Nuremberg: quem foi Douglas Kelley, o psiquiatra que analisou os oficiais nazistas?
O filme Nuremberg chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (26). No longa, Rami Malek (de Bohemian Rhapsody) dá vida a Douglas Kelley, o psiquiatra responsável por diagnosticar 22 oficiais do alto comando nazista após o fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os pacientes, estava Hermann Göring (interpretado por Russell Crowe, de Gladiador), sucessor direto e braço direito de Adolf Hitler.
O trabalho de Kelley era extremamente complexo: ele precisava entrar na mente de pessoas responsáveis por uma das maiores atrocidades da história e avaliar a sanidade mental desses criminosos. O Holocausto matou cerca de 6 milhões de pessoas, torturadas em campos de concentração.
O filme é baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra, do jornalista Jack El-Hai, que acompanha o conflito psicológico entre Kelley e Göring – um embate marcado por manipulação e que revela a complexidade das mentes por trás do Holocausto.
Para entender como essa história começa, é preciso voltar um pouco no tempo.
O julgamento de Nuremberg
Em 1945, os Aliados (EUA, União Soviética, Reino Unido, França e outros) saíram vitoriosos da Segunda Guerra Mundial. O cessar-fogo, porém, foi apenas o primeiro passo. Ainda era preciso decidir como julgar e condenar os nazistas que sobreviveram.
Executá-los sem julgamento ou de forma espetaculosa poderia aumentar ainda mais as tensões. Os Aliados também não tinham interesse em julgá-los pelas leis alemãs. O problema era que, até então, não existia um tribunal internacional neutro capaz de julgar os atos individuais de cada oficial e aplicar uma pena. Tampouco havia um código penal internacional – ou mesmo o conceito de “crimes contra a humanidade”.
Tudo isso precisou ser criado praticamente do zero. Ainda em 1945, poucos meses após o fim da guerra, foi estabelecido um tribunal militar internacional, que ficaria conhecido como Julgamento de Nuremberg, em referência à cidade alemã onde ocorreu.
Enquanto o tribunal era organizado, os 22 oficiais nazistas capturados – havia muitos outros, mas alguns desapareceram e outros cometeram suicídio – estavam presos em uma instalação secreta dos EUA. Hoje, sabemos que ela ficava em Luxemburgo, dentro de um grande hotel.
Foi nesse contexto que o jovem psiquiatra do Exército americano Douglas Kelley, então com 33 anos, foi convocado para avaliar os prisioneiros. Sua missão era determinar se estavam mentalmente aptos a serem julgados e garantir que não cometessem suicídio.
Durante a guerra, ele havia tratado soldados Aliados na Europa. Formado pela Universidade da Califórnia, era considerado uma promessa da psiquiatria americana e, apesar de ser jovem, já havia publicado uma série de pesquisas.
Kelley aceitou o desafio com uma hipótese em mente: encontrar alguma característica psicológica que diferenciasse os nazistas – um traço comum ou transtorno que explicasse seus atos tão abomináveis.
O caso mais difícil de decifrar foi, sem dúvida, o de Göring. Como esperado, ele era um manipulador habilidoso, com um ego gigantesco. O que surpreendeu Kelley foi seu carisma e senso de humor, muito diferente da imagem de “monstro”. Quando foi capturado, inclusive, militares americanos chegaram a pedir seu autógrafo.
Os métodos controversos de Kelley
Em sua análise, o psiquiatra utilizou métodos considerados polêmicos, especialmente no caso de Göring. Ele se aproximou do oficial para obter informações e, após horas de conversas e testes psicológicos (como o de Rorschach e avaliações de QI), os dois desenvolveram uma conexão peculiar.
Ao longo de mais de cinco meses, Kelley ajudou Göring a tratar seu vício em analgésicos e a perder peso. A estratégia evitava que o prisioneiro, com mais de 120 quilos, morresse antes do julgamento.
