Era do .ai: a internet mudou de ‘sobrenome’ com a inteligência artificial?
Em janeiro de 2026, o domínio .ai ultrapassou a marca de um milhão de registros na internet. Com a criação de cada vez mais ferramentas de inteligência artificial (IA) e de empresas que oferecem recursos voltados a essa tecnologia, utilizar esse sufixo em um site pode ser sinônimo de credibilidade e alinhamento com a tecnologia que promete moldar o presente e o futuro.
- Domínio .br ganha categorias para sites de IA, redes sociais e mais
- Quais são os domínios de internet mais antigos do mundo e do Brasil?
Mas, antes de analisar a forma como esse domínio pode mudar o posicionamento de empresas na atualidade, é necessário entender como ele chegou até aqui.
A história do .ai começou em 1995, quando o código foi delegado a Anguilla como um ccTLD, no sistema global de nomes de domínio atualmente coordenado pela Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN). Assim como o Brasil recebeu o .br e a Espanha o .es, o .ai foi atribuído ao território caribenho.
–
Entre no Canal do WhatsApp do Canaltech e fique por dentro das últimas notícias sobre tecnologia, lançamentos, dicas e tutoriais incríveis.
–
Mas, naquela época, a ilha, localizada no leste do Caribe e território ultramarino do Reino Unido, ainda não sabia o quão importante esse código se tornaria para a economia local.
Com a ascensão da inteligência artificial, principalmente a partir de 2022, empresas passaram a registrar esse domínio, que antes tinha uso predominantemente geográfico, fazendo com que ele ganhasse alcance global e passasse a representar ganhos relevantes para a ilha.

Receita associada ao .ai em 2025
Um relatório financeiro apresentado em novembro de 2025 pela primeira-ministra e ministra das Finanças de Anguilla, Cora Richardson Hodge, indicava que a previsão era de que o ano fechasse com o domínio .ai representando cerca de 40% da receita não tributária da ilha.
No mesmo documento, a premiê afirmou que a receita não tributária deveria fechar o ano em aproximadamente EC$ 260,52 milhões (cerca de R$ 512 milhões na cotação atual). Ou seja, o domínio amplamente utilizado por empresas do ramo da IA representaria algo em torno de EC$ 104 milhões (cerca de R$ 205 milhões) para o território caribenho.
Com base nesses valores, Hodge destacou que o .ai coloca a ilha no centro da economia digital global.
“Nosso domínio .AI tornou-se mais do que um endereço na internet; é um símbolo de como inteligência, governança e inovação podem convergir para criar valor duradouro”, afirmou a ministra. “E, por meio de uma gestão prudente, garantiremos que essa oportunidade beneficie todos os habitantes de Anguilla — não apenas por um momento, mas por uma geração”, acrescentou.
Na sequência, ela ressaltou que a crescente adoção desse domínio reflete tanto a demanda global por IA quanto o profissionalismo com que Anguilla administra esse ativo.
Vale destacar que, desde 2024, o domínio atribuído à ilha é administrado pela empresa Identity Digital, que venceu um processo de licitação. A empresa atua como operadora do registro (registry), sendo responsável pela operação e comercialização global do .ai.
Responsabilidades e descentralização
Em entrevista ao Canaltech, Fernanda Ribeiro Rosa, membra-fundadora da Rede de Pesquisa em Governança da Internet, afirma que o crescimento da adoção do ccTLD de Anguilla traz também mais responsabilidades à ilha e à Identity Digital.
“Para as empresas que registram, o que se espera é estabilidade e confiança de que o domínio será administrado conforme o esperado. Ninguém quer uma ruptura ou mudança de regras que faça você perder seu endereço na internet. Muitos compram domínios como um ativo, um bem”, ressalta Rosa.
A professora de estudos de ciência e tecnologia na Virginia Tech (EUA) pontua ainda que, apesar da marca de 1 milhão de registros do .ai ser expressiva, ela ainda está distante dos mais de 160 milhões de registros do .com, que é um domínio genérico de topo (gTLD) administrado pela empresa americana Verisign.
Ainda assim, a especialista ressalta que o crescimento do domínio atribuído ao território ultramarino britânico pode apontar para uma tendência de maior distribuição no âmbito da governança da internet.
“No contexto da governança, isso pode resultar em uma descentralização de poder, já que, até hoje, o principal domínio genérico é o .com. Vejo esse processo como a abertura de uma oportunidade para que outro domínio se torne popular além desse gTLD que, até então, dominou a internet”, destacou a docente.

.ai como marca de posicionamento no mercado
Do ponto de vista das empresas que utilizam o .ai, o domínio pode representar um sinal estratégico de posicionamento. Isso acontece porque, antes mesmo de o usuário consumir o conteúdo, esse código oferece uma pré-classificação simbólica às companhias.
“Aqui vale usar um enquadramento clássico de branding: quando o público tem pouco tempo e muita oferta, ele recorre a pistas para reduzir o custo de avaliação. O sufixo ‘.ai’ funciona como pista semântica, pois ‘pré-classifica’ a empresa como parte do universo de IA e, em mercados de inovação, isso vira um atalho de percepção de vanguardismo”, explica Bruno Peres, professor de Marketing Digital da ESPM.
O especialista ressalta ainda que, nesse contexto, o .com cumpre uma função diferente, visto que é associado a “padrão” e não necessariamente a “inovação” pelo público que navega pela internet.
Além disso, Peres afirma que o ccTLD atribuído a Anguilla ajuda a reduzir uma barreira de desconfiança que historicamente era imposta a domínios fora do “eixo .com”.
Um novo “sobrenome”?
Mesmo com a ascensão das companhias e ferramentas voltadas à IA nos últimos anos — e com projeções de crescimento para o futuro — o professor da ESPM prega cautela ao definir que o .ai pode se tornar o novo “sobrenome” da rede.
O especialista detalha que, apesar de o marco de 1 milhão de registros tornar o domínio um ativo competitivo, o .com segue dominante e amplamente conhecido, o que indica que o registro atribuído a Anguilla atua mais como uma forte arquitetura de marca do que como substituto estrutural.
“O domínio .ai não é ‘higiene obrigatória’, mas é um acelerador de percepção. Se a empresa vive de vender IA, um domínio .ai pode reduzir a fricção cognitiva (‘entendi o que você faz’), especialmente em estágios iniciais de marca”, conclui Peres.
Leia também:
- IA generativa já é usada por uma a cada seis pessoas no mundo, diz Microsoft
- Por que uma parcela dos brasileiros ainda não usa IA? Entenda motivos
- IA para estudar supera uso para diversão no Brasil em 2025, revela Google
VÍDEO: ChatGPT, Perplexity, Claude, Gemini: QUAL escolher?
Leia a matéria no Canaltech.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

