Entenda o que é a Síndrome de Tourette, condição que fez ativista gritar insultos raciais no BAFTA
Imagine como seria se fossemos incapazes de controlar as nossas próprias línguas. Se cada pensamento desconfortável que de vez em quando brota na cabeça de repente fosse exclamado ao mundo sem filtro nenhum. Ou então, imagine como seria a vida se, por algum acaso fisiológico, você fosse forçado pelo próprio corpo a dizer a pior coisa possível, no pior momento possível.
Esse é o dia a dia de algumas das pessoas que convivem com a Síndrome de Tourette – um transtorno do neurodesenvolvimento que acomete cerca de 0,5% da população mundial, caracterizado por tiques involuntários e incontroláveis. Na maior parte dos casos, os tiques aparecem como movimentos ou barulhos repetitivos: espasmos musculares, movimentos de braço, piscadas, grunhidos, gritos, fungadas, tosses, ou outros tipos de impulsos, que podem vir sozinhos ou como parte de tiques maiores e mais complexos.
Por vezes, os impulsos também podem ser verbais, como a repetição de palavras ou frases. Daí, surge uma das formas mais estigmatizantes desse transtorno: a Coprolalia. Essa condição acomete entre 10% e 20% dos portadores da Tourette, e traz consigo tiques verbais complexos e inapropriados, como insultos ou palavrões. Nesses casos, os tiques são contextuais, e variam de acordo com os tabus de cada situação.
São, contudo, palavras ao vento, que não refletem as opiniões reais da pessoa. Ou mesmo a realidade. Em 2013, por exemplo, um homem com Tourette foi barrado em um aeroporto nos EUA após dizer a palavra “bomba” quase cem vezes. A “bomba” não existia, mas com certeza era a pior coisa a se dizer naquele lugar.
Polêmica no BAFTA
Nessa última semana, a Síndrome de Tourette voltou ao olhar público após um recorte dos BAFTA Film Awards, premiação da Academia Britânica de Cinema, viralizar nas redes sociais. A cerimônia aconteceu no domingo, 22 de fevereiro. O vídeo mostra a reação dos atores Michael B. Jordan e Delroy Lindo, do filme Pecadores (2025), que estavam no palco da premiação no instante em que insultos raciais são ditos por um dos membros da plateia – um palavrão racista, exclamado duas vezes pelo ativista John Davidson, que é portador da Síndrome de Tourette.
Os atores, ambos negros, apresentavam o vencedor na categoria de melhores efeitos visuais quando foram interrompidos. No vídeo, eles pausam por um breve momento e demonstram algum constrangimento, antes de seguirem com a apresentação.
No decorrer da noite, outros insultos, como “cala a boca” e “vão se foder”, também vazaram pela transmissão. De acordo com a Variety, membros da produção haviam alertado os convidados sentados em cadeiras próximas à de Davidson sobre sua condição, sem esclarecer, porém, quais tipos de tiques eles poderiam esperar ouvir ao longo da noite. Após a cerimônia, Lindo afirmou que teria sido melhor caso “alguém do BAFTA tivesse falado conosco depois”. Davidson, por sua vez, optou por se retirar do auditório antes da segunda metade do evento, “ciente do sofrimento que meus tiques estavam causando”, como explicou em nota.
Depois do ocorrido, o ator Alan Cumming, apresentador da cerimônia, dedicou parte de sua fala para esclarecer a questão ao público: “Vocês devem ter ouvido alguma linguagem forte e ofensiva esta noite. Se vocês assistiram ao filme Eu Juro, saberão que o filme trata da experiência de uma pessoa com síndrome de Tourette”. Lançado em 2025, Eu Juro é um drama biográfico baseado na vida de Davidson, e o motivo pelo qual atendeu à cerimônia. No BAFTA, o filme foi nomeado em seis categorias, e rendeu ao ator Robert Aramayo, que interpreta o ativista, o prêmio de melhor ator.
John Davidson é escocês, e trabalhou a vida inteira como zelador em um centro comunitário da cidade de Galashiels. Ele ganhou projeção no Reino Unido após protagonizar o documentário televisivo John’s Not Mad (1989), produzido para a BBC, e desde então se dedica ao ativismo em defesa aos portadores da Tourette.
“A síndrome de Tourette é uma deficiência, e os tiques que vocês ouviram esta noite são involuntários, o que significa que a pessoa que tem síndrome de Tourette não tem controle sobre sua linguagem. Pedimos desculpas se alguém se sentiu ofendido”, continua Cumming.
Celebridades e internautas reagiram ao caso. Nos comentários de uma postagem sobre o assunto, o ator Jamie Foxx chamou a fala de “inaceitável” e acusou o ativista de ter feito o comentário de maneira intencional. Outros usuários exigiram que Davidson fizesse um pedido de desculpa público aos atores ou à comunidade negra.