Suas conversas eram extensas e sobre temas diversos, como história da Alemanha e política.
Ele também descobriu o grande amor e lealdade de Göring à esposa e à filha, o que levou Kelley a ir contra as regras do cárcere. Ele contrabandeava cartas do nazista e as levava diretamente à sua família, como um mensageiro.
Um detalhe deixado de lado pelo filme é que Göring chegou a pedir que Kelley adotasse sua filha e a levasse para os Estados Unidos. Isso mostra uma certa proximidade e respeito entre eles.
No julgamento, Göring foi condenado à morte por enforcamento. Na noite anterior à execução, porém, suicidou-se com uma cápsula de cianeto, cuja origem permanece um mistério até hoje.
Em 2005, um ex-guarda americano, Herbert Lee Stivers, afirmou ter entregue o comprimido ao nazista. Ele foi convencido por uma garota, que o fez acreditar que se tratava de um medicamento comum. Ele guardou o suposto segredo por quase 60 anos.
Ainda assim, essa versão é contestada. Göring deixou uma carta de despedida afirmando que nenhum guarda havia lhe dado a substância, que estaria escondida em sua cela. Também declarou que se recusava à humilhação de morrer enforcado.
E o diagnóstico foi…
Ao fim das avaliações, Kelley concluiu que os réus não apresentavam nenhuma condição mental que os impedisse de serem julgados. Estavam, segundo ele, em pleno uso de sua faculdade mental e dentro da normalidade psicológica.
Havia, de fato, um padrão de comportamento, como nacionalismo, autoritarismo e facilidade de seguir líderes – mas isso não era algo patológico. Göring, por exemplo, era narcisista e extremamente leal a Hitler, mas não possuía uma doença mental.
Robert Ley, chefe da Frente Alemã para o Trabalho e um dos prisioneiros, estava convencido de que fazia o melhor para a Alemanha e alegava reiteradamente nunca ter matado ninguém. Apesar de instável emocionalmente e com pensamentos claramente abomináveis, Kelley não conseguiu encontrar traços de insanidade.
Rudolf Hess, outro dos 22 nazistas, afirmava ter amnésia e não se lembrar de nada. Depois da análise de Kelley, ele determinou que se tratava de puro teatro, e não um problema psicótico.
Sua maior conclusão foi que não havia diferenças substanciais entre aqueles oficiais nazistas e outros líderes ou executivos ao redor do mundo. Para Kelley, tratava-se de pessoas comuns que agiram como oportunistas em busca de poder. Eles não tinham um transtorno mental específico, como pensava antes.
Essa interpretação trazia um alerta incômodo. Segundo sua tese, atrocidades como aquelas poderiam ser repetidas por qualquer sociedade, em qualquer época. Para ele, a conclusão foi ainda mais assustadora, e mostrava um risco contínuo do fascismo chegar a outros continentes, conduzido por pessoas normais.
Para críticos, no entanto, Kelley estava humanizando os nazistas e minimizando seus crimes, mesmo tendo ajudado no julgamento. Ele foi duramente criticado, e seu livro 22 celas em Nuremberg, no qual relatava sua experiência e alertava para os riscos do fascismo, foi um fracasso de vendas.
Gustave Gilbert, psicólogo que trabalhou com Kelley em Nuremberg, afirmava que o psiquiatra, na verdade, teria sido manipulado pelos nazistas. Para ele, os prisioneiros possuíam, sim, características patológicas.
Depois de Nuremberg, Kelley ficou profundamente abalado e permaneceu obcecado pela natureza do mal e dos crimes, temas que nunca abandonou. Com a carreira manchada pela polêmica, passou a enfrentar problemas com álcool e depressão.
Em 1958, aos 45 anos, o psiquiatra cometeu suicídio após uma discussão familiar. O método escolhido foi o mesmo de Göring, o cianeto, que ele ingeriu de forma dramática no meio da briga.
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