Filhos de trabalhadores de Chernobyl carregam mutações extras no DNA ligadas à radiação
Na madrugada de 26 de abril de 1986, uma explosão destruiu o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia, então parte da União Soviética. O acidente liberou uma enorme quantidade de material radioativo no ar.
Nos dias seguintes, bombeiros, soldados e trabalhadores civis foram enviados às pressas para conter o incêndio e limpar o local. Eles ficaram conhecidos como liquidadores. Muitos trabalharam perto do reator destruído, expostos à radiação e às vezes sem proteção adequada. Quase quarenta anos depois, cientistas ainda investigam as consequências dessa ação de emergência – inclusive no DNA dos filhos desses trabalhadores.
Um estudo publicado em 2025 no periódico Scientific Reports encontrou evidências de que essa exposição deixou pequenas marcas genéticas na geração seguinte. São mutações que não existiam no DNA dos pais, mas apareceram no dos filhos. Mais especificamente, os pesquisadores identificaram um aumento em um tipo raro de alteração chamado mutações agrupadas, ou clustered de novo mutations (cDNMs).
São pequenas mudanças que aparecem em bloco, muito próximas umas das outras, como se fossem uma sequência de “microcicatrizes” no material genético. Esse padrão é considerado um sinal típico de que o DNA foi danificado e depois reparado com pequenas falhas.
Para entender isso, vale lembrar o que é DNA. Ele é a molécula que guarda o manual de instruções do corpo. Cada pessoa herda metade do DNA do pai e metade da mãe. Mas esse processo não é perfeito. Sempre surgem mutações novas, que não existiam antes. Isso é normal. Cada filho nasce, em média, com cerca de 60 a 80 mutações inéditas.
O que os cientistas queriam descobrir era se a radiação a qual os pais se submeteram aumentava esse número – e, principalmente, se deixava algum tipo específico de marca.
Isso porque a radiação ionizante, como a liberada em Chernobyl, pode quebrar o DNA. Quando isso acontece, a célula tenta fazer o reparo. Mas esse conserto pode sair imperfeito. Uma comparação possível é com uma página rasgada que precisa ser colada. À distância, parece normal. Mas, olhando de perto, dá para ver as emendas. Segundo o estudo, essas mutações agrupadas são justamente esse tipo de remendo.
Para investigar, os cientistas analisaram o genoma completo – todo o DNA – de 1.515 pessoas e de seus pais. Eles dividiram os participantes em três grupos. O primeiro incluía 130 filhos de trabalhadores que atuaram na limpeza da usina.
O segundo tinha 110 filhos de operadores de radar militares alemães, que também foram expostos à radiação no trabalho. O terceiro era o grupo de controle, com 1.275 pessoas cujos pais não tinham histórico de exposição relevante.
Os resultados mostraram uma diferença clara. Filhos de trabalhadores de Chernobyl tinham, em média, 2,65 dessas mutações agrupadas. Filhos de operadores de radar tinham 1,48. Já no grupo sem exposição a média era de 0,88. O número era cerca de três vezes maior no grupo de Chernobyl do que no grupo controle.
Os pesquisadores também observaram outro padrão importante: quanto maior a dose de radiação recebida pelo pai, maior tendia a ser o número dessas mutações no filho. Isso reforça a ideia de que a radiação foi a causa das mutações.
Mas isso não significa que os filhos dessas pessoas ficaram doentes. Na verdade, o impacto parece pequeno. Mesmo entre os filhos de trabalhadores de Chernobyl, o aumento foi de cerca de uma mutação agrupada extra por pessoa, em média. Pode parecer bastante, mas é pouco quando comparado ao total de mutações naturais que todo mundo já tem naturalmente.
Além disso, o DNA é enorme. Ele tem cerca de 3 bilhões de “letras”. Apenas uma pequena parte contém genes diretamente ligados ao funcionamento do corpo. Muitas mutações acontecem em regiões que não têm efeito nenhum.
Os próprios autores destacam isso: “a probabilidade de uma doença que ocorra na prole de pais expostos ser desencadeada por um cDNM é mínima.” Nenhuma das mutações encontradas foi ligada a doenças nos participantes.
Outro ponto importante é que fatores comuns têm impacto maior do que a radiação. A idade do pai, por exemplo, influencia bastante. Quanto mais velho o pai, mais mutações ele tende a transmitir. Em média, cada ano a mais de idade acrescenta uma ou duas mutações ao DNA do filho. Esse efeito é maior do que o observado com a radiação no estudo.
A ideia de que a radiação pode afetar os filhos de pessoas expostas não é nova. Ela começou a ser investigada após a explosão das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Mas os estudos não conseguiam encontrar provas claras.
Uma das razões é que essas mutações são pequenas demais para causar efeitos visíveis na maioria dos casos. Agora, com técnicas modernas de sequenciamento genético, ficou possível enxergar essas alterações diretamente no DNA.
Ainda assim, há limitações. A radiação foi recebida décadas atrás, e nem sempre é possível saber exatamente quanto cada pessoa foi exposta. Também pode haver diferenças entre os grupos que não têm relação com a radiação. Mesmo assim, o padrão geral é consistente.
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