O ativista teria contatado o estúdio responsável por Pecadores para se desculpar pessoalmente aos atores e à designer de produção Hannah Beachler, segundo informações de sua equipe.
Grande parte das críticas, por outro lado, foram direcionadas à BBC, emissora responsável pela transmissão do evento, por não ter removido o tique. O programa foi ao ar com um atraso de duas horas em relação à cerimônia real, estratégia que permite à emissora realizar edições na transmissão final.
Em entrevista à Variety, Davidson afirmou que a organização do Bafta havia prometido cortar os tiques da gravação antes que fossem televisionado. O ativista relatou ter sentado a cerca de 40 fileiras de distância do auditório para evitar qualquer tipo de constrangimento.
“Refletindo sobre o auditório, lembro que havia um microfone bem na minha frente e, agora, me pergunto se isso foi sensato, tão perto de onde eu estava sentado, sabendo que eu teria tiques”, disse.
Segundo informações do The Guardian, representantes da Warner Bros. (estúdio responsável por Pecadores) pediram ao Bafta para que os tiques verbais fossem retirados daquele momento na transmissão, que respondeu assegurando que o pedido seria acatado.
Do outro lado, a BBC afirma que um segundo insulto racial foi cortado, e que o tique em questão teria ido ao ar por resultado de um “erro”. “Nós nunca teríamos deliberadamente deixado com que isso fosse transmitido”, escreveu a diretora de conteúdo Kate Phillips.
Como funciona a Tourette
Não se sabem exatamente os fatores que levam uma pessoa a desenvolver a Síndrome de Tourette. Existe um forte fator genético – a chance dessa condição ser transmitida de pais para filhos varia entre 50% e 80% –, mas infecções e problemas durante o parto também são considerados possíveis causadores. A síndrome geralmente também vem acompanhada de outros transtornos, como o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).
Os tiques são difíceis – por vezes impossíveis – de controlar. Eles geralmente são precedidos de uma urgência premonitória, uma tensão que vai se acumulando no corpo e finalmente só é aliviada quando o tique acontece (como uma vontade de espirrar ou uma coceira). Quando um tique é suprimido, essa tensão só cresce até não poder mais. É comum que, após um período de supressão, os tiques voltem em quantidades ainda maiores.
“Para mim, pessoalmente, meu cérebro funciona tão rápido e os tiques sempre foram tão intensos que não faço ideia de quando eles vão surgir nem quais serão. Eu não tenho quase nenhuma capacidade de suprimi-los, e, quando a situação é estressante, não tenho escolha nenhuma a não ser fazer o tique – ele simplesmente explode de mim como um tiro”, disse John Davidson à Variety.
“Já fui espancado quase até a morte com uma barra de ferro depois de ter feito um comentário para uma jovem, cujo namorado e cúmplice me emboscaram numa noite”, relata Davidson na mesma entrevista.
A coprolalia (que vem do grego para “falar besteira”) é só uma de várias condições que causam impulsos inapropriados. Outras, como a copropraxia, funcionam por meio dos gestos (como tocar e cuspir). Os mecanismos por trás dos insultos incontroláveis tem a ver com a maneira como o cérebro processa as palavras.
Vivendo em contato com a sociedade, aprendemos, mesmo sem perceber, que certas palavras têm um peso diferente das outras: algumas são palavras, outras, palavrões. Absorvemos isso de tal forma que nosso cérebro começa a processar essas palavras em áreas diferentes – diferente do restante mais inofensivo do nosso vocabulário, palavrões ativam partes do cérebro relacionadas às emoções, como a amígdala e os gânglios da base. Isso pode trazer benefícios. Estudos já mostram que xingar pode aliviar nossas dores ou mesmo melhorar o desempenho físico.
A Síndrome de Tourette, assim como outras condições que causam tiques, atrapalha os mecanismos cerebrais responsáveis pelo controle de impulsos e movimentos. Resultado: os palavrões, que se manifestam de uma maneira muito mais forte pelo cérebro, escapam.
A palavra dita por Davidson durante a cerimônia – “nigger”, a chamada “n word” – é um insulto racial historicamente usado para desumanizar pessoas negras. Seu uso, principalmente na boca de pessoas brancas, é considerado um tabu enorme nas sociedades anglófonas.
“Eu quero que as pessoas saibam e entendam que meus tiques não têm absolutamente nada a ver com o que eu penso, sinto ou acredito. Eles são um disparo neurológico involuntário. Meus tiques não são uma intenção, não são uma escolha e não refletem meus valores”, disse o ativista.
“A premiação foi, honestamente, só uma versão ampliada do meu cotidiano e são a razão pela qual, durante muitos períodos da minha vida, tive medo de sair de casa – porque fico muito ansioso e nervoso com o que posso manifestar como tique e qual poderá ser a reação das pessoas”, completa.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre as curiosidades do mundo!
Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
