Enfermeira amarrada? Autocirurgia? A história de como este vencedor do Nobel inventou o cateterismo cardíaco
O cateterismo cardíaco permite aos médicos ver por dentro do coração e das artérias coronárias usando um tubinho fino e flexível chamado cateter, introduzido por uma artéria ou veia e guiado até o coração. Por ele, corre uma substância, o contraste, que aparece no raio-X. Assim, o médico vê as artérias, válvulas e câmaras do coração em tempo real.
Esse é um dos procedimentos médicos mais realizados no mundo, já que é útil para várias coisas, como detectar entupimentos. Mas muita gente não sabe que ele provavelmente não existiria se não fosse por um médico completamente maluco.
Essa história começa em 1929. Werner Forssmann era um médico residente alemão que, assim como muitos, se indagava se o cateterismo poderia ser usado no coração — o procedimento, até então, era aplicado principalmente na uretra e em vasos periféricos. Especulava-se que o cateterismo poderia ser muito útil para avaliar estruturas próximas à nossa bomba de sangue, mas temia-se que fazer uma tentativa dessas mataria os pacientes.
Forssmann acreditava que o cateterismo cardíaco podia funcionar se combinado ao uso de raios-X. Descobertos no final do século 19, eles já eram uma realidade na Medicina, mas ainda de forma muito modesta: eram usados principalmente para diagnóstico de fraturas e deformidades ósseas, e também para radiografias dos pulmões.
Assim como Forssmann, vários médicos acreditavam que, com o uso de raios-X, seria possível guiar o cateter de forma precisa até o coração, diminuindo consideravelmente os riscos para os pacientes.
Acreditar é uma coisa, ter coragem pra testar é outra. Mas Forssmann teve.
O dia da verdade
Naquele ano de 1929, Forssmann trabalhava no hospital de Eberswalde, ao norte de Berlim. Ele havia discutido com seu chefe a possibilidade de realizar o cateterismo cardíaco com apoio de raio-X, ao que o superior lhe respondeu: teste em animais primeiro. Mas Forssmann tinha uma ideia ainda melhor: testar o procedimento em si mesmo!
O chefe, claro, não poderia saber. Mas pelo menos uma pessoa precisava estar por dentro do plano: Gerda Ditzen, a enfermeira que tinha a chave da sala de suprimentos médicos, de onde Forssmann poderia obter os instrumentos cirúrgicos e a anestesia. Ditzen, empolgada com a novidade, aceitou participar do plano e se voluntariou para o experimento.
No dia combinado, os dois entraram na sala e Ditzen deitou na maca. Forssmann a preparou para a cirurgia e a amarrou no leito. Só que, quando ela não estava olhando, o médico aplicou a anestesia em seu próprio braço: ele não arriscaria testar o cateterismo em outra pessoa, portanto estava decidido a realizar o procedimento em si mesmo.
Ele continuou a “preparar” Ditzen para a cirurgia e, quando a anestesia fez efeito, fez um corte no próprio braço e inseriu o cateter por 30 cm para dentro da própria veia. Em seguida, pediu a Ditzen, já desamarrada, que chamasse a enfermeira encarregada dos raios-X. Ditzen, percebendo que o homem estava determinado a fazer uma autocirurgia, acatou o pedido.
Os dois foram à sala de raio-X, onde Forssmann começou a tirar as chapas de si mesmo. Aí, surgiu mais um problema: outro médico, chamado Peter Romeis, apareceu e começou a lutar contra Forssmann, tentando arrancar o cateter de seu braço — ele estava tentando “salvar a vida” do amigo.
Forssmann conseguiu se desvencilhar ou convencer o amigo a parar de interferir, não se sabe ao certo. Quando sentiu que o cateter havia chegado à articulação de seu ombro, ele o forçou mais fundo pela veia antecubital até que o tubo atingisse seu objetivo final: o átrio direito do coração. O cateter já havia penetrado pelo menos 50 cm para dentro do corpo dele.
O procedimento foi um sucesso. Posteriormente, Forssmann recebeu autorização para executar a manobra de novo, desta vez em um paciente terminal, para a administração de medicamentos. No entanto, quando o médico reuniu seus achados em um artigo científico e o publicou, foi demitido do hospital.
Justiça tardia
Após a demissão, Werner Forssmann abandonou a cardiologia. Mas ainda teve uma carreira notável: tornou-se urologista no Hospital Rudolf Virchow, em Berlim, e depois foi nomeado chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Municipal de Dresden-Friedrichstadt e do Hospital Robert Koch, também na capital alemã. Forssmann serviu como oficial sanitário na Segunda Guerra Mundial, alcançando o posto de cirurgião principal, e chegou a ser prisioneiro de guerra, sendo libertado em 1945.
Sem que ele soubesse, seu artigo escrito em 1929 foi parar nas mãos de dois cientistas estadunidenses na Universidade Columbia, André Cournand e Dickinson W. Richards. Eles já vinham estudando o cateterismo cardíaco há algum tempo e, nos escritos de Forssmann, encontraram informações valiosas para sua pesquisa. A partir de 1941, começaram a publicar uma série de artigos sobre o tema.
Em 1956, os três receberam, em conjunto, o Nobel de Medicina por suas descobertas relacionadas ao cateterismo cardíaco. Forssmann, que não sabia do trabalho que estava sendo desenvolvido nos EUA, ficou surpreso ao descobrir que tinha ganhado o prêmio. “Eu me sinto como um camponês que acabou de descobrir que foi nomeado bispo”, disse ele na época. Após o prêmio, em 1958, Forssmann se tornou chefe da Divisão Cirúrgica do Hospital Evangélico de Düsseldorf.
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