espectadores simultâneos (que geralmente desistiam após alguns minutos).

O festival recebeu centenas de pessoas, mas elas preferiram as palestras e os workshops aos filmes em si – cuja hora, está claro, ainda não chegou. “Isso ainda não é cinema. É um exercício”, avalia um dos jurados do festival, o diretor e artista multimídia Tadeu Jungle, numa reflexão sincera sobre os filmes por IA. “Prompt não é roteiro. Falta roteiro”, diz. Estórias cativantes, apaixonantes, assustadoras, originais. Com ideias fortes e novas – que só a mente humana, com seus circuitos biológicos tão inescrutáveis, até hoje foi capaz de ter.

***

Imagem, feita de massinha, de um homem triste segurando uma boneca.

Global AI Film Award

Lily (clique aqui para assistir)
Zoubeir Jlassi (Tunísia)
Curta-metragem vencedor do festival online organizado pelo Google (sem relação com o Waiff). Mostra a rotina solitária de um homem que tem como única companhia Lily, uma boneca falante meio malcriada – cuja amargura esconde a própria história triste.

 

 

 

Publicidade

O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!

Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

augustopjulio

Sou Augusto de Paula Júlio, idealizador do Tenis Portal, Tech Next Portal e do Curiosidades Online, tenista nas horas vagas, escritor amador e empreendedor digital. Mais informações em: https://www.augustojulio.com.